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Neville d’Almeida retorna aos cinemas com “A Frente Fria que a Chuva Traz” sobre a falta de caráter entre jovens ricos. “Eu tenho nojo dos personagens”

Com elenco de jovens afinados e cheios de energia como Bruna Linzmeyer, Chay Suede, Johnny Massaro, Michael Melamed e Nathália Lima Verde, o longa debate sexo, drogas e consumismo barato

Publicado em 26/04/2016 | Por Leonardo Rocha

Controverso, intrigante e politicamente incorreto! Essa é a definição perfeita para “A Frente Fria que Chuva Traz”, filme que marca o retorno do diretor Neville d’Almeida às telonas depois de quase duas décadas de hiato do cinema comercial. O longa, que estreia dia 28 de abril, conta a história de uma juventude rica criada longe da atenção dos pais e muito perto dos seus cartões de crédito. A partir daí, vivem uma vida fútil, sem objetivos, regada a excessos para fugir do vazio que é ter tudo o que se quer. De pano de fundo, Neville conta ao HT que escolheu uma simpática laje no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio, para contrastar o purgatório da beleza e do caos.

Elenco do filme "A Frente Fria que a Chuva Traz" (Foto: Divulgação)

Elenco do filme “A Frente Fria que a Chuva Traz” (Foto: Divulgação)

“Eu tenho nojo dos personagens do filme. Ele, na verdade, é uma crítica social. É a degeneração total da classe dominante junto com o desrespeito e a falta de ética dessas pessoas que acham que podem comprar tudo. Falamos sobre a ‘cafetinização’ da favela pelos ricos. O nosso filme é implacável, não faz concessões a ninguém e está destinado a abrir um novo sentido. É a pura transgressão verbal”, adiantou. “Mas eu acho que existe solução para tudo, até para essas pessoas sem desenvolvimento intelectual”, ponderou.

Com um elenco de jovens afinados e cheios de energia como Bruna Linzmeyer, Chay Suede, Johnny Massaro, Michael Melamed e outros, a história, que foi gravada em 2014, promete chocar os mais tradicionais. “É assombroso ver um filme sobre a estupidez, a insensibilidade, a imbecilidade, a desonestidade. Todos os personagens são assim, e não é ficção. Eles são verdade, são pessoas que vemos nas ruas o tempo todo”, contou o diretor.

Almeida é considerado um ícone do cinema marginal brasileiro. São dele filmes como “A Dama da Lotação” (1978), “Os Sete Gatinhos” (1980), “Rio Babilônia” (1982) e “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1991). O mais recente até aqui era “Navalha na Carne” (1997). E, como em seus trabalhos anteriores, ele confessa que continua prestigiando as mulheres em suas produções. “Eu sempre coloco personagens femininas em evidência nos meus filmes. Foi a mesma coisa que fiz com Sônia Braga, que fiz com Claudia Raia, Vera Fisher, Chhistiane Torloni e, agora, estamos aqui fazendo com a Bruna Linzmayer. Tratando dessa aberração que são essas situações vividas por ela”, disse.

Bruna Linzmayer é Amsterdam (Foto: Divulgação)

Bruna Linzmayer é Amsterdam (Foto: Divulgação)

“Eu amo o personagem da Bruna, porque ao mesmo tempo que é o mais louco é mais lúcido. Eu vinha observando a Bruna há algum tempo e ela viveu intensamente a personagem e cumpriu muito bem o seu papel, assim como todos os outros meninos”, frisou o diretor. Na história, Bruna Linzmeyer vive Amsterdam, uma jovem viciada em heroína e que se prostitui para manter a demanda de seu vício.

Em “A Frente Fria que a Chuva Traz”, a tal laje vira um oásis hedonista no meio das dificuldades vividas em uma favela carioca, onde os personagens, em sua maioria jovens endinheirados do asfalto, alugam o espaço no alto do morro para curtir suas festinhas proibidas, regadas a sexo, álcool e diversas drogas sintéticas. Tudo comandado por Alisson, personagem interpretado por Johnny Massaro – um mauricinho mimado que faz do espaço seu quartel general. “Essa imersão aconteceu há quase dois anos. É muito louco ver esse resultado pronto só agora. O Neville é um doce e completamente livre. Foi um grande prazer trabalhar com ele”, disse o ator. “O Alisson é um garoto que não consegue lidar com seus problemas e se afunda nesse mundo de fantasia que ele cria na cabeça. Ele acredita que pode comprar tudo e todo mundo com o dinheiro que tem”, contou.

Johnny Massaro é Alisson, o chefe da "gangue" (Foto: Divulgação)

Johnny Massaro é Alisson, o chefe da “gangue” (Foto: Divulgação)

O ator, que estava no ar em “A Regra do Jogo”, ainda considera importante esse tipo de abordagem na sétima arte, já que as pessoas estão muito caretas. “O importante desse filme é questionar. O que não pode acontecer é um conservadorismo cego e que se liga a questões religiosas, que é o que a gente tem visto hoje em dia. Nudez, sexo e drogas são tabus e isso precisa ser falado e conversado. Existem lugares fora do Brasil, onde a prostituição e algumas drogas leves são legalizadas e não passam por questões constrangedoras como a fome, etc.É muito importante falar sobre isso também”, completou.

Outro destaque do elenco é a atriz Nathália Lima Verde, que dá vida à fútil e sentimental Beatriz. Entre momentos de embriaguez e instabilidade emocional no filme, a atriz fala sobre o desafio de ficar nua pela primeira vez frente às câmeras para a produção de Neville. “No início a gente fica mais tímida, mas depois a gente se solta, né? O elenco estava superafinado e não tinha como dar erro”, contou. “A Beatriz vai na onda dos amigos, chega a ser até inocente, mas por isso acaba quase sendo estuprada e roubada na favela. Não deve ser uma situação muito fácil para uma menina jovem”, observa. Já Chay Suede deixa de lado o posto de herói e assume uma personalidade duvidosa. Espeto, seu personagem, é um dos cabeças da “gangue”, mas com um diferencial: fornece drogas aos outros amigos e, diversas vezes, em troca de sexo com mulheres.

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Elenco do “A Frente Fria que a Chuva Traz” no Festival do Rio (Foto: Divulgação)

Baseado em um texto de Mário Bortolotto para o teatro, o longa mostra o luxo e o lixo convivendo através do morro e do asfalto. As gravações no Vidigal, em uma das vistas mais privilegiadas da cidade, também contribuiram para o clima de distanciamento entre os dois mundos. O título é uma referência ao mau tempo que impede o grupo de continuar a festa, fazendo com que alguns conflitos e diferenças apareçam ainda mais fortes durante o temporal.

“Eu acho que o cinema não deve ser politicamente correto. O cinema tem que ser o retrato de uma época, de um momento, de uma situação. O cinema tem que trazer ousadia, inversão e renovação. E não querer ficar parecendo uma novelinha ou um seriado americano. A ferramenta do artista é a liberdade e não e repressão”, finalizou o diretor Neville d’Almeida.

Veja o trailer oficial de “A Frente Fria que a Chuva Traz”

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