*Por Brunna Condini
Destaque do novo drama da HBO Max, ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’, que estreia nesta quinta-feira (13), Marjorie Estiano encarna uma mulher livre, que não se enquadra nos padrões dos anos 1970, e que pagou com a própria vida por desafiar o machismo de seu tempo. A série sobre Ângela Diniz (1944–1976), com foco mais em sua história do que no sensacionalismo que cercou o crime, chega com um atraso de 49 anos, mas vale muito conferir. Desde o assassinato da socialite, que se aguardava a narrativa sob o ponto de vista de uma mulher que ousou ser exatamente o que era. Será que Ângela, ainda hoje, pagaria com a própria vida por ser fiel à sua identidade? Infelizmente, talvez, sim. O Brasil ocupa a quinta posição no ranking mundial de feminicídios, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa é a história e muitas ‘Ângelas’ e ainda precisa ser contada.
Morta a tiros pelo então companheiro Doca Street (Emílio Dantas), Ângela Diniz foi duplamente condenada: primeiro pelo crime brutal, depois pelo olhar moralista da sociedade. Inspirada no podcast ‘Praia dos Ossos’, da Rádio Novelo, a série revive o caso que abalou o país e impulsionou o movimento feminista brasileiro, abrindo caminho para mudanças nas leis de proteção às mulheres. “Interpretar Ângela foi quase um processo psicanalítico”, conta Marjorie. “Ela é uma personagem que se dedica ao prazer, que se autoriza ao prazer. Isso é algo muito importante. A gente sente culpa por sentir prazer, por tirar férias, por se divertir, por não estar produzindo. Era uma figura que se autorizava a oferecer liberdade de viver. Não queria conquistar absolutamente nada, empreender absolutamente nada. Para ela, a beleza da vida era só viver. E isso é um ensinamento para todos nós”. A atriz admite que se transformou profundamente ao viver Ângela:
Me identifico com a falta dessa “autorização” de prazer, de beleza, de liberdade. Para mim, a vida sempre foi muito trabalho, que é compromisso, seriedade. Então, foi uma oportunidade de me experimentar na leveza – Marjorie Estiano

Marjorie Estiano vive Ângela Diniz, mulher livre que desafiou o machismo dos anos 1970 e pagou com a própria vida pela lealdade à sua essência (Foto: Reprodução/Instagram)
O convite para o papel veio do diretor Andrucha Waddington, parceiro de longa data, com quem fez o sucesso ‘Sob Pressão‘, produção Globo e Globoplay. “Faria o que quer que ele me chamasse, só perguntaria quando”, garante. “Quando ouvi o podcast ‘Praia dos Ossos’, fiquei enlouquecida. É um trabalho riquíssimo, uma pesquisa profunda. E a partir dali percebi o tamanho da responsabilidade que era interpretar essa mulher, símbolo involuntário de uma luta que ainda é nossa”. Mais do que reconstruir uma figura histórica, Marjorie mergulhou em uma ferida coletiva:
Já sofri inúmeras violências de gênero, e como mulher, vou continuar sofrendo, porque essa ainda é a realidade. As transformações são lentas. A teoria da legítima defesa da honra só caiu em 2023, o que mostra que a mentalidade continua a mesma. A gente precisa de novas leis porque continuamos sendo ameaçadas – Marjorie Estiano

Marjorie Estiano protagoniza ‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’, que estreia na HBO Max nesta quinta-feira (13) (Foto: Divulgação)
Considerada uma das grandes atrizes de sua geração, Marjorie que coleciona personagens memoráveis — aos 43 anos já soma pelo menos 28 pisando nos palcos, já que começou no teatro amador ainda em Curitiba aos 15 — faz questão de frisar o ineditismo de interpretar uma mulher que vive o prazer sem culpa:
As personagens femininas não são construídas para sentir prazer, mas para sofrer. Ter uma personagem combativa, protagonista da própria vida e dada ao prazer é absolutamente exceção. Foi um privilégio e um desafio enormes, porque eu também faço parte do grupo que está sempre brigando para se expandir – Marjorie Estiano

“Ela é uma personagem que se dedica ao prazer, que se autoriza ao prazer. Isso é algo muito importante” (Foto: Divulgação)
Versátil e curiosa, a atriz também pode ser vista no longa ‘Enterre seus mortos‘, que estreou final de outubro. Dirigido por Marco Dutra, o filme é uma das produções originais Globoplay, que Marjorie protagoniza ao lado de outro grande parceiro, Selton Mello. Ainda sobre a história de Ângela Diniz, ela pontua: “A série fala de uma mulher que queria simplesmente existir. E ainda assim, quase 50 anos depois, precisamos lembrar o quanto a liberdade feminina incomoda. É um espelho desconfortável do país que fomos, e do país que ainda somos”.

“Fazer Ângela foi quase um processo psicanalítico” (Foto: Divulgação)
A série
‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’, enfrentou uma longa disputa por direitos autorais e, após a conquista, o desafio de retratar uma mulher que fugia aos padrões nos anos 1970, o que acabou transformando Ângela Diniz em um símbolo da luta contra a violência de gênero no Brasil. A produção conta a história do assassinato à queima roupa da socialite Ângela Diniz pelo namorado Doca Street. Figura conhecida da alta sociedade mineira dos anos 70, Ângela foi uma mulher de espírito livre. O julgamento controverso de sua morte foi um dos mais emblemáticos e midiáticos do país, já que depois de inúmeras reviravoltas, resultou, em um primeiro momento, na liberdade e na inocência de Doca. Utilizando a tese da legítima defesa da honra, a defesa do acusado transformou Ângela em culpada pela própria morte, revoltando a opinião pública, principalmente integrantes dos movimentos feministas.
Três fases da vida da socialite serão abordadas pela série, com cenas que vão desde o primeiro casamento até o julgamento realizado após as investigações do crime. A produção também destaca a relação próxima de Ângela com a mãe (Maria, vivida por Yara de Novaes), o período após o divórcio de seu primeiro marido e o início do relacionamento entre a vítima e seu assassino. ‘Ângela Diniz – Assassinada e Condenada‘ é uma série de ficção HBO Original produzida pela Conspiração. Escrita por Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares, conta com direção geral de Andrucha Waddington e direção de 2ª unidade de Rebeca Diniz. A produção é assinada por Waddington e Renata Brandão.

Marjorie Estiano e Emílio Dantas, são Ângela Diniz e Doca Street em série da HBO Max (Foto: Divulgação)
Artigos relacionados
Eliana volta com o dominical na Globo, fala sobre críticas ao programa, ajustes e revela muita ação em game inédito
Novela que eternizou Vera Fischer como "Deusa" está só 34% preservada e pesquisador aponta outras tramas perdidas
Cristiana Oliveira retorna à novela inédita da Globo após 14 anos, fala sobre maturidade e diz: "Não vivo de passado"