*Por Brunna Condini
Depois de emocionar plateias no teatro e conquistar leitores com o livro homônimo de Thaís Vilarinho, ‘Mãe Fora da Caixa’ chega aos cinemas no dia 27 de novembro, em versão dirigida por Manuh Fontes. Estrelado por Miá Mello e Danton Mello, o longa mergulha nas contradições da maternidade real, fugindo dos clichês e do ideal da “mãe perfeita”. Em entrevista ao site, Miá reflete sobre a trajetória da obra, que nasceu como desabafo, virou peça e agora ganha um olhar mais íntimo e cinematográfico, e fala sobre os bastidores de um set majoritariamente feminino, onde a vulnerabilidade virou potência. “A Manuh trouxe uma sensibilidade muito especial. Escolhemos mostrar a sobrecarga, o cansaço, o medo de errar. É um olhar mais duro, mas profundamente humano”.
A atriz também comenta o julgamento social ainda imposto às mães, mesmo em tempos de empatia virtual: “Existe até um tipo de ‘julgamento com filtro’: o elogio à mãe imperfeita, mas dentro do limite aceitável. O peso continua”. Casada há quase 15 anos com o diretor Lucas Melo, com quem tem Nina, de 15, e Antônio, de 7, ela reflete ainda sobre as imperfeições da vida a dois — “O verdadeiro afrodisíaco é o companheirismo” — e sobre o que o público pode esperar do filme: “Mostramos que dá para estar exausta e grata ao mesmo tempo. Que o amor muda de forma, e está tudo bem. Igual à vida: vai passar, vai piorar, e vai passar de novo”.

Miá Mello estrela ‘Mãe Fora da Caixa’ no cinema, retratando as dores e delícias da maternidade. Ela fala sobre suas experiências, o olhar feminino no set e o casamento (Foto: Mariana França)
No filme, Miá dá vida a Manu, uma mulher que tenta equilibrar carreira, maternidade, casamento e autoconhecimento enquanto enfrenta o caos cotidiano e as expectativas irreais sobre suas múltiplas funções ao maternar. Inspirado na peça homônima que a própria Miá estrelou com enorme sucesso, o filme propõe um retrato honesto, divertido e comovente da maternidade contemporânea, feita de amor, culpa, exaustão e descobertas. “Foi um desafio traduzir essa história para o cinema, porque ela já tem uma vida própria”, conta. “O livro é um desabafo, a peça é um grito coletivo, e o filme é um mergulho. A gente levou tudo para um lugar mais íntimo, mais cinematográfico mesmo, com momentos de respiro e a câmera entrando nas entrelinhas da maternidade”.

Miá Mello e Danton Mello protagonizam o longa Miá Mello empresta sua experiência para Manu, sua personagem no filme ‘Mãe Fora da Caixa’ que chega aos cinemas em 27 de novembro (Foto: Divulgação)
Com um olhar feminino à frente e um set dominado por mulheres, muitas delas mães, Miá acredita que a autenticidade do longa vem justamente dessa troca. “Nunca nem foi uma possibilidade que não fosse uma mulher dirigindo. A Manuh entende os silêncios, as dores e o riso dessa mãe de um jeito natural. Não precisa explicar nada; ela sente junto. Isso muda tudo no set”. Para a atriz, o grande poder da produção é o de quebrar o tabu da maternidade perfeita. Entre risos, Miá lembra ainda de uma fala do pai, que costuma resumir o assunto com humor e realismo: “Filho é bom, mas dura”. E resume:
Acho que o filme mostra justamente essas contradições da maternidade. Que a gente pode amar muito e, ao mesmo tempo, querer fugir por cinco minutos. É importante tirar a mãe desse pedestal santificado, porque quando ela é colocada nesse lugar idealizado, perde a sua humanidade, e é justamente aí que mora a verdade. Sempre brinco quando alguém fala ‘guerreira’: “Imagina, guerreira nada, tô é exausta!” (risos). A maternidade não é uma propaganda perfeita, é uma bagunça, e é lindo que seja assim. Mostrar essa mistura de amor, caos e beleza era essencial, porque ser mãe é tudo isso junto – Miá Mello

Miá Mello empresta sua experiência para Manu, sua personagem no filme ‘Mãe Fora da Caixa’ (Foto: Divulgação)
Além de se reconhecer nas fragilidades da personagem, Miá admite que revisitar sua própria maternidade foi inevitável durante o processo. “Quando comecei a peça, meus filhos eram pequenos (a atriz segue com o espetáculo em cartaz por cerca de seis anos). Hoje tenho um adolescente e um de oito anos. Eu também sou outra mãe. A maternidade continua sendo um tema que me atravessa, mesmo depois de tantos anos”, reflete. Casada o diretor Lucas Melo, a atriz fala ainda sobre as transformações do amor e da parceria com o tempo:
Eu diria que a palavra é calma. O amor muda de forma, e está tudo bem. O tesão também muda, mas se transforma em algo até mais bonito. Posso dizer? O verdadeiro afrodisíaco é o companheirismo. Estar com alguém que te apoia, que te deixa descansar, que te incentiva, isso é o que realmente alimenta uma relação. É o que mantém o desejo vivo. Ainda bem que encontrei esse grande parceiro. Ano que vem fazemos 15 anos de casamento. Olha que doideira! O tempo passa e, junto com ele, a relação vai ganhando novas formas, mas continua cheia de amor – Miá Mello

Lucas Melo, Miá Mello e os filhos Antônio e Nina (Foto: Reprodução/Instagram)
Mesmo hoje, em que se fala tanto da maternidade não idealizada, as mães ainda são muito julgadas? “Sim. Com todos os discursos de empatia e acolhimento nas redes sociais, o olhar da sociedade continua muito duro. Percebo isso claramente quando estou em cartaz com a peça ‘Mãe Fora da Caixa’. Em determinado momento, pergunto se há alguma mãe na plateia saindo pela primeira vez sem o filho, e é impressionante: quase todas levantam a mão. Quando pergunto como foi a logística pra conseguirem estar ali, a resposta é quase sempre a mesma: “Deixei tudo organizado, roupinha empilhada, comidinha pronta.” E geralmente deixaram com o pai, que é tão responsável quanto. Isso mostra o quanto ainda existe uma carga enorme sobre a mulher, um senso de culpa que é socialmente construído”.
Hoje existe até um tipo de ‘julgamento com filtro’ aquela coisa do “que linda, sendo imperfeita”, como se a vulnerabilidade também precisasse de aprovação. Mas, na prática, o peso continua. Mesmo com tanta conversa sobre liberdade materna, ser mãe segue sendo viver sob um olhar crítico constante – Miá Mello

“Sempre brinco quando alguém fala ‘guerreira’, e penso: “Imagina, guerreira nada, tô é exausta!” (risos). A maternidade não é uma propaganda perfeita, é uma bagunça, e é lindo que seja assim” (Foto: Mariana França)
Aos 44 anos, a atriz se diz realizada como mãe e afirma que a ‘caixa’ de ter mais filhos está ‘lacrada’, e que agora, de novos ‘filhos’, só projetos. “Amo ser mãe, mas é do Antônio e da Nina. Essa fase de bebê já foi. Agora quero cuidar deles crescendo, cuidar dos meus projetos, das minhas ideias… e da menopausa também, que é meu novo tema no teatro!”, adianta.
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