No ar em ‘A Nobreza do Amor’, Julia Lemos celebra espaço para atores nordestinos em um mercado que foi preconceituoso


A recifense Julia Lemos vive Ana Maria em “A Nobreza do Amor”, personagem marcada pela baixa autoestima, mas destaca que sua própria criação familiar valorizou autoconfiança para além da aparência. A atriz avalia que o mercado audiovisual vive um momento mais aberto a artistas de fora do eixo Rio–São Paulo, impulsionado pelas redes sociais e por novas formas de divulgação do trabalho. Em breve, ela estreia no cinema nacional com o longa pernambucano “O Rio”, dirigido por Islã Esmeraldo e Hilton Lacerda, experiência que define como especialmente emocionante por ter sido realizada em sua terra natal. Julia também celebra a recepção positiva da novela e acredita que seguir acreditando nos personagens é essencial para o ofício. Diante das exigências contemporâneas de atuar, produzir conteúdo e dialogar com o público, ela encara as redes sociais como um espaço de aprendizado constante, construindo uma carreira conectada às suas raízes e aos novos tempos

*por Vítor Antunes

O Nordeste foi retratado inúmeras vezes na teledramaturgia, assim como atores nordestinos foram escalados repetidamente para dar vida a personagens da mesma região — ainda que essa classificação seja controversa, já que tratar o Nordeste como um bloco monolítico ignora diferenças fundamentais. Agora, a recifense Julia Lemos está de volta à televisão em “A Nobreza do Amor”, novela ambientada no Rio Grande do Norte. Ela dá vida a Ana Maria, uma personagem doce, tímida e que sofre com a baixa autoestima — algo bastante recorrente na dramaturgia nacional. Oriunda do Recife, Julia acredita que este momento é uma primavera para quem vem de fora do eixo Rio–São Paulo. Até bem pouco tempo atrás, era necessário que essas pessoas camuflassem seus sotaques — inclusive para sobreviver profissionalmente no Centro-Sul.

“Eu percebo que cada vez mais o mercado se abre para pessoas fora do eixo Rio–São Paulo. Acho que é um momento próspero e acho que a previsão é que esse mercado torne-se cada vez mais próspera para pessoas que não são do eixo. Acho que as redes sociais facilitaram esse contato com pessoas de fora de Rio–São Paulo.” Embora a personagem lide com a autoestima de maneira problemática, a atriz teve um repertório bem distinto dentro de casa. “A minha família é um contraponto em relação à família de Ana Maria, porque eu fui criada num ambiente que sempre exaltou muito as minhas qualidades e que sempre viu autoestima como algo mais amplo do que só estética. Eu tenho uma autoestima muito boa, eu gosto muito de mim — tanto por estética quanto pela pessoa que eu tento ser, pelas coisas que eu gosto de estudar e pelas coisas que eu gosto de aprender. Eu acho que a minha relação com autoestima perpassa esse caminho.”

Julia Lemos debate autoestima na trama das 18h (Foto: Maju Magalhães)

A gente tem plataformas para expor o nosso trabalho — no teatro, nos textos escritos, para trabalhar a nossa criatividade. Acho que isso tem aberto o leque de possibilidades e, consequentemente, o próprio mercado – Julia Lemos

Em breve, a atriz você vai fazer sua estreia no cinema nacional com o filme pernambucano….
Ela fala sobre como foifazer um projeto na sua terra. E o que pode contar sobre o filme. “Foi incrível participar de “O Rio“, que é esse longa dirigido por Islã Esmeraldo e Hilton Lacerda. Eu já era muito fã dos dois, então foi uma honra poder participar de um filme deles. É muito bonito poder fazer cinema pernabucano, muito bonito poder trabalhar na minha terra. Eu adoro trabalhar, mas existe um encantamento especial ao trabalhar em Pernambuco. Não tem como negar. E é um filme muito bonito, é um filme que toca em um assunto muito pertinente. Eu acho que vai ser bonito, estou muito ansiosa para assistir também. ”

Julia Lemos é pernambucana e vive potiguar em novela (Foto: Maju Magalhães)

Eu acho que a expectativa em relação ao nosso trabalho é intrínseca ao nosso ofício já que a gente faz um trabalho que é apresentado ao público todos os dias. O bonito nessa novela é o quanto que a gente acredita nessa história, nos personagens e a recepção do público tem sido muito positiva e tem acrescentado muito também ao nosso trabalho- Julia Lemos

Para Julia, a multiplicidade de exigências que recai sobre os artistas de hoje — atuar, produzir conteúdo, gerir a própria imagem e dialogar diretamente com o público — é, antes de tudo, um fruto do tempo em que vive. “Apesar de eu ter crescido já com acesso às redes sociais, percebo que todos os dias as coisas se renovam. Tenho tentado entender o meu lugar como atriz nesse novo universo — acho que tudo é um aprendizado e estou aberta a aprender cada vez mais sobre esse novo mundo”, reflete.

Quanto à expectativa que orbita o próprio trabalho, a atriz a vê como parte inerente do ofício. “A expectativa em relação ao nosso trabalho é intrínseca à nossa profissão, já que fazemos algo que é apresentado ao público todos os dias. O que é bonito nessa novela é o quanto a gente acredita nessa história e nos personagens — e a recepção do público tem sido muito positiva e tem acrescentado muito ao nosso trabalho. O importante é continuar acreditando no que fazemos.”

Julia Lemos fala sobre a urgência de criação para as redes sociais em paralelo à atuação profissional (Foto: Maju Magalhães)

Julia parece caminhar na contramão de um tempo apressado. Entre as dunas da ficção potiguar, as ruas do Recife e as novas paisagens das redes sociais, ela segue construindo sua trajetória sem abrir mão das próprias raízes. Em um mercado que finalmente começa a ouvir vozes vindas de diferentes geografias e sotaques, a atriz floresce como quem carrega o mar de Pernambuco nos olhos: firme, inquieta e cheia de horizonte. E, enquanto Ana Maria aprende a enxergar o próprio valor, Julia confirma que algumas histórias mais do que representar um lugar — ajudam a ampliá-lo.