Isacque Lopes fala sobre investir na música em paralelo à atuação e hate durante novela


Ator pertence a uma geração de artistas que transitam entre linguagens sem aceitar rótulos. Depois de estrear como protagonista em “Família é Tudo” (2024) e lidar com críticas intensas nas redes sociais, ele concentra esforços na música. Prepara o lançamento do EP 23, em que mistura trap e R&B para narrar a própria trajetória como jovem negro suburbano. Filho de uma faxineira e de um gari, criado por uma mãe solo, traz para a arte suas vivências de deslocamento e resistência

*por Vitor Antunes

Alguns atores começaram a carreira como cantores e seguiram por esse caminho, como Chay Suede. Outros despontaram como atores e permaneceram nessa trajetória, caso de Fábio Júnior. Isacque Lopes, porém, não quer escolher um lado. Faz parte de um grupo raro de artistas que almejam viver plenamente das duas linguagens — música e interpretação —, navegando entre elas conforme as possibilidades se apresentam.

No momento, afastado de novelas e de trabalhos como ator, Isacque volta o olhar para a música. “Eu sempre quis trazer essa energia, esse linguajar, que é o linguajar de onde eu venho, que é a imagem imprimida. É da nossa realidade como um jovem negro, um jovem que ainda que não tenha tido tantos privilégios teve os seus. No meu álbum vai ter R&B, trap… E em breve vou lançar meu EP, que chama “23″, uma música que fala sobre a minha idade e tudo que eu conquistei até o ano passado, que foi muita coisa. No ano passado aconteceram várias coisas, tanto boas quanto ruins, que refletiram na minha arte, de compor músicas, trazendo todas as minhas vivências, todas as minhas inseguranças, frustrações e conquistas. Uma mescla da minha intimidade, sendo um jovem negro no Brasil, no Rio de Janeiro e tendo essa batalha de ser um artista e de conquistar as coisas”.

Isacque Lopes: Música como espelho da sociedade (Foto: Divulgação)

Para ele, a música funciona como um espelho — tanto de sua identidade pessoal quanto da identidade de sua região. Filho de uma faxineira e de um gari, criado por uma mãe solo que o levou a circular por diferentes áreas do Rio de Janeiro, Isacque sabe o quanto a ausência paterna marcou sua formação. “Eu acho que é uma realidade que já existe, a dos homens negros serem filhos de mãe solo. Isso já é normalizado na nossa cultura. Como filho, para mim foi maravilhoso estar com a minha mãe, que é uma pessoa incrível, maravilhosa, que sempre me apoiou nos meus sonhos. E eu fui criado por mulheres, sempre vivi em torno de muitas mulheres. Acho que a mulher tem esse cuidado maior, essa delicadeza de ensinar muitas das coisas da vida. Eu não vou mentir que eu sentia a falta de uma figura paterna, para falar sobre a dureza da vida. Mas a minha mãe foi pai e mãe. Tudo que ela pôde me ensinar foi necessário e me tornou o homem que eu sou hoje, cuidadoso, com um olhar mais delicado para muitas coisas da vida.”

Minha mãe é faxineira e meu pai, gari. Tenho esse pé no chão de ver a vida como como ela é. Minha mãe é incrível, uma pessoa maravilhosa. Tenho quatro irmãos de parte de pai, temos contato eu e ele, e ainda que não seja uma relação conturbada, ela tem problemas – Isacque Lopes

O ator relembra as dificuldades de ter protagonizado Família é Tudo, novela das 19h exibida em 2024, e as reações intensas nas redes sociais. “Fazer esta novela foi um prazer. Eu me senti muito feliz em cada momento que eu ia gravar, porque eu sempre quis muito isso. O que teve que meio que pesou a minha mente, que entrou na minha mente assim, foram as críticas no Twitter (atual X). A gente que é dessa geração Z tem muito essa coisa de ficar se submetendo à aprovação, comentando, porque a gente tem muito essa sede de querer ser bem-visto, de querer aprovação, de querer que as pessoas passem no nosso trabalho. Então, me peguei em alguns momentos assim, lendo crítica de Twitter e me dei conta de que estava apenas fazendo meu trabalho e sendo criticado por pessoas que não têm nenhuma formação, não têm nenhuma opinião realmente estruturada que me permita validá-la de alguma forma.”

Isacque Lopes: “Lendo crítica de Twitter e me dei conta de que estava apenas fazendo meu trabalho e sendo criticado por pessoas que não têm nenhuma formação” (Foto: Divulgação)

No auge da exibição, os comentários se multiplicavam, muitas vezes em tom agressivo. As reações virtuais — velozes, impessoais e impiedosas — começaram a atravessar a fronteira entre o trabalho e o íntimo. “No geral, as críticas eram uma coisa pesadíssima. Isso mexia comigo, mas depois eu botava minha cabeça no lugar e entendia que eu sou um cara que estou dando o meu melhor. Eu estou começando ainda, principalmente no audiovisual. Foi o meu primeiro papel inteiro, é inegável que vá haver erros e acertos.”

BABY

Nas redes sociais, Isacque costuma assinar tanto com o nome artístico que adotou, “Zack Baby”, quanto com o próprio nome. Para ele, a escolha não é mero detalhe de branding: trata-se de um gesto de criação. “Eu tenho esses meus dois lados que é a dramaturgia e a parte musical. Zack Baby é um carimbo. Na minha bio do Instagram ou em algumas coisas eu deixo só o Zack mesmo, mas assim, meu nome artístico segue sendo Isacque Lopes. Uso isso para fazer minhas músicas, pensando nessa parte mais jovial. Até nos shows também. Eu acho que a gente tem que se desprender da pessoa física e ir para um outro universo.”

Esse “outro universo” está prestes a ganhar novos contornos. Para a temporada 2025/2026, Isacque prepara um EP dividido em duas partes, enquanto, na dramaturgia, realiza uma série de testes e aguarda projetos promissores. “Quanto ao meu single, vou lançar o próximo, chamado 23 — a idade que eu tinha na ocasião — e essa música é um trap. Ela fala bastante sobre a minha história, do início da minha carreira até agora, e onde eu falo um pouco da minha vivência com a minha família. O quanto eu tive que trabalhar desde cedo. Eu trabalho desde meus 11 anos de idade para ajudar a minha mãe em casa.”

Isacque Lopes foi criado por mãe solo (Foto: Divulgação)

A trajetória de Isacque começou bem antes de qualquer holofote. Nascido em uma família humilde e criado nos bairros suburbanos do Rio de Janeiro, ele encontrou na dança uma porta de entrada para o mundo artístico. “Eu começo bem cedo, por volta dos meus 4 anos. Eu tive a grande oportunidade, o grande privilégio de ter tido um professor de educação física na época, ali por volta dos meus 5, 6 anos de idade, que me filmou dançando. Eu gostava de imitar o Michael Jackson, de fazer cover. Então esse professor me filmou, mostrou para a mulher dele, que era professora de dança. Ela mostrou para a dona da escola de dança onde trabalhava e, com 6, 7 anos, eu ganhei uma bolsa integral nessa escola e comecei a fazer sapateado, hip-hop, balé, jazz”.

Por vezes, estar nesses lugares mais abastados… somos mal-olhados ou discriminados. Mesmo você já tendo uma carreira, já tendo uma profissão, você ainda não está isento de sofrer racismo, não está isento de sofrer preconceito – Isacque Lopes

As experiências de deslocamento — físico e simbólico — marcam sua formação. Entre salas de ensaio e palcos, Isacque cresceu consciente das fronteiras sociais que atravessava. “Eu sou muito grato a todas as pessoas que me deram a oportunidade, que pavimentaram essa estrada para que eu estivesse aqui hoje. Mas mesmo assim isso não deixa a gente livre de muitas outras coisas. Então, é um caminho árduo, mas, sim, cheio de muitas possibilidades que eu tive que agarrar.”

Isacque Lopes e o desafio de conciliar duas carreiras (Foto: Divulgação)

Hoje, com uma carreira dividida entre música e atuação, ele encara o desafio de conciliar dois ofícios exigentes. “É muito difícil porque, por mais que as duas coisas sejam arte, em algum determinado momento elas se separam. Mas a paixão é tão grande por fazer as duas coisas que a gente força a fazer as duas coisas bem. Só que em determinado momento, sim, eu vou ter que focar só na dramaturgia, no audiovisual. Quando eu estiver fazendo um trabalho numa novela, eu vou ter que focar nisso 100%. O ator precisa estar com o corpo, a mente, a escuta, a fala, tudo disponível para viver aquele personagem”.

A frase que repete como um mantra acompanha-o desde sempre: “Tudo que é seu já existe no universo. É questão de tempo para se materializar na sua vida atual”. Entre a câmera e o microfone, Isacque Lopes aprende a ocupar os dois palcos que escolheu. No país em que artistas costumam ser empurrados para um único rótulo, ele insiste em flutuar entre linguagens, como quem recusa fronteiras preestabelecidas. Carrega a história de um menino suburbano que começou dançando Michael Jackson numa escola de bairro e hoje grava singles, protagoniza novelas e ensaia futuros. O caminho é árduo, como ele próprio repete, mas cheio de possibilidades a serem agarradas. No horizonte, o ator-cantor parece seguir guiado pela mesma convicção que transforma em lema: tudo o que é seu já existe no universo – basta tempo, trabalho e coragem para que se materialize.