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No ar como Natália de “Éramos Seis”, Marcela Jacobina diz: “Temos em comum inquietação e necessidade de mudança”

Atriz, cineasta, modelo e diretora criativa, Marcela planeja gravar um curta-metragem escrito, dirigido e protagonizado por ela logo após a trama das 18h: "Eu sou bastante autodidata e naturalmente mantenho uma rotina de estudo de arte, literatura, cinema, filosofia e psicanálise no meu dia a dia"

Publicado em 05/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

No ar em seu primeiro papel na TV Globo, Marcela Jacobina já era acostumada com o meio artístico mesmo antes de viver Natália, em “Éramos Seis”. Estabelecida como modelo fora do país, a atriz, cineasta e diretora criativa iniciou sua carreira em Nova York, onde viveu por quase sete anos, e passou por experiências em revistas de prestígio e clientes de luxo. “Eu comecei a minha carreira no Brasil escrevendo artigos e entrevistas para veículos e revistas de moda’. Aos 21 anos, em 2012, eu me mudei sem muito planejamento para Nova York, com o objetivo de fazer uma transição para styling e direção criativa. Senti uma vontade de trabalhar mais com imagens e menos com as palavras. Eu estagiei e fiz assistência para profissionais diferentes até conseguir começar a trabalhar por minha conta. Foi uma época muito difícil, mas absolutamente transformadora e recompensadora. Ter entre 21 e 27 anos é difícil para qualquer pessoa em qualquer lugar, e certamente foi para mim em uma cidade como Nova York, sem vínculos e contando cada centavo. Aprendi a ter uma vida muito móvel. Até hoje todos os meus bens pessoais cabem em duas malas e só. Eventualmente a carreira como stylist começou a decolar. Saí de lá ano passado fazendo trabalhos de prestígios como uma capa da Teen Vogue e esbarrando com a Anna Wintour nos corredores da Condé Nast. Mas eu não sentia mais vontade de trabalhar com moda 100% ou morar em uma cidade tão intensa como aquela de janeiro a janeiro. Precisava tirar um momento para mim, descobrir paixões novas e entender qual seria o próximo passo. Foi uma decisão difícil, mas fiz as (duas) malas e fui embora”, lembra.

Marcela Jacobina é atriz, cineasta, stylist e diretora de arte (Foto: Divulgação)

Foi aí que decidiu mudar-se para Paris. “Na verdade eu não sei bem porque fui a Paris. É o lugar que mais amo no mundo. Por algum motivo, me sinto em casa. Fui com um dinheirinho que tinha juntado e passei quatro meses estudando atuação e escrevendo um curta-metragem. Nessa época, eu tive a oportunidade de fazer o meu primeiro papel como atriz em um curta metragem em Portugal também”, diz. “A paixão por cinema sempre existiu. Fiz uma coisa e outra, mas a ideia de ser cineasta sempre foi muito intimidadora e distante para mim. Por algum motivo, nos últimos dois anos em Nova York essa vontade foi ficando cada vez maior. Comecei a passar todo o meu tempo livre assistindo filmes e estudando cinema. Em casa mesmo. Meu Instagram, por exemplo, virou sem querer um lugar para compartilhar capturas de telas de filmes. Engraçado como tenho tantos cineastas e diretores de fotografias super famosos do Brasil e lá de fora que encontram a minha página e começam a seguir. Aconteceu naturalmente. Comecei a entender filmes como explorações de ideias. A partir daí, comecei a pensar que talvez também pudesse me expressar através disso”, conta.

(Foto: Divulgação)

Estrear uma trama na Rede Globo – realização de um grande sonho – também foi fruto de contatos nas redes sociais. “Eu ainda não acredito que isso aconteceu! A ideia de tentar trabalhar como atriz surgiu há pouco mais de um ano. Eu cheguei de volta ao Brasil, em fevereiro de 2019, para resolver meu visto francês e dentre os meses que tive que ficar aqui entrei em contato com o diretor de casting da Globo pelo Instagram. Só para marcar uma reunião e me apresentar. No mesmo dia, eu fui levada para conhecer os diretores da novela e iniciar o processo de testes. Um daqueles raros momentos em que você está no lugar certo na hora certa. Foram dois meses de testes. O visto francês rolou, mas eu fui escalada pela emissora e resolvi me basear no Brasil por um tempo. Eu amo a nossa equipe, o nosso elenco e a minha personagem. Não poderia estar tendo uma melhor primeira experiência”, elogia.

(Foto: Divulgação)

Falando na personagem, Natália tem muito da Marcela. A começar por sua história: ela vem de Paris e chega sozinha em São Paulo, em 1930. “Nós duas temos em comum esta inquietação e necessidade de constante mudança. E mais do que não ter medo de mudar, eu não sei como não o fazer”, confessa. “Também temos em comum o amor aos livros, às palavras e às idéias. Mas a Natália é uma pessoa que passou por dificuldades que eu não tenho como conceber, tendo vivido tantas perdas e guerras como alguém que cresceu na Europa daquela época. Ela chega ao Brasil sem família, sem dinheiro e sem vínculos. É narcisista, possessiva, manipuladora. E como se ela tivesse escapado da guerra, mas a guerra ainda estivesse em sua cabeça e seu corpo. Como atriz, eu preciso entender de onde vem estes impulsos e padrões, descobrir a relação dela com os pais, traçar todo o seu perfil psicológico. Compreender sem julgamento que estas foram as maneiras que ela encontrou para sobreviver até agora”, pontua.

Marcela e Natália, em “Éramos Seis” (Foto: Divulgação)

A personagem não existia na história original, dos anos 40, ou nas versões anteriores, mas Marcela fez questão de ler o livro para se ambientar. “Ela é uma personagem muito misteriosa, vem de Paris, mas não é francesa de nascença, chega sozinha em São Paulo se envolve com o personagem do Ricardo Pereira. Ninguém sabe ao certo de onde ela veio e quais são os seus planos. Ela e o Almeida têm uma união estável, já que ele é divorciado e na época e não poderia casar-se novamente. Ela trabalha em casa como tradutora. É muito inteligente e não tem medo de enfrentar certas convenções da época”, diz.

Se a ideia era esperar o visto francês, será que, após a novela, Marcela deixa novamente o Brasil? “Aprendi nos últimos anos a não planejar muito. Eu quero estar sempre inspirada e impor cada vez menos limites a mim mesma. Enquanto eu estiver cuidando da minha cabeça e da minha saúde, as oportunidades aparecem. Acho bonito acreditar que o acaso é sempre mais criativo do que eu. Posso estudar atuação nos Estados Unidos, ficar no Brasil, ir direto fazer o meu curta em Lisboa. Não sei”, comenta. Falando em curta, trata-se de um projeto escrito, dirigido e protagonizado por ela. “Chama-se ‘Nobody’ ou ‘Futuro de uma Ilusão’ e deve ser filmado em Lisboa ano que vem. Eu vou dirigir e faço a personagem principal. Eu não sei como será dirigir e estar em cena ao mesmo tempo, mas eu não consigo imaginar outra pessoa fazendo este papel, que é muito pessoal. Vou estar rodeada de amigos neste projeto, então me sinto confortável para arriscar”, garante ela, que, apesar de tantas funções, acredita que todos os seus trabalhos vê de uma paixão: a arte.

(Foto: Divulgação)

“Eu não traço diferenças muito claras entre as todas as atividades que faço. Uso o audiovisual, a fotografia e o meu corpo para contar as histórias complexas e íntimas que me perturbam e inspiram em determinado momento. Eu sou bastante autodidata e naturalmente mantenho uma rotina de estudo de arte, literatura, cinema, filosofia e psicanálise no meu dia a dia. Fiz alguns semestres de Jornalismo na PUC-Rio, mas não por muito tempo. Cada projeto demanda que eu esteja em determinada posição e faça determinada pesquisa, mas seja à frente ou atrás da câmera, tudo faz parte do processo criativo”.

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