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“Justiça”: Na nova minissérie da Globo, Cauã Reymond ficará preso sete anos por praticar eutanásia na amada tetraplégica: “Ele é diferente de tudo que já fiz na TV”

Questionado se acha que o público ficará ao lado de seu personagem, o ator defendeu que prefere despertar a discussão sobre o tema e que privilegia as diferentes opiniões. "A unanimidade é burra. Eu acho interessante quando existe uma diferença e um diálogo de opiniões diversas", opinou

Publicado em 15/08/2016 | Por Julia Pimentel

De volta à televisão, Cauã Reymond tem na minissérie “Justiça”, que estreia dia 22 de agosto, o seu novo desafio. Desta vez, o ator interpretará Maurício, um contador perdidamente apaixonado pela esposa Beatriz (Marjorie Estiano), que é bailarina, e fica tetraplégica após ser atropelada por Antenor (Antonio Calloni). Por conta da nova condição da amada, Maurício atende ao pedido de Beatriz e desliga as máquinas que a mantém viva no hospital, realizando uma eutanásia, que é considerada crime no Brasil. E, por consequência, o contador é preso e fica sete anos na cadeia. “Eu acho que esse personagem me traz um lugar diferenciado na teledramaturgia. Ele é diferente de tudo o que eu já fiz na tv. Eu me sinto podendo trabalhar em um papel que foge do que eu já tinha feito, tanto em novela quanto em minissérie”, afirmou.

Cauã Reymond como Maurício, em "Justiça" (Foto: Divulgação)

Cauã Reymond como Maurício, em “Justiça” (Foto: Divulgação)

Realmente, a eutanásia nunca é uma temática fácil de ser abordada. Questionado se Cauã imaginaria se o público ficará a favor ou contra a atitude de seu personagem na trama, o ator afirmou que privilegia os diferentes pontos de vista e a discussão do assunto. “A unanimidade é burra. Eu acho interessante quando existe uma diferença e um diálogo de opiniões diversas. Eu acho que, inclusive, isso pode propor uma forma de encarar a eutanásia de uma forma diferente. Então, para mim, se a minissérie puder levantar, de certa forma, novos pensamentos e visões para essa lei, eu acho que faz sentido sim”, argumentou o ator que se considera “a favor da vida”. “Eu sou a favor de estar sempre dentro da lei. Porém, também defendo que a pessoa tenha direito de fazer o que ela quer. Eu acho que cada um tem consciência do que quer para si, principalmente se a pessoa está lúcida e não está usufruindo de drogas ou de nada que a tire do centro emocional e racional. Mas eu acho que isso tem que ser discutido dentro da lei. Não sou a favor que se quebre a Constituição”, opinou.

Na minissérie, o personagem de Cauã será preso por praticar a eutanásia (Foto: Divulgação)

Na minissérie, o personagem de Cauã será preso por praticar a eutanásia (Foto: Divulgação)

Além da discussão sobre a eutanásia, Cauã contou que seu personagem ainda pode causar mais empatia no público devido a semelhança de opinião com os brasileiros nesse atual momento. “O meu personagem tem um dado importante que é uma vingança em relação a um político brasileiro corrupto. E, eu gosto de acreditar que isso pode trazer uma empatia para aproximar a minha história com a do público, principalmente pelo momento que a gente está vivendo no Brasil. Eu acho que meu personagem proporciona duas reflexões: a discussão da eutanásia e o que é justo e o que é vingança”, argumentou o ator que confessou ter demorado para entender quem era o Maurício de “Justiça”. “Para mim foi muito difícil dar as entrevistas no começo. Mas hoje, que eu praticamente já fiz tudo do meu personagem, eu consigo enxergar melhor por ter vivenciado na pele. Eu acho que uma das coisas que me ajudou nesse papel foi, justamente, estar aberto para entender como é isso. E eu, de fato, não gostaria de estar na pele dele”, relatou.

Além da eutanásia, o personagem de Cauã terá o desejo de vingança de um político corrupto (Foto: Divulgação)

Além da eutanásia, o personagem de Cauã terá o desejo de vingança de um político corrupto (Foto: Divulgação)

Porém, ultimamente, Cauã Reymond afirmou que tem sido mais fácil sair do personagem quando as gravações acabam. Apesar de ser um turbilhão de emoção toda essa temática que o ator interpreta na minissérie, Cauã disse que, após a paternidade, a desconexão ficou mais fácil. “De uns três anos para cá, desde o nascimento da minha filha, eu tenho uma facilidade muito grande para me desconectar do trabalho. E isso tem me feito muito bem. Eu acho até que tem feito eu melhorar no meu ofício esse meu novo momento de conseguir me conectar e desconectar mais fácil. Eu fui cada vez entrando em um ambiente mais de brincadeira, de curtir o que eu estou fazendo e de diferenciar mais quem sou eu e quem é o meu personagem. Isso foi, inclusive, me deixando aprofundar mais e ocorreu em uma época em que eu também parei de gostar de me assistir. Às vezes eu assisto o meu trabalho enquanto eu estou fazendo, mas não necessariamente o resultado. Eu prefiro ouvir o que as pessoas tem a dizer. Eu cansei de bater palminha para mim mesmo”, confessou Cauã que, recentemente, voltou para casa “muito mexido” após gravar uma sequência de cenas com Marjorie Estiano no hospital às vésperas de realizar a eutanásia cenográfica. “Isso me trouxe um diálogo interno que eu acho que não tem nenhuma preparação para isso. Eu acho que a gente precisa estudar e se preparar para encontrar o personagem como ele é e estar aberto para ver o que vai acontecer. Tiveram alguns momentos muito fortes nas filmagens, mas foi muito bom”, contou.

Cauã e a filha Sophia (Foto: AgNews)

Cauã e a filha Sophia (Foto: AgNews)

Na trama escrita por Manuela Dias, as histórias são contadas individualmente em cada dia da semana e, depois, se juntam em uma mesma narrativa. Sobre esse tipo de dramaturgia e em relação ao formato de série, que tem uma duração menor do que de uma novela e é uma obra fechada, já que as opiniões do público não interferem no desfecho da trama, Cauã disse que é fã. “Eu acho que uma das coisas mais legais da série, seja ela brasileira, europeia ou americana, é que a gente tem uma noção do arco do personagem. Quando um ator entra em uma novela, que é um veículo maravilhoso, porque tem um contato direto com o público, a gente não sabe aonde o seu personagem vai, porque é uma obra aberta com dezenas de atores e o autor está sempre tentando fazer com que aquela história fique a melhor possível para poder entreter as pessoas. Mas eu tenho muito prazer em fazer um trabalho em que eu sei exatamente onde ele começa e termina. Isso me ajuda, principalmente, no diálogo com o diretor, porque eu sei o que ele está esperando de mim. As séries proporcionam uma dramaturgia diferente das novelas. Não tem melhor ou pior, tem diferença”, opinou.

"As séries proporcionam uma dramaturgia diferente das novelas. Não tem melhor ou pior, tem diferença" (Foto: Reprodução)

“As séries proporcionam uma dramaturgia diferente das novelas. Não tem melhor ou pior, tem diferença” (Foto: Reprodução)

E não é só Cauã Reymond que é fã do formato. Cada vez mais, as séries e minisséries estão ganhando força e público no Brasil, assim como as internacionais, que já são um sucesso há algum tempo. “Eu acho que, cada vez mais, o público quer assistir na hora, do jeito, o que e como ele quer o trabalho televisivo. Na minha opinião, a produção do audiovisual não vai mudar. Na verdade, a gente está entrando em um lugar em que estamos encontrando uma pluralidade de conteúdos e outras formas e formatos de se fazer. Mas eu acho que a dramaturgia está mudando e para melhor”, argumentou Cauã que acredita que essa mudança seja satisfatória também para os atores. “Nós estamos saindo daquela matemática de vilão e mocinho, piriguete e cafajeste e os engraçados da trama. Eu acho que estamos indo para um lugar mais interessante e o Maurício, meu personagem em “Justiça”, faz parte desse movimento”, completou.

O ator acredita que a produção audiovisual não vai mudar com as novas invenções tecnológicas e rotinas dos espectadores (Foto: Reprodução)

O ator acredita que a produção audiovisual não vai mudar com as novas invenções tecnológicas e rotinas dos espectadores (Foto: Reprodução)

Inclusive, uma das principais ferramentas que estão proporcionando essas mudanças na forma de se fazer entretenimento é o avanço da tecnologia que, além de possibilitar ao telespectador assistir quando, onde e como quiser o produto, ainda proporciona diversas novas experiências. Entre elas, está a discussão de temas que antes eram considerados tabus, mas que, com as redes sociais, estão vindo cada vez mais à tona. Mas, para Cauã Reymond, essas temáticas e discussões sempre existiram, só não tinham a mesma forma e repercussão como existe hoje em dia. “Eu acho que sempre aconteceu. Só que, com a chegada da internet, a gente começou a saber das notícias com mais velocidade. Não é que o estupro, por exemplo, não acontecia, mas a gente não sabia e as pessoas não falavam como falam hoje. Tanto para o bem, quanto para o mal”, opinou.

Já que o assunto é tecnologia e redes sociais, o HT quis saber de Cauã Reymond como ele lida com a vida na internet nos dias de hoje. Ainda devagar no assunto, o ator disse que a inclusão dessas plataformas ao dia-a-dia é “necessária”. “Eu me lembro que no começo eu não queria ter Facebook e nem Instagram. Só que eu fui vendo que eu estava perdendo uma grande ferramenta de me comunicar com o público e com as pessoas que gostam do meu trabalho de forma direta, porque, até então, a minha maneira de falar com as pessoas era através do meu trabalho ou passava pelos jornalistas. E aí, eu comecei a ver que vários colegas faziam essa comunicação virtual de forma bem sucedida. Hoje, eu, inclusive, me arrependo de não ter entrado antes nas redes sociais. Mas eu curto bastante agora”, disse o ator que se considera mais “lentinho” por não ter aderido ao Snapchat ainda.

Cauã, que demorou um bom tempo para entrar nas redes sociais, diz que se arrepende de não ter começado a usar o Instagram antes (Foto: Reprodução)

Cauã, que demorou um bom tempo para entrar nas redes sociais, diz que se arrepende de não ter começado a usar o Instagram antes (Foto: Reprodução)

Porém, como figura pública e com mais de três milhões de seguidores, Cauã admitiu que precisa administrar o equilíbrio entre até onde pode compartilhar sobre sua intimidade e ate onde já pode ser considerado invasão. “Acho muito difícil essa linha tênue entre você dar a sua intimidade ou não. Eu tenho amigos que postam fotos com a pessoa amada e depois reclamam que os jornalistas perguntam sobre o relacionamento. Então, em relação a mim, eu fico agraciado em ver que as pessoas respeitam minha intimidade. Mas eu acho que essa consideração é em decorrência da minha conduta ao longo dos anos de não permitir me expor tanto”, pontuou ele que pensa bastante antes de postar algo em suas redes sociais, mas que, talvez por isso, nunca tenha se arrependido de nada do seu mundo virtual.

O ator acredita que existe uma linha tênue entre o que se deve postar e o que é melhor que fique guardado na intimidade (Foto: Reprodução)

O ator acredita que existe uma linha tênue entre o que se deve postar e o que é melhor que fique guardado na intimidade (Foto: Reprodução)

Mesmo o Maurício de “Justiça” demandando bastante energia e dedicação do ator, Cauã Reymond contou que já está engajado em um novo projeto. Responsável pela produção e pela atuação do protagonista, o ator está produzindo um filme que fala sobre Dom Pedro I. “A gente está querendo mostrar Dom Pedro de um ponto de vista que está muito mais próximo de Portugal. Eu acho que, de certa forma, a gente encontrou uma visão que fechou o imperador em um lugar muito restrito. Por isso, eu quero contar essa história de uma forma mais ampla. Dom Pedro era muito mais do que essa fama de galanteador que ele tem. A gente quer mostrar essa figura sob um olhar menos machista”, adiantou o ator que viajou para Portugal para conhecer as locações do projeto nesse domingo. “Esse é o meu projeto para o ano que vem. Eu tenho alguns convites para tevê, teatro e cinema, mas eu estou realmente querendo parar e desacelerar. Só farei algum trabalho que me encha os olhos, como foi o caso de “Justiça”, que está me proporcionando estar em um lugar diferente. Eu quero investir no meu projeto de Dom Pedro I”, completou.

 

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