*por Vítor Antunes
Uma das expressões que melhor definia Jorge Fernando (1955-2019) — segundo ele próprio — e que inclusive nomeava seu espetáculo pessoal era “Boom”, ou seja, uma explosão. O termo não poderia ser mais adequado: explosão de energia, de criatividade e de humor, marcas registradas de sua trajetória como ator e diretor. No início deste ano, em março, Jorge completaria 70 anos, celebrando uma carreira vitoriosa, marcada por sucessos e por uma assinatura estética inconfundível em todos os seus trabalhos. Jorge Fernando morreu em outubro de 2019, deixando um vazio imenso no teatro, na televisão e, sobretudo, na família. Dois meses depois, em dezembro, sua mãe, a atriz Hilda Rebello (1924-2019), morreu aos 95 anos, profundamente abalada pela partida do filho. A dor se repetiria, de maneira brutal, em outubro de 2024: João Rebello (1979-2019), sobrinho de Jorge, morreu tragicamente em Trancoso, na Bahia, após ser confundido com um criminoso.
Ainda que a tristeza tenha se abatido sobre a família nos últimos anos, a atriz Maria Carol Rebello — sobrinha de Jorge e atualmente no ar na novela “Êta Mundo Melhor” no horário das 18h da Globo — decidiu transformar a memória em criação artística. Ela assina e narra o documentário “Fôlego – Até depois do fim”, que estreia no próximo dia 2 de outubro no Festival do Rio, coincidindo com o mês que levou tanto Jorge quanto João. Para Maria Carol, a data carrega uma simbologia profunda: “As coincidências nas datas na história da minha família são muito presentes e impressionantes nesse mistério que é a vida”.

Maria Carol e João Rebello. Ex-ator foi assassinado por engano, em 2024 (Foto: Reprodução)
Segundo a atriz, a oportunidade de realizar o filme é também uma forma de reafirmar o legado do tio, cujo brilho permanece vivo. “Meu tio teria completado 70 anos no dia 29 de março deste ano e sempre é tempo de celebrá-lo. Celebrar o amor que ele me deu em vida, celebrar o artista maravilhoso que ele é e tudo que deixou de marca registrada e de legado para a história da televisão brasileira”.
O longa, dirigido por Candé Salles, vai além de um retrato individual. Maria Carol enfatiza que o projeto não se restringe a Jorge, embora sua presença seja inevitável. “Meu documentário não é sobre o Jorge apenas, mas um filme independente onde conto a história da minha família. Esse projeto nasceu da necessidade que eu tinha de revisitar tudo o que vivemos, produzimos juntos, e das minhas perdas”.
Jorge era um artista do povo. Ele gostava de falar com as pessoas da forma mais simples e mais próxima possível. Ele alcançou tudo o que alcançou, mas manteve essa característica de popular. Acho que essa transgressão dele vem dessa forma escrachada de se expressar com duas coisas que lhe pautaram a vida: a baixaria e a espiritualidade”.
O documentário contará ainda com depoimentos de grandes nomes que cruzaram a trajetória da família Rebello e de Jorge em especial, como Ney Matogrosso — a quem dirigiu em espetáculos nos anos 1980 —, Xuxa, com quem trabalhou no cinema, além de Cláudia Raia, Tony Ramos e outros parceiros de vida e de arte.

Bastidores da filmagem do documentário sobre a família Rebello (Foto: Blad Meneghel)
No fim, “Fôlego – Até depois do fim” parece cumprir exatamente o que o título promete: devolver ar, voz e permanência a uma história atravessada por perdas, mas também iluminada pela arte. Se Jorge Fernando foi “Boom”, a explosão que marcou a televisão e o teatro brasileiros, Maria Carol oferece agora o sopro sereno da memória — prova de que alguns artistas não se despedem, apenas mudam de forma. O legado de Jorge, vibrante e popular, continua ecoando, como se o riso e a espiritualidade que o guiavam seguissem a respirar muito além do último ato.
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