*por Vítor Antunes
Muito se fala sobre sustentabilidade, especialmente agora, às vésperas da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que em 2025 chega à sua 30ª edição, a ser realizada em Belém, no Pará. Mas hoje, dia 1º de novembro, vamos conferir uma bela iniciativa na Praia da Barra da Tijuca, no Rio, na altura do quiosque K08 Club: o Festival Mãos Dadas & ReSurf, um encontro que pretende unir esporte e o propósito de fortalecer a causa socioambiental. O evento nasce das mãos do ator Klebber Toledo e terá como convidado o cantor Di Ferrero, entre outros nomes envolvidos em projetos pelo meio ambiente. O campeonato de surfe será disputado em pranchas ecológicas feitas de garrafas PET recicladas. Klebber descreve o festival como “o maior evento de esporte, cultura e sustentabilidade que eu já fiz na minha vida. É um projeto meu, um legado, um movimento único, que acontece agora”.
Ao longo do dia, ativistas, artistas e indígenas também participarão de workshops em defesa do meio ambiente. Entre os convidados, Paul Watson, cofundador do Greenpeace e figura histórica na luta pela preservação dos oceanos, marcará presença. O Povo Yawalapiti, do Alto Xingu, conduzirá uma palestra sobre a relação ancestral com a natureza e a importância de preservá-la – um diálogo entre saberes tradicionais e a urgência da causa ambiental. A programação culmina com a formação da maior corrente humana de mãos dadas já vista nas areias do Rio, gesto simbólico que pretende unir público, ONGs e lideranças em um movimento pelo nosso planeta.
É para a gente alcançar o maior número de corações e darmos as mãos por um futuro que todo mundo quer: mais saudável e sustentável. Não dá mais alguns dizerem ainda ‘que crise climática não existe’. Vai falar isso para as pessoas que perderam a vida e as casas no Sul, ou para outras tantas outras famílias ao redor do mundo. O que elas vivem é consequência de uma tragédia climática. É um crime. Então, chegou o momento que a gente precisa fazer algo que impacte, que mostre que somos um time, um grupo, e que queremos ter o direito de existir na natureza como ela é – Klebber Toledo

Klebber Toledo aposta em pranchas feitas com garrafas PET como consciência ambiental (Foto: MJ Surf)
Para Klebber, o evento é também um protesto silencioso contra a lentidão política. “A nível de política global, temos que parar de tanta retórica e arregaçar as mangas. Sozinho, ninguém é capaz de mudar nada”, diz o ator, que vê o Rio de Janeiro ainda como um retrato do descuido urbano. “A cidade está inteira destruída, um caos. Faltam políticas públicas de sustentabilidade. É sobre educar através do exemplo, mostrar que, se as pessoas não se conscientizarem, não teremos futuro, pontua. Portanto, temos uma vida e precisamos fazer bom uso dela.
O tom da voz de Klebber é de profunda análise da realizada, mas com esperança. “Os dados estão aí a um clique nas mãos de todos. E a ciência tem comprovado este cenário de urgência. É sobre educar através do exemplo”. Enquanto as palestras de Paul Watson e da SOS Mata Atlântica acontecem, surfistas deslizarão sobre o mar com as pranchas fabricadas com garrafas PET. “Aqui a competição estará em conexão com o diálogo da conscientização”, afirma.
O projeto tem inspiração de uma iniciativa criada em 2012. “A ONG Ecogaropaba fabricava desde então pranchas de surfe com garrafas PET e começou a promover alguns festivais de surfe. Nos últimos anos, eu tenho conseguido levar vários amigos para conferirem esta produção e mutirões de limpeza das praias, quando recolhemos o lixo”, conta o ator, acrescentando: “Queremos sensibilizar as pessoas, mostrando que dá para todos colaborarem reciclando, ressignificando o que pode ter novo destino. É possível extrair beleza, saúde e sustentabilidade dos mais difíceis cenários”.

Klebber Toledo está à frente do projeto ecológico (Foto: MJ Surf)
TEMPO, MAR E MENINA
Contando os dias para o nascimento da primeira filha com a atriz Camila Queiroz, Klebber Toledo vive um momento de reconfiguração íntima. Entre gravações, campanhas e projetos ambientais, o ator tem repensado o próprio lugar no mundo – e, sobretudo, o que entende por masculinidade. “Nesse caminho da paternidade, eu já repenso o que é a masculinidade há muito tempo. Venho de uma família em que meu pai sempre foi bastante machista – momento em que todo mundo era criado de forma muito machista. Mas, eu nunca consegui concordar com uma submissão feminina, com a mulher não poder ter o mesmo direito de fazer, de ir e vir. Nunca consegui conceber isso”, diz.
Eu não quero replicar nada do que eu vi dentro da minha casa. E também quero construir uma relação de parceria. Acho que a minha luta contra a misoginia e pelo o empoderamento feminino é diária, é constante. Eu acho que a mulher é o fruto de tudo. Estou muito feliz de ser pai de menina e tenho certeza que ela será uma grande mulher. Acredito que as mulheres, sim, vão transformar o mundo – Klebber Toledo

Klebber Toledo em mutirão pela limpeza das praias (foto: Elis Luna)
Enquanto a vida real segue com mil e um propósitos, a ficção o revisita. “Caras & Bocas”, atualmente em reprise, trouxe de volta Sid, personagem que marcou sua trajetória no início da carreira: um jovem gay expansivo, cômico e cheio de energia. À época, o papel provocou debates sobre estereótipos na dramaturgia. Klebber relembra o personagem: “O Sid era expansivo, um ‘acontecimento’ em todos os movimentos. Eu acredito que não seria visto hoje como estereotipado: ele é divertido, alegre, alto-astral. Diante do estilo da novela, do personagem à época e da direção que eu tive, acredito que encaixou super bem”.
O ator faz um balanço da maturidade que que atravessa tanto a vida quanto o ofício. “Estou chegando aos 40 anos, e esta caminhada para conhecer profundamente os povos originários mudou completamente minha forma de pensar e viver. Participar de ações sociais, projetos, ver pessoas sofrendo diretamente com todas essas questões de crise climática e educação, é o que mais me machuca”, frisa.

Klebber Toledo: Repensar o futuro a partir do meio ambiente (Foto: Elis Luna)
E ressalta ainda: “Eu fui trabalhando o que eu quero ter orgulho como homem, como ser humano. Não é sobre quanto dinheiro eu posso acumular, e sim quantas mentes eu sou capaz de impactar – e que as pessoas levem essa filosofia de vida. Porque o tempo é o bem maior. As pessoas estão dando muito valor para o dinheiro e esquecendo o tempo que a gente tem de qualidade com os nossos amigos, com os nossos entes queridos, o autocuidado e em um lugar que a gente ama”.
O mar parece devolver a Klebber Toledo o mesmo movimento que ele tenta imprimir ao mundo: um fluxo de consciência, afeto e reinvenção. Às vésperas da COP30, quando líderes globais se reúnem para discutir o que os países podem efetivamente fazer em prol das metas para limitar o aquecimento global, o ator se lança à maré das ações possíveis – um homem que aprende, entre pranchas produzidas com garrafas PET e esperas de paternidade, que o verbo cuidar é o mais urgente de todos. O Festival Mãos Dadas & ReSurf nasce, assim, como metáfora e gesto: um chamado para transformar o lixo em vida, a palavra em prática, o tempo em legado. Na areia, o encontro entre povos, artistas e ativistas desenha a imagem de um novo pacto: uma corrente humana tenta fixar no horizonte a lembrança de que o futuro, se ainda existe, depende de mãos dadas agora.
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