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Lição para o Brasil: apesar de contrariar fatos históricos em “Selma”, Ava DuVernay capricha em comovente cinema político!

Embora controvertida, a versão da diretora Ava DuVernay sobre a saga das três marchas que em 1965, no Alabama, mudaram o destino dos direitos civis dos negros norte-americanos empolga e faz público refletir sobre o poder de mobilização da sociedade

Publicado em 07/02/2015 | Por Alexandre Schnabl

*Por Flávio Di Cola

Quando o pequenino Martin Luther King Jr. (1929-1968) cantou, com apenas 10 anos, nos corais das igrejas de Atlanta durante os festejos organizados para a première mundial de “…E o vento levou” (…Gone with the wind, MGM), na capital do estado da Geórgia, em dezembro de 1939, ele jamais poderia imaginar que esse mitológico super espetáculo já refletia dramaticamente as tremendas contradições da sociedade norte-americana no que tange às questões da igualdade racial: todos os artistas negros que trabalharam no filme foram impedidos de comparecer à pré-estreia por força das leis racistas e segregacionistas que imperaram nos estados sulistas até 1965, apesar da ameaça por parte de Clark Gable de boicotar a festa e das pressões do produtor David O. Selznick e da Metro no sentido de – pelo menos – liberar a presença da atriz Hattie McDaniel, a “mammy” de Scarlett O’Hara, interpretada por Vivien Leigh.

Mas esses apelos resultaram inúteis sob a alegação de que qualquer “provocação” poderia desencadear a fúria dos 300.000 brancos que acompanhariam o evento. Pois bem, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se vingaria dessas atrocidades alguns meses depois ao conceder a Hattie McDaniel o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, primeiro prêmio realmente importante a ser conferido a um representante da raça negra até aquele momento. Hattie, no seu curto e incisivo discurso de agradecimento na cerimônia de premiação, não escondeu a ferida do racismo na vida americana e desceu do palco para entrar ovacionada na história do cinema.

Hattie McDaniel discursa na cerimônia da Academia ao ser a primeira negra a receber um Oscar de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ (Reprodução) 

O filme “Selma Uma luta pela igualdade” (Selma, Pathé/Plan B/Paramount), da diretora negra Ava DuVernay, que estreou quinta-feira no Brasil não é – 75 anos depois do admirável gesto de Hattie McDaniel – apenas mais um lance do problemático relacionamento entre os artistas afro-descendentes e o establishment cinematográfico de Hollywood, cuja mais recente polêmica refere-se ao fato de que – apesar de “Selma” estar entre os oito candidatos ao Oscar da Academia de Melhor Filme, essa produção da dupla Oprah Winfrey e Brad Pitt (entre outros) está curiosamente ausente de qualquer outra categoria importante (como direção, atores principais, fotografia ou roteiro original), restando-lhe o consolo de ter boas chances de ganhar a estatueta para a Melhor Canção com a pujante “Glory” de John Stephens e Lonnie Lynn.

Clipe de “Glory”, forte candidato a papar o Oscar de ‘Melhor Canção’ no dia 22/2 (Divulgação)  

“Selma” também enriquece – com muitas qualidades essencialmente cinematográficas como a direção enxuta, as interpretações seguras, o dinamismo narrativo, e as impecáveis direções de fotografia e arte – a galeria de títulos do cinemão norte-americano que de uns anos para cá se ocupam em revisar a história dos afro-descendentes dos Estados Unidos desde o século 19 através de releituras tão díspares quanto criativas sem esquecer a potência do “grande espetáculo” que emociona enquanto informa as platéias do mundo inteiro sobre os fatos do passado sob a luz dos debates culturais contemporâneos.

DuVernay: engajada, a diretora de 42 anos foi a primeira negra a disputar o Globo de Ouro de 'Melhor Direção' (Foto: Divulgação)

DuVernay: engajada, a diretora de 42 anos foi a primeira negra a disputar o Globo de Ouro de ‘Melhor Direção’ (Foto: Divulgação)

Dentro dessa linhagem, não se pode deixar de reconhecer os esforços particulares e emocionalmente impactantes de Steven Spielberg através da trilogia formada por “A cor púrpura” (The color purple, 1985) com Whoopi Goldberg e a onipresente Oprah Winfrey, “Amistad” (Idem, 1997), com Djimon Hounsou, e “Lincoln” (Idem, 2012), com Daniel Day-Lewis. Devem ser lembrados também os aproveitamentos dos conteúdos mais violentos dos anais da história como a cinebiografia “Malcolm X” (Idem, 1992) de Spike Lee, com Denzel Washington; a sanguinária homenagem ao western spaghetti “Django livre”(Django unchained, 2012) de Quentin Tarantino, com Jamie Foxx; e o calvário de “12 anos de escravidão” (12 years a slave, 2013) dirigido por Steve McQueen, produzido por Brad Pitt, e estrelado por Lupita Nyong’o, o grande vencedor da última edição do Oscar.

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Outra produção revisionista da história afro-americana e que também marcou o ano de 2013 foi “O mordomo da Casa Branca” (The butler) de Lee Daniels, com Forest Whitaker e (adivinhe…) Oprah Winfrey! Apesar de morno e sem brilho, esse filme teve o mérito de apresentar para as grandes plateias o excelente ator David Oyelowo, que trocou o sotaque britânico da sua Oxford natal pelo falar cantado do Alabama para encarnar convincentemente Martin Luther King Jr. em “Selma”, a primeira produção importante da história do cinema a retratar a vida de um dos maiores ativistas da história e só comparável a Mahatma Gandhi no sucesso com que aplicou a estratégia de desobediência civil – pacífica e sistemática – para atingir seus fins, transformando uma realidade dominada pela ignorância, violência e ódio.

Oprah explica em um programa de televisão poque abraçou o filme (Reprodução)

Nas entrevistas que tem dado desde o lançamento de “Selma” no Natal passado, a diretora Ava DuVernay vem repetindo que o seu filme não é sobre uma individualidade em particular – no caso, o pastor Martin Luther King – mas sim uma narrativa ficcional sobre como uma comunidade se organiza no sentido de lutar por igualdade e justiça. Por isso, os 127 minutos de “Selma” são construídos sobre a preparação e os desdobramentos das três históricas marchas empreendidas por ativistas e cidadãos negros entre a pequena cidade de Selma e Montgomery, capital do estado de Alabama, durante o mês de março de 1965, com o objetivo de exigir o pleno exercício do voto na eleições. Explica-se: embora a administração do presidente Lyndon B. Johnson (1908-1973) possa ser considerada historicamente a mais progressista no campo dos direitos civis, na prática pouca coisa mudara na vida da minoria negra no Sul dos Estados Unidos, pois ela acabava impedida de exercer o seu direito de votar por meio de mil expedientes e subterfúgios maliciosamente embutidos em leis municipais e estaduais, ou de maquinações burocráticas nos cartórios eleitorais locais.

Wilkinson como Lyndon Johnson: ator britânico incorpora brilhantemente o presidente que substituiu Kennedy na Casa Branca e conferiu aos negros seus direitos civis (Foto: Divulgação)

Wilkinson como Lyndon B. Johnson: ator britânico incorpora brilhantemente o presidente que substituiu Kennedy na Casa Branca e conferiu aos negros seus direitos civis (Foto: Divulgação)

As marchas pacíficas teriam como objetivo chamar a atenção da mídia e da opinião pública sobre essa questão, levando-a diretamente às portas do palácio do governador segregacionista linha-dura George Wallace (1919-1998), que reprimiu brutalmente a primeira marcha no episódio que foi chamado de Bloody Sunday (Domingo Sangrento), gerando uma profunda comoção na opinião pública americana e embaraçando ainda mais o presidente Johnson, adepto de uma política gradualista de concessão dos direitos. Martin Luther King gozava de respeito e de livre trânsito na cúpula presidencial democrata e parecia ser o líder perfeito para equilibrar os ânimos do eleitorado negro, enquanto a igualdade prometida não chegava. Além disso, King era um contraponto seguro ao belicoso ativista Malcolm X que inspirava as alas mais radicais do movimento pelos direitos civis.

Registro do “domingo sangrento” que marcou a história norte-americana em Selma, no estado sulista do Alabama (Reprodução)

“Selma” consegue sintetizar dentro dos limites de um filme de duas horas o jogo precário das forças concorrentes nesse cenário explosivo e de uma América que já caminhava rapidamente para o centro do inferno: a Guerra do Vietnam. A diretora e co-roteirista DuVernay ainda deu um jeito de inserir na trama alguns episódios das crises conjugais de Coretta e Martin King, motivadas pelas notórias infidelidades do pastor e pela sua entrega incondicional ao ativismo político-religioso.

Aliás, a relativa desconstrução da imagem santificada de Martin Luther King levada a cabo pelo filme de DuVernay incomodou a parte mais idólatra do público pois “Selma” também deixa sob discreta suspeição os motivos que levaram King a abortar a segunda marcha – talvez devido a um acordo de gabinete para não aborrecer demais o presidente Lyndon Johnson que estava em Washington tentado emplacar no Congresso a Lei dos Direitos ao Voto que iria garantir efetivamente aos negros a sua condição de eleitores e que seria promulgada logo depois do sucesso da terceira marcha. Mas mesmo esse feito de Johnson pouco impressionou DuVernay que foi severamente acusada por vários historiadores de ignorar os fatos e negar ao sucessor de Kennedy os seus devidos méritos.

Registro do presidente Lyndon B. Johnson discursando no Congresso durante a histórica votação que conferiu aos negros norte-americanos seus direitos civis (Reprodução) 

A todas essas críticas, a diretora de “Selma” respondeu: “Apresentei a questão das infidelidades de Luther King sem nenhum pré-julgamento e restrito ao seu impacto na vida conjugal de Coretta e Martin. E quanto ao tratamento que dei a Johnson no filme, acho que cada um de nós enxerga a história com as suas próprias lentes, e aqui usei a minha pessoal. É uma visão tão válida quanto qualquer outra. Além disso, “Selma” não é um documentário e eu não sou historiadora, e sim uma contadora de histórias para o cinema”. Aliás, muito talentosa. Que as almas de Martin Luther King Jr. e Lyndon B. Johnson a perdoem, mas, sobretudo, que o Brasil use a lição da diretora para aprender a mudar. Afinal, assim como os negros norte-americanos temiam que tanto esforço pudesse resultar em nada, a grande massa de brasileiros continua descrente no país, sem crer que as recentes manifestações possam resultar em algo além de uma boa pizza calabresa. Quem sabe…

Trailer oficial de “Selma” (Divulgação) 

*Flávio Di Cola é publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e ex-coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá. Apaixonado pela sétima arte em geral, não chega a se encantar com blockbusters, mas é inveterado fã de Liz Taylor – talvez o maior do Cone Sul –, capaz de ter em sua cabeceira um porta-retratos com fotografia autografada pela própria  

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