Luana Piovani expõe abusos na TV, transforma vivências em peça de teatro e critica falsos religiosos


“Faz 35 anos que tomo porrada, fiquei boa nisso, não me incomodo, mas sempre achei que sabia viver nesse modus operandi. Vim ao Brasil e as pessoas resolveram me amar”, diz a atriz que está no Brasil encenando peça autobiográfica e recebeu muito carinho. Prestes a retornar ao desfile das escolas de samba, no Rio, Luana afirma: “Tenho um corpo maravilhoso e real, que enxergo como templo para ser ovacionado na Sapucaí”. Analisa ainda a falta de união da classe artística e o que muitos se submetem com medo do desemprego”. Naturalmente indignada, Luana não poupa críticas a figuras que, segundo ela, se aproveitam da fé alheia de maneira desonesta e profundamente destrutiva

*por Vítor Antunes

Um antigo programa da TV Tupi chamava-se “Pinga-Fogo“. Nele, personalidades que tinham o que dizer eram entrevistadas e, não raro, confrontadas diante das câmeras. A fórmula – direta, incisiva e sem concessões – atravessou décadas e inspirou outros formatos semelhantes na televisão brasileira. Luana Piovani, no entanto, está além do “pingo de fogo”. Ela é combustão permanente. Uma personalidade em estado de ebulição, marcada por clareza de pensamento, contundência verbal e uma intensidade proporcional à própria trajetória pública. Essa força, que tantas vezes foi interpretada como polêmica, ganha agora forma cênica em “Cantos da Lua”, espetáculo escrito pela própria atriz, e em cartaz no Teatro BDO Jaraguá, em São Paulo.

Na montagem, Luana transforma experiência pessoal em matéria teatral, costurando memória, reflexão e presença de palco. É esse turbilhão de mulher – consciente de sua história, de suas escolhas e do impacto que provoca – que o público encontra em cena. “A peça é autobiográfica. Eu fiz o texto. Conto histórias da minha vida pessoal. Tive esse insight por causa das redes sociais, de perceber o movimento que eu gerava e o quão positivo era a cada vez que eu compartilhava coisas de dificuldade ou obstáculos que eu tinha conseguido superar”.

A gente multiplica humanidade quando compartilha dor – Luana Piovani

Luana afirma que um dos aspectos mais surpreendentes da recepção do espetáculo foi justamente o acolhimento. Em vez da hostilidade que esperava, encontrou afeto. O embate deu lugar à escuta, e o julgamento foi substituído pela identificação. “Eu não sei que fenômeno é esse. Faz 35 anos que tomo porrada, fiquei boa nisso, não me incomodo, mas sempre achei que sabia viver nesse modus operandi de tomar porrada. Vim para o Brasil e as pessoas resolveram me amar. Não estava preparada para o amor e eu não sei o porquê disso. Ou o povo, depois de tanto a água mole bater na pedra dura, amadureceu a lucidez e que não sou polêmica ou briguentа como me atrelaram. Eu sou inteligente, lúcida, sei meus direitos e tenho questão de vivê-los, pois cumpro meus deveres”.

Ela prossegue: “Eu estava me coçando para voltar ao palco e pensei em fazer stand-up. Queria uma produção enxuta. Portugal não tem tradição de peças muito patrocinadas, a indústria ainda é muito mantida pelo governo e tinha que caber no bolso de Portugal. Pensei em algo menor. Como eu não sou uma comediante de stand-up, mas uma pessoa de teatro, depois que o projeto foi colocado de pé acabou ganhando uma cara de peça de teatro. Tem música ao vivo, cenário, figurino, luz, início, meio e fim”.

Luana Piovani não repele os adjetivos que recebeu durante a vida. Acredita ser assim, “menos polêmica” (Foto: Renam Cristofoletti)

Tendo estreado muito jovem na televisão – em 1993, como protagonista da série “Sex Appeal” -, Luana diz não enxergar rupturas profundas entre a mulher de então e a de hoje. O que mudou, segundo ela, foi o grau de maturidade e a consciência sobre os bastidores, muitas vezes duros, da indústria audiovisual. “Não há diferença entre a Luana que começou na carreira e a atual. Mas me sinto mais amadurecida, muito experiente. O que tenho de carreira, meu ex tinha de idade. É muito tempo sendo assertiva e não me submetendo a monopólios e grandes patrões, e, especialmente, não me submetendo para fazer a linha ‘social’, devendo favores. Isso nunca fez parte de mim. Mesmo lá atrás eu não tinha todas as certezas que tenho hoje. Eu já sei quando devo obedecer à minha intuição imediatamente. É um sistema de defesa que Deus nos deu enquanto intuição”.

A atriz relembra em como suas decisões profissionais impactaram seu trabalho: ‘Quando eu protagonizei ‘Sex Appeal’, a Globo chegou com um contrato longo para os atores da série para que eles fizessem uma novela [que viria a ser “Olho no Olho”, 1993], e eu não quis o contrato de três anos. Não queria fazer novela de jeito algum. Eles foram super abusivos comigo. Não quis. As pessoas, quando entro, acham que vai ser difícil trabalhar comigo só por eu ser profissional. Quando eu agrego, estou preocupada com meus colegas e com os objetos de cena. Eu fui tirada de uma novela, de ‘Anjo Mau’, pois disseram que eu desagregava a produção porque dizia que eu não estava disponível para os horários da emissora. Em “Anjo Mau”, eu só fiz a preparação do elenco”.

Luana Piovani em “sex Appeal” (foto: Jorge Baumann/Globo)

HUMANIDADE, CARETICE E OUTROS 

Naturalmente indignada, Luana não poupa críticas a figuras que, segundo ela, se aproveitam da fé alheia de maneira desonesta e profundamente destrutiva. Para a atriz, esse tipo de atuação – travestida de religiosidade – não apenas deturpa o sentido da fé como também promove violência simbólica e material. Ela afirma que tais práticas envergonhariam sua avó, uma evangélica convicta, que viveu a espiritualidade de forma ética e coerente. “A minha avó estaria dando voltas no túmulo pelo que os evangélicos estão fazendo com a religião. Todos que se dizem evangélicos, pastores malfeitos, levianos, mentirosos, que roubam de pobres ou abusam sexualmente de pessoas vulneráveis por questões financeiras, não são evangélicos. São pessoas sob o domínio do mal, do cramunhão. São a escória da espiritualidade”.

E acrescenta: “Todos esses pastores e essa corja de falastrões de ladrões são o que há de pior que se esconde pelo véu. As pessoas precisam despertar para isso, inclusive para a intuição. Minha espiritualidade começa inicialmente com a religião evangélica e depois pelo meu direcionamento para a vida espiritual. Hoje, eu me sinto próxima das religiões afro, quero me aproximar para entender melhor e admirar mais. E isso conversa com Deus, com minha avó evangélica e com o que eu escrevi e estudei na Bíblia, que traz uma conversa que é associação figurativa das pessoas daquela época. As pessoas não podem ser escravas do patrão, nem da fome, nem do pastor”.

A atriz também faz uma leitura crítica sobre o que hoje se convencionou chamar de “uberização do trabalho”. Para ela, trata-se de um fenômeno antigo, apenas reembalado por novas terminologias. Luana afirma ter vivenciado dinâmicas semelhantes ainda nos anos 1990, quando iniciou sua carreira na televisão.

 “A uberização do trabalho acontece há muitos anos. Eu entrei na TV com 16 anos. A classe é desunida e há uma coisa horrível, que é o medo do desemprego, e as pessoas se submetem. Os protagonistas de novela da época em que eu trabalhava nunca fizeram o que eu fiz, que era, ao fim do meu horário, pegar a bolsa e ir embora. Eu era a única que fazia. Os donos da TV aberta sabem disso e se prevalecem disso, pois sabem que essas pessoas trabalham sob a pressão do medo, já que as oportunidades são pequenas. Medo de não ter trabalho, nem oportunidade. O que aconteceu comigo é que nunca tive medo de ser esquecida, de não ter emprego, e sempre que não concordava eu me negava a fazer. Todo mundo perde”.

Embora não descarte um retorno às novelas, Luana estabelece condições muito claras para isso. O formato tradicional, com longas durações e exigência de dedicação integral, já não se encaixa em sua vida atual, dividida entre Brasil e Portugal:

Eu só fiz duas novelas inteiras – “Suave Veneno” (1999) e “Guerra dos Sexos” (2013). Voltaria a fazer participações em novelas quando elas passarem a ter dois meses. Quando elas durarem 10 meses ou um ano, eu só passo a fazer participações. Eu moro em Portugal, minha vida é lá, meus filhos estudam lá e eu posso vir ao Brasil fazer coisas pontuais, mas não posso ficar aqui em tempo integral – Luana Piovani

Perguntada sobre a percepção de que a televisão teria “encaretado”, Luana inverte a lógica. Para ela, não foi a TV que mudou, mas as pessoas, dominadas pelo medo e pela incapacidade de lidar com a transformação. “Acho que as pessoas enlouqueceram, não a TV. As pessoas ficaram com medo de perder o conforto e têm uma relação defensiva. Em vez de girar o caleidoscópio e ver outros prismas, elas decidem empurrar o caleidoscópio e não ver nada que difira daquilo, o que é uma ignorância. A vida se transforma o tempo todo. Querer estar no estático é de uma imbecilidade atroz”, frisa.

“Mas os donos da TV aberta são cagões e têm medo de arriscar e levar a régua para cima. Em vez de instigar, dão tudo mastigado, e por isso as novelas perderam a qualidade. Agora estamos vendo um pouco mais da realidade como ela deveria ser. Não adianta trazer diálogos e conflitos para a simplificação. A TV educa as pessoas que não têm educação de qualidade para trazer educação social e política, mas os donos desse poder são homens brancos privilegiados e cagões, e em vez de trazer questionamento, consciência e entendimento filosófico, não”.

Outro tema que provoca revolta em Luana é a violência contra as mulheres. Embora reconheça avanços no debate público, ela considera que a gravidade da situação exige ações mais contundentes do Estado. “Há aprofundamento da causa da mulher sobre violência de gênero, existe. Mas o que é de calamidade pública é Lula assumir uma bandeira, que é a de reconhecer a epidemia de violência de gênero. Sabemos todos os dias de casos cada vez piores de violência contra a mulher, da mesma maneira que não há aumento na gravidade da punição. Se juízes, especialmente juízas e promotores, saírem do seu conforto e entrarem numa luta humanitária, nada acontece. Muito pouco resolve ir ao programa da Cissa Guimarães e falar coisas bonitas, fazer debates profundos e cortes maravilhosos no Instagram enquanto mulheres são esfaqueadas na rua.”

Luana acredita que não há uma discussão profunda sobre a questão feminina (Foto: Faya)

ENTRE A CRIANÇA E A SAPUCAÍ

Durante anos, Luana se dedicou ao teatro infantil, acumulando sucessos expressivos. Ainda assim, ela rejeita a ideia de que esse trabalho seja uma tentativa de preservar a “criança interior”. Para a atriz, essa criança nunca deixou de existir. “A minha regra de fazer peça infantil é ser igual à de fazer peça para adulto, só que melhor. Eu converso o tempo inteiro com a minha criança. Eu sou curiosa, interessada, extrovertida, alegre, brincalhona, e isso é nativo de criança. Sei que manter isso vivo é difícil e nunca me submeti à cartilha dos grandes. Eu sempre me submeti à minha cartilha e ao que acreditei, e eu me respeitar fala muito da minha criança interior. Acho que a criança morre quando a gente tem medo de admitir fraqueza, saudade, de chorar na frente dos outros, de dizer que não sabe, de dizer que tem vergonha de aprender algo novo. Nunca tentei abafar essa minha criança”

Eu sigo querendo postar foto de biquíni, bonita, no Instagram, mas o governo segue não deixando. Tenho biquínis maravilhosos, tenho um corpo maravilhoso e real, que enxergo como templo para ser ovacionado na Sapucaí – Luana Piovani

Luana revisitou o próprio meme: “Quero postar foto de biquini no Instagram” (Foto: Faya)

Prestes a retornar ao desfile na Marquês de Sapucaí, no Rio, Luana optou por recomeçar em uma nova escola de samba: o Império Serrano. A decisão veio após um processo de estranhamento com a escola que sempre foi seu amor declarado, o Salgueiro. “Eu sempre fui torcedora do Salgueiro. Entre as minhas vontades de estar completando 50 anos, queria voltar à minha escola do coração. E tive um estranhamento. Me identifiquei pouco com a escola, ainda que tenha achado o enredo maravilhoso e siga apaixonada pela Vivi Araújo, que se desafia, aprendeu a tocar um instrumento e sempre admirei. Mas, chegando próximo à escola, estranhei a chegada das musas, a preocupação delas, o movimento geral capitalista e a plastificação da cara das pessoas, do bumbum de ácido hialurônico à lipo HD, e eu não me identifiquei”.

“Eu quero agregar a esta festa popular e preta e entro muito respeitosamente, batendo na porta e pedindo licença. Foi estranho estar no Salgueiro, não me senti acolhida, achei tudo esquisito, ainda que tenha sido bem recebida. Por essa razão, conversando com um amigo meu, cheguei a pensar em outras escolas. Fui conhecendo os sambas de enredo e as rainhas de bateria, até que me falaram do Império Serrano, que estava homenageando Conceição Evaristo. Eu estava lendo o livro, fui descobrindo tudo, conhecendo a escola e me encantando. O Império Serrano me estendeu um tapete verde e branco e assim me vinculei à escola”.

Luana Piovani: Atriz está de volta ao teatro e à Sapucaí (Foto: Faya)

Para encerrar, a atriz recorre a Shakespeare e cita “O Mercador de Veneza”, evocando uma frase que, segundo ela, sintetiza sua visão de mundo e a orienta eticamente: “Nenhuma justiça é verdadeira se não houver piedade”. A sentença ecoa como chave de leitura de tudo o que veio antes – da palavra afiada que recusa silêncios convenientes ao gesto artístico que transforma dor em partilha. Em cena, na vida pública e nas escolhas que insistem em não se curvar, Luana Piovani opera nesse território instável entre rigor e afeto, onde a verdade não prescinde de compaixão. É ali, nesse ponto de fricção entre o fogo e a escuta, que sua arte se afirma: não para pacificar, mas para lembrar que só há humanidade possível quando se reconhece o outro.