No ar em História de Amor, Julia Almeida comanda produtora e revela projeto sobre a obra do pai, o autor Manoel Carlos


Mesmo no ar com a reprise de História de Amor, Julia Almeida descarta o retorno à atuação. Hoje empresária, ela comanda a produtora Boa Palavra, dedicada a preservar o legado de seu pai, o autor Manoel Carlos, 92 anos. Também está à frente da Florita Beachwear, marca que une moda e ação pelo socioambiental. Em julho, Julia lançará projeto ligado à obra de Maneco, incluindo materiais inéditos. Discreta sobre a vida pessoal do pai, ela reforça o compromisso de manter viva sua contribuição à dramaturgia brasileira. Para ela, o sucesso contínuo das novelas de Manoel Carlos – como o da atual reprise de “História de Amor” – é reflexo de sua sensibilidade e visão atemporal. “As obras seguem relevantes e potentes”, diz a filha

*por Vítor Antunes

Embora esteja no ar diariamente graças à reprise de “História de Amor”, Julia Almeida não planeja retornar aos sets de gravação. “Não. Estou completamente realizada com o trabalho que venho desenvolvendo na produtora Boa Palavra e também à frente da Florita, marca que representa outro lado do meu olhar criativo e do meu modo de estar no mundo”, afirma. Longe das câmeras, Julia vem trilhando caminhos próprios, que refletem engajamento, sensibilidade e um desejo autêntico de impacto positivo. À frente da Florita Beachwear — iniciativa que une moda, consciência ambiental e responsabilidade social — ela tem demonstrado como o universo criativo pode dialogar com causas maiores. Em 2020, por exemplo, resíduos de biquínis biodegradáveis foram reaproveitados para a produção de máscaras de proteção, distribuídas à Aldeia São Vicente do Rio Humaitá, no Acre, comunidade que, inclusive, inspirou uma das coleções da marca.

Além disso, Julia comanda a produtora Boa Palavra, empresa que carrega um propósito afetivo e histórico: preservar e difundir o legado do seu pai, o autor Manoel Carlos, 92 anos.

Meu pai dedicou seu tempo, criatividade, comprometimento e uma ética de trabalho exemplar. Foi um profissional presente, generoso e incansável. Sempre deu mais do que se esperava, por entender que o trabalho era, para ele, uma extensão da própria identidade. Manoel Carlos foi um grande funcionário da Rede Globo — e de outras emissoras — e sua entrega construiu não só personagens e histórias inesquecíveis, mas parte fundamental da memória afetiva da televisão brasileira – Julia Almeida

A trajetória de Manoel Carlos é indissociável da própria história da televisão no Brasil. A TV brasileira nasceu oficialmente em 1950. Três anos depois, veio a TV Record. Em 1965, estreou a TV Globo. Em 1983, a TV Manchete abriu suas portas. Esse breve recorte cronológico serve para dimensionar a importância de um nome que atravessou todas essas eras e que, em maior ou menor grau, colaborou com cada uma dessas emissoras: Manoel Carlos.

Mais do que uma presença constante, ele foi um verdadeiro arquiteto da linguagem televisiva nacional. Muito além das consagradas novelas e das emblemáticas Helenas que se tornaram sua marca, Maneco ajudou a moldar formatos e narrativas que definiriam gerações. Foi um dos idealizadores do “Fantástico”, referência ainda hoje no jornalismo televisivo, e também colaborou para a criação da clássica “Família Trapo”. Sua contribuição é múltipla, profunda e decisiva. Ao revisitar seu legado, o que se reconhece não é apenas a genialidade de um autor, mas a presença de um pensador que ajudou a construir o imaginário coletivo de um país inteiro.

Julia Almeida promete o lançamento de novos projetos relacionados à obra de Manoel Carlos (Foto: Divulgação)

A Boa Palavra está preparando projetos que seguem a missão de preservar e exaltar a obra do autor, mas Julia ainda mantém segredo. “Após um período intenso de organização e estruturação do acervo, estamos com um lançamento programado para julho. A missão da Boa Palavra segue sendo valorizar e proteger o legado artístico de Manoel Carlos — isso continuará sendo nossa prioridade máxima”.

ESPECIAL

Segundo Julia, o bom desempenho da reprise de “História de Amor ” nas tardes da Globo são mais uma prova do talento de seu pai. “O sucesso se mantém porque Manoel Carlos foi um autor à frente de seu tempo. Ele tratava de temas contemporâneos com uma linguagem cotidiana, íntima e atemporal. Por isso, suas obras seguem relevantes e potentes, independentemente de quando forem exibidas”.

Regina Duarte e José Mayer em “História de Amor” (foto: Divulgação/Globo)

Há ainda muito material inédito deixado por Maneco. Um verdadeiro tesouro documental que vem sendo cuidadosamente analisado e sistematizado. Julia não revelou de que forma esses arquivos serão apresentados ao público, mas assegurou que não ficarão trancados nos armários privados da família. “O acervo deixado por Manoel Carlos é vasto. Foram milhares de páginas e documentos digitalizados, incluindo obras inéditas. O que faço agora é organizar esse material, entender seus caminhos e dar destino aos projetos ainda não trabalhados. A novela foi importante em sua trajetória, mas representa apenas uma parte de um universo criativo ainda mais amplo que ele construiu”.

Discreta, como o pai sempre foi, Julia evita dar detalhes sobre o atual momento do autor, que completou 93 anos em março deste ano. A opção pelo silêncio é uma forma de preservar a privacidade e a dignidade de um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira — uma figura que, sem dúvida, segue merecendo todas as honrarias.

Julia Almeida. empresária quer manter vivo o legado do pai, Manoel Carlos (Foto: Divulgação)

Numa das obras de Manoel Carlos, “Baila Comigo” (1981), ele diz que havia uma tradição portuguesa onde palavras importantes deviam ser escritas em maiúscula para grafar a sua profundidade e intensidade. Palavras como Amor, Poema, Tragédia… Ao fim, foi isso que orientou sua vida. Profundidade em palavras que designam sentimentos. O que permanece é a palavra – a Boa Palavra — essa matéria sensível com que Manoel Carlos esculpiu sentimentos, moldou famílias e revelou o cotidiano com a delicadeza de quem sabia escutar o silêncio entre as falas. Sua obra pulsa ainda hoje nas tardes da televisão e no coração de quem reconhece, na simplicidade dos diálogos, a grandeza da vida real. Com a produtora guiada por sua filha, seu legado não repousa em estantes empoeiradas, mas respira, renasce e se projeta no futuro. Porque autores como Maneco não pertencem apenas ao passado: eles seguem escrevendo, mesmo quando já não escrevem mais.