No ar em ‘Guerreiros do Sol’, Mayana Neiva lança álbum e denuncia invisibilidade histórica de compositoras nordestinas


A atriz, que está no ar em “Guerreiros do Sol”, lança seu primeiro álbum como cantora, misturando cordel, música autoral e homenagens a compositoras nordestinas invisibilizadas. Atriz paraibana, ela reafirma seu orgulho das raízes e critica os recortes que diminuem o Nordeste. Em sua trajetória, transforma a arte em manifesto e pertencimento. Com voz e sotaque, reivindica espaço e visibilidade para uma cultura plural e profundamente brasileira

Mayana Neiva lança álbum e denuncia invisibilidade histórica de compositoras nordestinas

*por Vítor Antunes

Uma mulher que nunca se afastou de suas raízes. Talvez essa seja uma das definições mais precisas para Mayana Neiva, atriz paraibana – de Campina Grande – que brilhou na televisão desde sua primeira aparição. Ela está na série “Guerreiros do Sol” e, paralelamente, investe com muita determinação na carreira musical. Neste mês de julho, lançou seu primeiro álbum, “Tá tudo aqui dentro”, revelando uma personalidade marcada pela força e riqueza cultural do Nordeste. O show que acompanha o disco, afirma ela, é também uma homenagem às mulheres. Mayana ressalta que o projeto busca garantir uma presença mais afirmativa de artistas nordestinos no cenário cultural nacional – especialmente das mulheres, muitas vezes invisibilizadas. “Queremos reencontrar e valorizar essas compositoras nordestinas, vozes marcantes da nossa cultura. Fala-se muito em Dominguinhos (1941-2013), mas quase nunca se menciona Anastácia, que compôs mais de 500 músicas com ele. O mesmo ocorre com Sivuca, autor de Feira de Mangaio, eternizada por Clara Nunes, enquanto sua parceira, Glorinha Gadelha, costuma ser esquecida”.

Acredito que existe um recorte que empobrece a nossa cultura. A cultura nordestina — assim como as culturas do Norte, Sudeste e Sul — é tão brasileira quanto as culturas carioca e paulistana. Isso sempre causa uma dor. É difícil encaixar dentro da ideia de regionalidade, pois muitas vezes isso funciona como uma forma de diminuição – Mayana Neiva

A atriz reivindica ainda que haja um olhar mais generoso para com o Nordeste, de modo que ele não seja visto como um lugar de “arte regional”, mas de arte brasileira, bem como ressalta que o gênero literário do cordel esteja morrendo: “A música sempre foi um grande sonho, nutrido ao longo de muitos anos – embora nem sempre tenha sido assim. “Depois de contar histórias de outras pessoas, percebi que precisava me perguntar onde a minha própria história começa. A música é, em grande parte, um relato da minha vida”, afirma a artista, que já na primeira faixa do álbum apresenta um cordel autoral. E ela prossegue: “A proposta do disco e do show é misturar a cultura nordestina com músicas autorais, canções imortalizadas por vozes femininas — compositoras e cantoras nordestinas —, além do cordel, uma forma de poesia que, se não for atualizada, não alcança as novas gerações”.

Trecho do novo clipe de Mayana Neiva “Assim que a chuva voltou” (Foto: Divulgação)

A atriz também traz a reflexão: “O Nordeste é extremamente rico. Se observarmos quem constrói e habita o Rio de Janeiro e São Paulo hoje, veremos que há uma presença marcante de nordestinos. A própria economia do Brasil depende de muitos aspectos fortemente ligados ao Nordeste. Acredito que a região precisa ocupar esse lugar de autoridade – um espaço que já vem conquistando, por exemplo, no cinema. Quando olhamos para o que há de mais relevante no cinema brasileiro atual, temos nomes como Kleber Mendonça Filho e o cinema de Pernambuco como grande expoente. Estamos, aos poucos, vencendo esses preconceitos. Vivemos um momento em que há avanços, mas ainda há um caminho a percorrer. Hoje, já temos mais representantes legítimos na televisão falando com seu sotaque, o que não era comum quando comecei na TV”.

CORDEL DA MULHER NORDESTINA

Entre 1997 e 1998, a TV Manchete levou ao ar “Mandacaru”, uma novela ambientada no universo do cangaço, que buscava retratar a força simbólica e histórica dos sertões nordestinos. Quase três décadas depois, em 2025, a Globo, através da Globoplay, apresenta “Guerreiros do Sol”, uma produção original que também mergulha nesse imaginário – mas com uma abordagem profundamente diferente. A principal distinção entre essas duas obras não está apenas no enredo ou no tempo em que foram realizadas, mas na forma como representam o povo da região, especialmente no que diz respeito à presença de atores e atrizes de lá oriundos. Diferente das produções do passado, Guerreiros do Sol evita caricaturas. Não há invenções de sotaques, nem um “nordestinês” forjado ou estereotipado para efeitos dramáticos. Trata-se de uma representação mais autêntica, que respeita as suas  nuances culturais e linguísticas.

“No momento em que você influencia um país inteiro, isso também vira uma voz política” (Foto: Divulgação)

Para Mayana, há uma valorização crescente da diversidade brasileira e de suas múltiplas identidades regionais — ainda que essa mudança seja recente e enfrente desafios estruturais. “É claro que existem os custos de produção que dificultam trazer uma equipe de outro estado, afinal a arte da TV também é um negócio. Mas no momento em que você influencia um país inteiro, isso também vira uma voz política. Então, o Brasil se vê representado com um argumento de autoridade. Eu, que nasci no Nordeste, quando vejo alguém na televisão falando com meu sotaque, observo um processo de identificação, de empoderamento, de criação de outros discursos. Eu vejo que hoje em dia a gente vai criando cada vez mais clareza de que o brasileiro é diverso, é heterogêneo. E que a beleza de ser brasileiro reside nessas particularidades. ‘Guerreiros do Sol’ é majoritariamente nordestina e essa presença ainda está vindo, mas é uma luta que eu acho que está sendo feita. Acredito que a gente está ganhando mais espaço”.

Se o meu trabalho pede, eu tiro o sotaque quando é necessário, sou atriz. Mas na minha vida pessoal, eu faço questão de mantê-lo, porque é a minha identidade,  minha força, porque eu acho que tem muito de quem eu sou nele – Mayana Neiva

Esse compromisso com as raízes se revela também no trabalho musical da atriz. Mayana tem investido com seriedade na carreira de cantora, e afirma que cada escolha artística vem carregada de significado. A trilha sonora de seu show é um mergulho pessoal nas suas origens, na sua terra e na força ancestral das mulheres nordestinas. “Tem duas músicas que estão no meu show que são ‘Lamento Sertanejo’ e ‘Feira de Mangaio’, esta última, uma música, para mim, que fala das minhas origens,  que canta as belezas do Nordeste – e de uma feira da região – que eu sou apaixonada. E tem o meu cordel, que é o “Cordel da Mulher Paraibana“, que já fala de um Nordeste diverso das mulheres, paraibanas, nordestinas e sertanejas, elas são de muitas maneiras: tatuadas, maduras, jovens. É o manifesto de abertura do meu disco, que eu sinto que tem a ver com reencontrar essas raízes, mas hoje, em 2025”.

Mayana Neiva, de “Guerreiros do Sol”, lança álbum e fala de compositoras invisibilizadas: “Elas costumam ser esquecidas” (Foto: Divulgação)

Num mundo de imagem, de algoritmo, onde você não sabe mais quem é quem, eu acho que a gente fincar o pé nos nossos valores e o lugar do meu coração, onde o meu coração pertence – Mayana Moura

Há cobranças que recaem sobre mulheres artistas — especialmente atrizes — e que não atingem os homens da mesma forma. Mayana diz que “a sociedade exige muito pouco dos homens, enquanto impõe às mulheres a obrigação de serem magras, bonitas, bem vestidas, bem-sucedidas, terem um relacionamento, filhos… É uma pressão enorme. O homem envelhece e continua sendo visto como galã; cabelo branco nele é charme, maturidade. Já a mulher é logo considerada velha. Ainda há uma expectativa social de beleza que recai sobre nós, embora estejamos nos libertando. Mas o movimento ainda é de “pé na porta”. Enquanto isso, um homem pode envelhecer, engordar, e ser capa de revista ao lado de uma mulher muito mais jovem. Já uma mulher mais velha com um homem mais novo vira escândalo, o que é  uma bobagem! Sinto que, com a maturidade, muitas mulheres acessam sua verdadeira força – aquilo que é eterno em nós – e isso nos torna ainda melhores, mais lúcidas sobre o que realmente importa”.

Mayana Neiva: “Sinto que, com a maturidade, muitas mulheres acessam sua verdadeira força — aquilo que é eterno em nós” (foto: Divulgação)

A cada ano, no entanto, me sinto mais forte, mais bonita, mais conectada com minha essência — menos presa a códigos externos e mais enraizada em quem sou. Essa é uma beleza que cresce. Me emociono quando vejo a Elba Ramalho no São João de Campina Grande, tamanha a força daquela mulher madura, no auge da criatividade. Denise Fraga também é um exemplo dessa potência. Aos 18 anos, nem eu, nem elas, tínhamos essa força – Mayana Neiva

Atriz, cantora e, por acaso, miss. Mayana conta que o título de Miss Paraíba surgiu de forma inesperada, ainda nos primeiros passos no teatro. “Fui miss por acaso. Estava fazendo uma peça em João Pessoa, tinha acabado de concluir o curso de teatro, e o organizador do concurso assistiu a um ensaio meu. Depois disso, me convidou”, relembra.

Apesar do orgulho por ter representado sua terra natal, hoje ela questiona os modelos estéticos tradicionais que ainda predominam em concursos de beleza. “Acho que o concurso de Miss é algo clássico, que continua existindo, mas, de alguma forma, nós, mulheres, precisamos de novas referências. Tenho orgulho de ter sido Miss Paraíba, porque amo o meu estado, amo a minha cultura. Mas acredito que as mulheres podem ganhar relevância em outros campos. Hoje, temos mulheres de todos os tipos. Muitas vezes, a beleza acaba sendo colocada na frente do talento e de outras qualidades. Acho importante a gente dar mais visibilidade à força, à capacidade, ao talento das mulheres. Ampliar esse campo — não apenas da beleza ou da estética —, mas também da alma humana. A beleza é passageira. Ela tem seu valor, cumpre seu papel, mas é efêmera”.

Essa visão mais ampla e profunda sobre a identidade feminina também foi moldada pela própria vivência artística. Ao longo da carreira, Mayana descobriu que os personagens que interpretou serviram como espelhos e portais – experiências transformadoras, que a tornaram mais empática. “Acho que as personagens nos tornam cada vez mais humanas. Através delas, eu mergulho em nomes e sobrenomes que não são os meus, conheço vidas que não são a minha e entendo que as pessoas são muito mais parecidas do que diferentes. Nos últimos anos, tenho sentido que a arte – e os personagens – têm me levado a ser uma pessoa mais humana. E são justamente os projetos mais ligados ao humano que mais me interessam atualmente”.

Na arte e na vida, há uma frase que a acompanha como guia. Um verso de Grande Sertão: Veredas, obra de Guimarães Rosa (1908-1967) que ela considera o livro da sua vida: “Eu abracei o amor que eu tinha por Diadorim com as asas de todos os pássaros”. E completa: “Essa frase me traduz completamente. Porque, se a gente ama alguma coisa, a gente precisa abraçá-la com tudo”.

Mayana Neiva caminha com a firmeza de quem sabe de onde vem e, por isso mesmo, tem clareza sobre para onde deseja ir. Seu sotaque – que jamais abandona na vida pessoal – é uma bandeira, uma declaração de pertencimento e resistência. Entre o teatro, o set e os palcos da música, ela vai bordando sua trajetória com a delicadeza do cordel e a força das matriarcas nordestinas. Sua arte não é apenas representação: é reinvindicação, memória, manifesto. Ao cantar “Feira de Mangaio” ou seu próprio “Cordel da Mulher Paraibana”, Mayana religa as pontas de um Brasil que, tantas vezes, insiste em esquecer de onde vem. Mas ela, não. Com as asas de todos os pássaros, como no verso de Rosa que carrega no peito, ela abraça o amor que sente por sua cultura, sua origem e sua história — inteira, indomada e essencial.