Karin Roepke fala sobre longa que co-estrela com Edson Celulari e revela ter sofrido com o machismo em peça


Atriz se consolida como uma artista de múltiplas camadas, unindo rigor profissional e sensibilidade. No cinema, destacou-se no longa “Área de Risco”, dirigido pelo marido, Edson Celulari, com quem partilha vida e criação. Atenta às desigualdades do setor, ela defende mais espaço para as mulheres no audiovisual, denunciando ainda episódios de machismo que marcaram sua trajetória. A maternidade e a experiência com o silêncio em retiros espirituais ampliaram sua visão de mundo e de arte, tornando-a mais objetiva e humana em cena. Formada em Arquitetura, Karin reafirma a ideia de que a vida não é linear, mas um caminho “remexido e temperado”, no qual palco e tela são também territórios de resistência e reinvenção.

*por Vítor Antunes

Personalíssima. Talvez essa seja uma das formas mais justas de pensar em Karin Roepke, atriz brasiliense que tem mostrado a força de sua arte e a seriedade de seu ofício. Mais do que simplesmente atuar, Karin vem ocupando um espaço de reflexão sobre o papel da mulher no audiovisual brasileiro — um terreno ainda marcado por resistências, mas também por conquistas. Ela pode ser vista no longa “Área de Risco”, exibido em sessão especial no Festival de Gramado, onde foi calorosamente recebido pelo público. O filme tem direção de Edson Celulari, marido de Karin, e traz consigo não apenas a potência de uma narrativa, mas o encontro entre vida, criação e partilha. “‘Área de risco’ chegou justamente nesse momento de urgência, de tempo, no rastro da pandemia, que era um tempo de incerteza. O longa nos forçou a produzir um projeto, a falar sobre e a direcionar energia. Então, foi muito especial ter encontrado essa voz mais autoral. Eu e Edson nos entendemos super bem, tanto na produção, quanto como ator e diretor, a gente já tinha feito outros dois projetos juntos, ele como diretor e eu como atriz”.

Mas se o cinema lhe dá espaço, Karin mantém um olhar atento para as lacunas que ainda se impõem, sobretudo quando se trata da presença feminina no setor. “Eu acho que as mulheres ainda enfrentam maior desafio para se estabelecer no mercado de trabalho de uma forma geral e no audiovisual também. Mas eu tenho esperança que cada vez mais a gente tem espaço porque ver produtos escritos por mulheres, feitos por mulheres, dirigidos por mulheres, enriquece o olhar do mundo. A gente não tem só uma narrativa. A gente tem várias narrativas, a gente é plural e eu acho que igualar esses espaços é benefício para todo mundo, é benéfico para todo mundo”.

Se a gente for ver a maior festa cinematográfica do mundo, as indicações, por exemplo, de melhor diretor no Oscar para homens são sempre mais do que para mulheres, geralmente é quatro homens e uma mulher – Karin Roepke

Karin acredita ser fundamental haver uma abertura para mulheres no audiovisual (Foto: Dani Badaró)

O depoimento ganha ainda mais densidade quando a atriz relembra situações de desrespeito e machismo às quais foi exposta ao longo da carreira — episódios que escancaram a necessidade de resiliência e coragem adicionais para mulheres, sobretudo as atrizes. “Já passei por uma situação constrangedora na temporada de uma peça, ‘A Garota do Biquíni Vermelho’, dirigida pela Marília Pêra (1943-2015), em que um produtor chamou a equipe para almoçar na casa dele. A forma como ele tratava as mulheres, especialmente as mais jovens, era muito invasiva, desrespeitosa. Claramente ele achava que atriz era outra coisa, e foi muito constrangedor. A gente foi embora antes, a ponto de ter que, com grosseria, estabelecer limite. Ali eu vi muito claro e exposto o machismo diante do fato de eu ser atriz e ser mulher. Fora isso, já presenciei também diretores que só respeitam a voz de outro homem. Mesmo que ele tenha a mesma opinião que eu, eu não era ouvida. São situações que a gente vai contornando”.

Entre as dores e as conquistas, Karin projeta o futuro com entusiasmo e uma disposição genuína de ocupar novos territórios. Agora, ela planeja seguir mergulhada tanto no audiovisual quanto no teatro. “Já estou em processo há um tempo com uma roteirista e um diretor em um projeto que eu vou produzir, além de atuar. No teatro, possivelmente, eu e Edson vamos repetir a nossa parceria profissional. A gente está namorando um texto e se namorando para fazer esse texto no teatro, porque nossos projetos em audiovisual foram tão bacanas… Foi enriquecedor para nós dois, para nossa relação. E a gente pensou em colocar a mochila nas costas, pegar a nossa bebezona e partir para a estrada, fazendo arte por aí”.

KArin Roepke viveu experiência flagrante de machismo estrutural durante montagem de espetáculo (Foto: Vinícius Mochizuki)

RETAS, CURVAS E SILENCIOSAS

Nas suas redes sociais, Karin Roepke costuma compartilhar não apenas os bastidores de sua carreira, mas também reflexões profundas sobre o viver. Recentemente, revelou como o silêncio se tornou uma ferramenta transformadora em sua trajetória pessoal e artística, sobretudo depois de conhecer o vipassana — um retiro espiritual que exige permanecer dez dias em absoluto silêncio. “O silêncio entrou na minha vida como uma aventura, como um desafio, uma coisa muito exótica que eu queria fazer. E foi um processo transformador, de descoberta, de cura, de libertação, de expansão mesmo da minha visão de mundo, e da minha visão de mim mesma, que é o principal. Quando falam que a meditação expande a mente, não é porque ela fica maior, na verdade, ela fica mais vazia. A meditação proporciona essa organização dos HDs, é como se nossa mente fosse um computador. E falo isso de um lugar de quem batalha por isso. Se deixar, o mundo engole a gente”.

Esse mergulho no silêncio dialoga diretamente com outra experiência que moldou a atriz: a maternidade. Para Karin, ser mãe não é apenas uma mudança de rotina, mas um impacto profundo na percepção do tempo e das urgências da vida. “A maternidade mudou a minha noção de tempo e mostrou a urgência da vida. O tempo mais não é só meu, essa é a questão. Eu tenho que me dividir muito melhor. Eu sou mais objetiva hoje e os projetos também que eu me envolvo agora também têm que ser mais objetivos. Então, o tempo entra nesse sentido de urgência de saber o que eu quero mais, para não perder tempo em coisas que eu sei que não vão dar muito fruto. A maternidade traz tanta humanidade para a gente. Eu acho que o meu tempo está muito mais à flor da pele”.

Eu entendo mais profundamente sobre a vida por causa da maternidade. E logicamente a minha arte também ganhou outro degrau de verticalidade com isso – Karin Roepke

Karin Roekpe, Edson Celulari e Chiara (Foto: fernando Piccoli)

Ao relembrar a infância, Karin destaca que a ligação com as artes sempre esteve presente, embora a vida tenha a levado, inicialmente, por outros caminhos. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo antes de assumir definitivamente a carreira de atriz. Essa travessia, segundo ela, ilustra a não-linearidade da existência.

“Eu sempre fui uma criança que sabia da minha arte, eu sempre soube da minha essência artística, mas chegou a época do vestibular, e é aí entra a não linearidade, porque o que estava se desenhando como uma carreira artística em teatro musical, no vestibular acabou sendo uma carreira arquitetônica, porque eu me formei para a arquitetura e urbanismo. A arquitetura me deu uma bagagem cultural maravilhosa. Eu acho que entender sobre a história da arte, sobre movimentos arquitetônicos, sobre a própria questão estética, me fez ter uma noção espacial também interessante em cena, uma visão 3D mesmo, geométrica, sobre saber me posicionar. Isso foi determinante em quem eu sou hoje, porque os meus personagens carregam um pouco mais dessa bagagem cultural que eu trago através da arquitetura e também esse olhar mais estético, mais apurado, mais espacial. Então foi um curso que adorei ter feito. Foi um momento de pausa que me fez voltar com força total, porque eu peguei o diploma de arquitetura e fui para São Paulo ser atriz”.

Ainda que tenha estudado diante das linhas retas e curvas, Karin revela que a vida não é linear, previsível. É “por todos remexida e temperada”, como diria Guimarães Rosa. Sua trajetória — entre a arquitetura e a cena, entre o silêncio e a urgência, entre a maternidade e os palcos — reflete essa geometria viva e imprevisível que molda o ser humano. Em cada escolha, em cada desvio, ela encontra não um afastamento, mas uma ampliação de si mesma. Com sua fala lúcida, Karin reafirma o compromisso de uma artista que compreende que o palco e a tela não se resumem a interpretações, mas são também arenas de resistência, de memória e de reinvenção.