Lázaro Ramos fala sobre Wagner Moura no Oscar e vive 1º vilão na TV, tipo que identifica nas disputas de poder do mundo


Amigo de Wagner há três décadas, o ator comenta com exclusividade a indicação ao Oscar pela performance no filme ‘O Agente Secreto’. Lázaro também fala sobre seu momento profissional, mais múltiplo que nunca, enquanto estreia como antagonista em ‘A Nobreza do Amor’, nova novela das 18h, na Globo, inspirada em reinos africanos, refletindo sobre personagens movidos por poder que, segundo ele, sempre existiram na história da humanidade e continuam presentes no mundo atual tão violento: “A história está cheia de figuras como Jendal, meu personagem, no passado e no presente. Quando a arte lembra disso, provoca reflexão sobre o que as pessoas fazem quando têm poder nas mãos”

*Por Brunna Condini

Lázaro Ramos, que faz seu primeiro vilão na próxima trama das seis da Globo, ‘A Nobreza do Amor’, com estreia em 16 de março, falou com exclusividade ao site sobre a indicação de Wagner Moura, seu amigo há 30 anos, ao Oscar de Melhor Ator pelo trabalho em ‘O Agente Secreto’. Recentemente Wagner contou que pretende ter Lázaro ao seu lado na cerimônia que será realizada dia 15, em Los Angeles (EUA). Que ‘filme’ é esse que passa na sua cabeça ao ver o seu amigo, colega ator, ocupar o espaço que está hoje, para além do Brasil?

É muito curioso porque o Oscar é um reconhecimento internacional, mundial, fala-se muito, acho importantíssimo, mas ao mesmo tempo, acho lindo perceber que ele está caminhando nessa trajetória e se mantendo fiel ao que o motiva a ser ator desde o princípio. Isso é muito, muito lindo. Ele viajar para o mundo, ser reconhecido no mundo, mantendo esse compromisso – Lázaro Ramos

No campo profissional, o múltiplo Lázaro também vive um momento de celebração simbólica em sua carreira de três décadas: experimenta um vilão folhetinesco para coroar a fase de maturidade artística – Na nova novela das 18h, A Nobreza do Amor’, Lázaro interpreta Jendal, antagonista central da trama ambientada entre um reino africano fictício e o Nordeste brasileiro dos anos 1920; apresenta o ‘Espelho – 20 Anos Depois’, no Canal Brasil; está nos longas Feito Pipa’, dirigido por Allan Deberton, que fez sua estreia mundial na programação oficial do 76º Festival de Berlim, e em ‘Velhos Bandidos‘, filme com a Fernanda Montenegro, lançado no final de março.

E mais: também integra o elenco da terceira temporada da série ‘Os Outros‘, que estreia no segundo semestre no Globoplay. Além de retornar à direção em ‘Mais Que Irmãos‘, no qual também atua. O longa é um road movie, com roteiro de Sérgio Machado, que lança luz sobre a amizade entre um cantor e um poeta. “Estou muito feliz em poder dirigir meu quarto filme. Principalmente por ele dialogar com este momento em que o cinema brasileiro celebra sua identidade e sua linguagem”.

Lázaro Ramos vive seu primeiro grande vilão em ‘A Nobreza do Amor’ e reflete sobre poder, ancestralidade e representatividade (Foto: Divulgação/Globo)

Lázaro Ramos vive seu primeiro grande vilão em ‘A Nobreza do Amor’ e reflete sobre poder, ancestralidade e representatividade (Foto: Divulgação/Globo)

Curiosamente, assumir um vilão nunca esteve entre seus planos. Até que…: “Nunca foi um sonho da minha vida. Meu desejo sempre foi fazer heróis ou anti-heróis para mostrar a humanidade desses personagens”, conta. O convite para o papel surgiu quando foi chamado para ler a novela e dar sua opinião. A reação foi imediata: “Eu falei: não só gostei como quero fazer. Porque vi que tinha algo novo ali”.

Na tentativa de compor Jendal para além do arquétipo do antagonista, o ator buscou compreender as motivações internas do personagem. “Eu não estou defendendo o que ele faz, porque ele comete atos imperdoáveis. Mas tentei entender de onde vêm essas motivações”, explica. Um dos pontos que o ajudaram nesse processo está no próprio texto da novela: “No primeiro capítulo, ele diz que não vai sair de Batanga porque sabe que, fora dali, seria apenas ‘um preto qualquer sem poder’. Isso é uma motivação”. Lázaro deixa claro que compreender o personagem não significa justificá-lo. “Ele manipula, é corrupto, tem atitudes reprováveis. Mesmo com os motivos que falei, o que ele faz continua sendo condenável”. E ressalta que esse tipo de personagem também dialoga com o mundo contemporâneo, imerso em guerras violentas por dinheiro e poder:

A história está cheia de figuras como Jendal, no passado e no presente. Quando a arte lembra disso, provoca reflexão sobre o que as pessoas fazem quando têm poder nas mãos – Lázaro Ramos

Hilton Cobra e Lázaro Ramos em ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/Globo)

Hilton Cobra e Lázaro Ramos em ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/Globo)

Apesar das vilanias do personagem, pensando na ficção, o artista admite que o processo tem sido uma descoberta quase lúdica. “Está sendo uma alegria imensa fazer esse vilão tão bem escrito. É um prazer estranho falar coisas absurdas, maldades”, brinca. Ao mesmo tempo, diz acompanhar a construção da novela também como espectador: “Cada cenário que eu chego, fico mais encantado. Cada figurino que vejo, cada atuação dos colegas, me encanta”.

“Está sendo uma alegria imensa fazer esse vilão tão bem escrito. É um prazer estranho falar coisas absurdas, maldades” (Foto: Reprodução/Instagram)

“Está sendo uma alegria imensa fazer esse vilão tão bem escrito. É um prazer estranho falar coisas absurdas, maldades” (Foto: Reprodução/Instagram)

No fim das contas, Lázaro acredita que o público pode experimentar duas camadas ao acompanhar a trama: a aventura e a reflexão. “Espero que as pessoas se divirtam com essa história, mas também reflitam. As obras que permanecem no tempo costumam tocar emocionalmente e racionalmente. Tomara que ‘A Nobreza do Amor ‘consiga fazer isso também”, conclui.

O vilão de Lázaro

Para o ator, o diferencial da história criada e escrita por Duca RachidJúlio Fischer e Elisio Lopes Jr., com direção artística de Gustavo Fernández, está na amplitude de personagens e relações que compõem a narrativa. “Muitas vezes a gente fazia novelas em que o personagem parecia existir sozinho, sem família, sem rede. Aqui há irmãos, primos, mães, avôs, um reino inteiro de relações”, observa, sobre o folhetim que mergulha em um universo africano de reis e rainhas, disputa de poder, luta por justiça e o despertar do amor entre uma princesa africana e um trabalhador de engenho do Nordeste.

Lázaro Ramos na pele do poderoso Jendal em ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/Globo)

Lázaro Ramos na pele do poderoso Jendal em ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/Globo)

Ao falar do personagem, que começa a história como primeiro-ministro e articula um golpe contra o rei Cayman II (Welket Bungué), usurpando o trono fictício de Batanga e perseguindo a princesa Alika (Duda Santos), a quem tenta forçar o matrimônio para legitimar seu poder, ele comenta: “Não cumpriram a promessa dele casar com a Alika. Quando isso é quebrado, ele desanda. É um homem que não sabe lidar com o ‘não’. Fica autocentrado, tomado pela sede de poder. Tem um momento em que diz: ‘Eu não vou sofrer sozinho. Se eu não tenho o que quero, todo mundo ao meu lado vai sofrer’. Isso diz muito sobre o mundo”.

Duda Santos e Lázaro Ramos em cena da nova novela das seis da Globo (Foto: Divulgação/Globo)

Duda Santos e Lázaro Ramos em cena da nova novela das seis da Globo (Foto: Divulgação/Globo)

E conclui sobre a obra: “Estamos fazendo uma novela onde o continente africano é a inspiração de boa parte dela. Onde nos apropriamos da estética, de referências, de histórias, para criar uma fábula, o que eu acho que já é uma outra revolução. Não estamos apenas fazendo algo documental, estamos nos inspirando, levando uma chuva de referências de beleza, de modo de vida, de gestual, de regras hierárquicas que têm no continente africano. Acho muito lindo podermos levar o concreto e o subjetivo para o público. Isso que se deve a essa conexão e generosidade no relacionamento que estamos tendo aqui na novela”.