Ivana Chubbuck, professora de atuação em Hollywood, fala sobre como foi dar aula para Beyoncé e Isis Valverde


Renomada coach de atuação de Hollywood, criou uma técnica própria que transforma dor em ação. Entre os artistas que preparou está Beyoncé, que aplicou os ensinamentos da atuação em sua música. A parceria entre as duas moldou mensagens potentes de empoderamento em “Dreamgirls” e além. Agora, Ivana chega ao Brasil para compartilhar esse poder transformador com novos talentos

*por Vítor Antunes

Ela é uma das mais requisitadas professoras de atuação de Hollywood e criou uma técnica própria que vem transformando a maneira como atores se conectam com seus personagens. Entre os nomes que já preparou, estão Halle Berry, Isis Valverde, Reynaldo Gianecchini — e até Beyoncé. Pela primeira vez, Ivana Chubbuck estará em São Paulo para ministrar uma masterclass exclusiva. Considerada uma das maiores referências no ensino de interpretação, ela também lançará uma nova edição do best-seller O Poder do Ator.

Ao relembrar o trabalho com Beyoncé, Ivana revela como essa parceria ultrapassou o campo da atuação e influenciou diretamente a maneira como a cantora constrói sua arte: “Ela me disse que acabou usando nossos exercícios em sua música atual porque era uma boa maneira de trabalhar, de ter uma mensagem, de poder passar essa mensagem adiante para ajudar a mudar o mundo por meio da arte. Mesmo com a música, estamos tentando nos conectar com o público da mesma forma que nos conectamos com as pessoas como atores”.

Beyoncé e Ivana Chubbuck nos bastidores de “Dreamgirls” (Foto: Acervo Pessoal)

Segundo Ivana, parte da força de Beyoncé como artista global está no conteúdo das mensagens que ela transmite — algo que começou a ser cuidadosamente lapidado desde Dreamgirls: “Uma das razões pelas quais Beyoncé se tornou um ícone tão importante no mundo é porque ela tem mensagens — e as que criamos em Dreamgirls são de empoderamento feminino não-barulhentas, para não deixar o mundo da música ser definido pelo empoderamento masculino, ou pela possibilidade de assédio sexual, ou pela utilização da capacidade masculina de controlar uma mulher por meio da misoginia que existe nisso, especialmente nos anos 50 e 60, quando esse filme em particular se passa. Então, o que fizemos foi ter uma mensagem potente”. Beyoncé, inclusive menciona Chubbuck em sua biografia.

Ivana ministra o curso nos dias 29 e 30 de junho, no Teatro Itália, e lança o livro no dia 28 de junho, na Livraria da Vila do Pátio Higienópolis, em São Paulo. Será sua primeira visita ao Brasil para uma atividade presencial, mas ela já tem trabalhado com talentos nacionais e demonstra interesse em ampliar sua atuação no país: “Tenho trabalhado com muitos atores brasileiros, que traduziram o roteiro para o inglês para que eu pudesse trabalhar com eles adequadamente. Quero poder ajudar os atores brasileiros a chegarem a um ponto em que seu trabalho, seu trabalho de atuação, ajude a tornar o ótimo material que tenho visto passível de ser transmitido a um nível internacional, porque é digno disso”.

Apesar das diferenças culturais, Ivana afirma que não enxerga barreiras significativas entre intérpretes de diferentes países. Sua abordagem está centrada em necessidades humanas universais: “As necessidades humanas, as necessidades primárias com as quais trabalho, porque uso a ciência comportamental, a ciência da psicologia e a antropologia cultural, são a forma como analiso o material. Não decupo um roteiro, mas faço uma análise com base em pessoas de diferentes culturas — por que as pessoas fazem o que fazem. Isso permite que atores, escritores e diretores tenham uma forma de explorar a conexão global, ajudando o público a entender suas próprias circunstâncias: solidão, necessidade de relacionamento, abuso, abandono, perda, sucesso, legado, família — necessidades primárias de todos nós. Quando quebro um roteiro, mesmo com pessoas do Brasil, não parto da cultura brasileira, mas do ser humano, o que aprofunda o trabalho e o torna mais envolvente para um público global. Cultura é como as pessoas gerenciam suas necessidades humanas no ambiente em que vivem. Mas isso é secundário: não vejo as pessoas como de um país, mas como seres humanos. Em workshops pelo mundo, descobri que não há diferença entre culturas — e isso é maravilhoso. Permite que artistas explorem conexões fora de sua cultura. Assim, o trabalho ganha peso, importância, capacidade de conectar o mundo — especialmente agora, num tempo tão divisivo. E é isso que podemos fazer com as escolhas que fazemos como artistas”.

Ivana Chubbuck, Flavia Alessandra e Thiago Fragoso (Foto: Arquivo pessoal)

Há diversos métodos disponíveis para que atores possam se aprofundar em seus personagens e extrair o máximo de verdade cênica. Ivana Chubbuck, no entanto, criou uma abordagem própria — profundamente pessoal — que a destacou no cenário internacional e transformou a maneira como muitos artistas atuam diante das câmeras e do público. Segundo ela, seu diferencial está na proposta de transformar a dor em força criativa. Enquanto outras técnicas se concentram na emoção em si, a Técnica Chubbuck é movida por ação e superação: “Todos os métodos específicos tentam manter o ator verdadeiro e honesto no trabalho. Mas o que falta neles, e que o meu tem, é o conceito de vencer — ser proativo com a sua dor. Essa dor pode ser um combustível poderoso para superar e vencer, seja qual for o objetivo do personagem ou de si mesmo. Ficar sentado na dor não faz nada. Queremos uma jornada com começo, meio e fim. Isso exige ser proativo, escalar montanhas proverbiais. Às vezes se falha, às vezes se vence, até alcançar a realização final: seu objetivo. Eu sigo os 12 passos da Técnica Chubbuck — objetivos gerais, objetivos de cena, substituição, trabalho interno, objetos internos. Aplicamos isso até na música, tratando a letra como um monólogo. Isso unifica tudo e permite que o público sinta que ela está falando com eles — e cantando para eles. O que torna diferente é que se torna mais divertido de jogar e mais divertido de assistir, porque estamos vendo alguém realmente tentando realizar algo.”

Autora de uma das metodologias de atuação mais aplicadas em Hollywood, a coach Ivana Chubbuck consolidou seu trabalho com o livro O Poder do Ator, obra adotada por artistas no mundo inteiro. Mas, afinal, que poder é esse que o ator carrega por meio da sua profissão? “O poder do ator significa que você tem o poder não apenas de mudar a sua própria vida, mas também de ajudar os outros a mudarem a deles. Então, é algo muito poderoso porque todo mundo vai ao entretenimento, ao cinema, à televisão, não importa qual seja sua formação religiosa, não importa quais sejam suas ideologias políticas, seja lá o que for que você tenha em termos de questões pessoais e emocionais. Há uma coisa que inclui a todos, e essa é a necessidade de realmente explorar o poder interior, o poder que todos nós temos, mas que às vezes as pessoas não aproveitam. E isso se dá basicamente por meio do poder que o ator, os diretores e também os roteiristas têm de mudar o mundo. O mundo de uma forma que seja subliminar para o público, fazendo com que eles sintam que os personagens na tela estão enfrentando os mesmos problemas, questões, traumas e dramas que eles estão vivenciando, mas os personagens na tela estão fazendo algo a respeito, superando e tentando vencer, e isso é poderoso e, portanto, poder”.

Ivana Chubbuck inventou um método próprio para trabalhar com atores (Foto: Divulgação)

No fim, o que Ivana Chubbuck oferece vai além de técnica: é um convite à coragem de existir em cena com verdade. Seu método é ponte entre dor e transformação, entre silêncio e voz. Ao revelar o poder do ator, ela também revela o poder humano de tocar, mover e curar — um ato de arte que, quando bem feito, fala com o mundo inteiro em sua língua mais íntima.