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Manuela Dias, autora de “Justiça”, quer provocar a reflexão do espectador: “Ponto de interrogação no final de cada uma das nossas afirmações”

Apesar de abordar questões como racismo, estupro e eutanásia, a escritora afirmou que os personagens não carregarão os rótulos de mocinho ou vilão. Segundo Manuela, caberá ao público defender ou não cada história e ponto de vista. "A gente chega tão próximo a todos eles que, vistos de perto, eles se humanizam"

Publicado em 22/08/2016 | Por Julia Pimentel

O que é certo para um pode não ser para o outro. Com o objetivo de propor a reflexão em cima do que é justo e aceitável na nossa sociedade, a Globo estreia a minissérie “Justiça” nesta segunda-feira. A partir de histórias que envolvem assassinatos, prisões, racismo, estupro e eutanásia, a autora Manuela Dias criou quatro tramas diferentes que vão ao ar às segundas, terças, quintas e sextas-feiras depois da novela das 21h, Velho Chico. Embora as situações fictícias se misturem com a realidade dos noticiários, Manuela contou que tudo surgiu de sua mente criativa. “Esses casos não estavam no noticiário diretamente. Mas, eu tenho certeza que, se vasculharmos as notícias, encontraremos situações iguais pelo mundo. Eu cheguei a essas quatro tramas da minissérie olhando para o mundo, para dentro de mim e pensando no que mobiliza e onde está a veia cardíaca dessas histórias”, revelou a autora que acrescentou que teve a concepção do novo trabalho de uma vez só. “A ideia, o formato e o nome nasceram juntos, como se fossem um bloco único, na minha cabeça. A partir dai, eu fui juntando esses atos que são considerados crimes em uma mesma história”, completou.

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Manuela Dias, autora da minissérie "Justiça" (Foto: Reprodução)

Manuela Dias, autora da minissérie “Justiça” (Foto: Reprodução)

Embora possa parecer confusa no primeiro momento, Manuela esclareceu ao HT que a minissérie “Justiça” seguirá um caminho linear. A dinâmica vai funcionar da seguinte maneira: a cada segunda-feira o público vai acompanhar a história de um grupo de personagens. Do mesmo modo com as terças, quintas e sextas-feiras. E, ao desenrolar da trama, as histórias vão se misturando e se transformando em uma só. “No primeiro capítulo, a minissérie mostra o passado, que são os crimes que ocorrem em 2009. Então, no primeiro momento, toda a história do crime, da prisão e da soltura das quatro tramas são contadas. Depois, a partir da segunda semana da minissérie, começa, de fato, a desenrolar e misturar a trama. Apesar dessa proposta cronológica, as nossas tramas são lineares. Então, a história não fica indo e voltando, ela segue um mesmo ritmo. Inclusive, o tempo funciona quase que como uma linha de scanner que vai passando em todas as tramas ao mesmo tempo. E é isso que faz com que a minissérie se junte e se complete espacialmente”, explicou Manuela que também foi a autora de “Ligações Perigosas”, exibida na Globo em janeiro de 2016.

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A trama abordará temas polêmicos e difíceis como o estupro, o racismo e a eutanásia (Foto: Reprodução)

A trama abordará temas polêmicos e difíceis como o estupro, o racismo e a eutanásia (Foto: Reprodução)

Como Manuela Dias citou, os crimes que movimentarão a minissérie ocorrerão no passado, em 2009, e as situações seguintes no presente, em 2016. Ou seja, apesar de diferentes delitos, as penas serão as mesmas para todos os envolvidos: sete anos. Sobre esse mesmo intervalo de tempo dedicado a reclusão dos personagens, a autora esclareceu que queria que fosse um tempo considerável, mas não tão longo assim. “Eu queria que fosse bastante tempo a ponto de modificar essas vidas e, simultaneamente, que não fossem tantos anos a ponto de acabar com essas histórias. Ou seja, eu queria que essas vidas fossem modificadas mas, de alguma forma, ainda estivessem estáveis”, destacou.

Outro diferencial de “Justiça” é que, apesar de tratar de temas sérios e polêmicos, a forma com que a trama é apresentada ao público não emprega o título de mocinho ou vilão aos personagens. Desta forma, os espectadores poderão ficar do lado e apoiar o assassino mesmo ele sendo o responsável por um crime. Para a autora Manuela Dias, essa possibilidade de escolha que dilui esses rótulos está relacionada à proximidade do público com a narrativa dos personagens. “A gente chega tão próximo a todos eles que, vistos de perto, eles se humanizam. Então, eu acho que é essa proximidade que dilui esse suposto maniqueísmo que poderia existir”, opinou a autora que sonha em também escrever novelas.

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Em "Justiça" os personagens não carregarão os rótulos de mocinhos ou vilões (Foto: Reprodução)

Em “Justiça” os personagens não carregarão os rótulos de mocinhos ou vilões (Foto: Reprodução)

Porém, explorar temáticas como estupro, eutanásia, racismo e outros crimes passionais não é tão simples assim. Ciente disso, Manuela que, embora tivesse toda a liberdade para criar suas histórias fictícias, procurou respaldo jurídico para garantir a veracidade a trama. “Eu tive primeiro as ideias com total liberdade e depois eu fui me alimentando de pesquisa, porque era importante que a trama encontrasse respaldo na realidade e que não fosse totalmente louca. Mas o nosso direito é de reabilitação. Então, a nossa justiça, que é romana, acredita nesse arrependimento, por isso tem progressão de pena e uma ideia de reintegração do meliante à sociedade. A gente acredita que as pessoas se regeneram. Eu acho que um dos pontos fortes de ‘Justiça’, é esse clamor pela tolerância, que é um caminho de infinitos passos. Mas, a partir do momento que uma pessoa tolera algo, ela simplesmente aceita e é isso”, ressaltou a autora que reconhece a importância e a presença da justiça na sociedade brasileira. “O Brasil é um lugar em que tudo o que a gente pensa, lê ou vive passa pela questão da justiça de alguma forma. Nesse sentido, eu acho que é um ganho que a gente possa problematizar a questão do justo, da forma mais íntima da palavra. A gente quer colocar um ponto de interrogação no final de cada uma das nossas afirmações e, com isso, humanizar a justiça, fazendo com que ela seja pessoal”, declarou a autora Manuela Dias.

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