Impotência, leucemia, violência contra idosos e mulheres: relembre temas polêmicos abordados por Manoel Carlos


A obra de Manoel Carlos, que morreu sábado passado, antecipou debates sociais que ainda estavam à margem da esfera pública. Desde “Baila Comigo” (1981), o autor levou ao horário nobre temas como impotência sexual, ciúme patológico e extremismo ideológico. Em novelas posteriores, abordou questões como leucemia, surdez e violência doméstica, transformando conflitos íntimos em pautas nacionais. Tramas como “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas” produziram impacto mensurável, mobilizando campanhas públicas e ampliando o debate social. Sem didatismo explícito, Maneco consolidou um modelo de dramaturgia que informava ao mesmo tempo em que emocionava

*por Vítor Antunes

Conhecido por uma escrita primorosa, Manoel Carlos, que morreu no sábado passado, construiu uma obra que tratou de temas sensíveis quando eles ainda circulavam à margem do debate público. Antes que o termo “merchandising social” se tornasse corrente, Maneco já o praticava com naturalidade, incorporando questões espinhosas à rotina de seus personagens, sem alarde pedagógico, mas com insistência narrativa. Em sua estreia no horário nobre, “Baila Comigo”, exibida em 1981, ele colocou em cena o ciúme patológico de Mauro, vivido por Otávio Augusto, o flerte inquietante de Caio, personagem de Carlos Zara, com o ideário da extrema direita, e um assunto então quase impronunciável em novelas das oito: a impotência sexual masculina.

Era essa condição, considerada à época quase definitiva, que atravessava o casamento de Helena, interpretada por Lilian Lemmertz, e Plínio, papel de Fernando Torres. A traição de Helena com Quim, vivido por Raul Cortez, não surgia como mero recurso folhetinesco, mas como consequência direta de uma frustração conjugal sobre a qual pouco se falava em público. Duas décadas depois, o tema seria revisitado em “Laços de Família”, já em outro contexto histórico: o personagem Viriato, interpretado por José Victor Castiel, mergulhava em depressão diante da dificuldade de manter relações sexuais, num momento em que medicamentos como Viagra e Cialis começavam a circular no imaginário popular. A novela ajudou a deslocar o assunto do terreno da vergonha para o da informação.

Helena Ranaldi e Pedro Furtado em “Mulheres Apaixonadas”. O romance entre a professora e um aluno menor de idade é algo problemático hoje (Foto: Reprodução/Globo)

Impotência: Baila Comigo (1981) e Laços de família (2000)

Em “Baila Comigo”, a questão da impotência se entrelaçava a uma trama de gêmeos separados, herdeira do melodrama clássico. João Victor, vivido por Tony Ramos, crescia ao lado do pai, Quim e de Marta, personagem de Tereza Rachel, enquanto o irmão ficava com a mãe verdadeira, Helena, que teve um caso com Quim. Mesmo sob a vigilância da censura — que suprimiu ou suavizou diversas cenas ligadas ao tema —, Maneco introduziu imagens que se tornariam recorrentes em sua obra, como a ida do casal a um motel, expediente que voltaria a aparecer em novelas posteriores. Poderoso, rico e de origem rude, começou sua fortuna por meio de um casamento de interesse. Teve dois filhos gêmeos no passado, frutos de uma relação amorosa com Helena (Lilian Lemmertz), mas apenas João Victor (Tony Ramos) foi reconhecido por ele. Quim convenceu a mulher, Martha (Tereza Rachel), a adotá-lo ainda pequeno, escondendo que era o pai verdadeiro da criança. O rapaz cresceu ignorando sua origem.

Lilian Lemmertz em cena de “Baila Comigo” (Foto: Reprodução/Viva Fast)

Leucemia – Laços de Família (2000)

Em Laços de Família, o autor alcançou talvez seu exemplo mais conhecido de impacto social direto. A leucemia de Camila, personagem de Carolina Dieckmann, produziu comoção nacional e deu origem ao chamado “efeito Camila”: um aumento expressivo no número de doadores de sangue, órgãos e, sobretudo, de medula óssea. A cena em que a personagem raspa os cabelos, consequência do tratamento, extrapolou a ficção e foi incorporada a campanhas institucionais. Segundo dados divulgados à época, o número de novos cadastros no Instituto Nacional do Câncer saltou de uma média mensal de dez para 149 após o final da novela.

Carolina Dieckmann como Camila na emblemática cena de ‘Laços de Família’

Surdez – Sol de Verão (1982)

Anos antes, em Sol de Verão, Manoel Carlos já havia antecipado outro debate que só ganharia corpo muito depois. Abel, novamente vivido por Tony Ramos, era um personagem surdo — então descrito pelo termo “surdo-mudo”, hoje em desuso — que se comunicava exclusivamente por sinais. Por meio dele, a novela apresentou ao grande público a Língua Brasileira de Sinais, a Libras, quando o tema da inclusão ainda não integrava o vocabulário corrente. Ao longo da trama, a companheira de Abel aprende a se comunicar em sinais, e Raquel, personagem de Irene Ravache, torna-se professora. A Libras só seria reconhecida oficialmente como idioma em 2002, vinte anos depois

Irene Ravache e Cecil Thiré começavam “Sol de Verão” casados. Ela transformou-se em professora de Libras (Foto: Arquivo/Globo)

Violência contra idosos e mulheres – Mulheres Apaixonadas (2003)

Antes de se tornarem matéria de lei, certos temas ganharam corpo — e desconforto — na televisão aberta. Foi o que ocorreu em Mulheres Apaixonadas, exibida em 2003, quando ainda não existia o Estatuto do Idoso. A novela transformou a violência contra idosos em assunto cotidiano ao apresentar a convivência doméstica marcada pela crueldade silenciosa de Doris, personagem de Regiane Alves, com os avós Flora e Leopoldo, interpretados por Carmem Silva e Oswaldo Louzada. Não havia agressões físicas explícitas, mas um repertório constante de humilhações, desprezo e abandono — violência suficiente para mobilizar o público. Com o tempo, a memória coletiva, amplificada pela internet, passou a atribuir à personagem atos que nunca ocorreram em cena, como espancamentos. Ainda assim, o impacto foi real: o sucesso da trama ajudou a acelerar o debate público e coincidiu com a aprovação do Estatuto do Idoso naquele mesmo ano.

A novela também reabriu feridas mais antigas. Em outra frente, expôs a violência contra a mulher por meio da relação entre Raquel, vivida por Helena Ranaldi, e Marcos, interpretado por Dan Stulbach. As agressões, brutais e reiteradas — incluindo ataques com raquetes de tênis — recolocaram o tema no centro do debate nacional, num momento em que a legislação ainda engatinhava. Três anos depois, em 2006, o país aprovaria a Lei Maria da Penha, frequentemente lembrada como herdeira direta daquele incômodo televisivo.

Raquel (Helena Ranaldi) e Marcos (Dan Stulbach). Agressão à mulher foi uma das pautas de “Mulheres Apaixonadas” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Feminicídio – Felicidade (1991)

Mais de uma década antes, Felicidade já havia antecipado outro debate que só ganharia nome jurídico muitos anos depois: o feminicídio. Exibida em 1991, a novela mostrou o assassinato de uma porta-bandeira na quadra da escola de samba Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, morta pelo marido excessivamente ciumento, Tide, personagem de Maurício Gonçalves. À época, o crime era tratado como “passional”, expressão que suavizava a violência e deslocava a culpa. Apenas em 2015 o feminicídio seria tipificado em lei. Na ficção, porém, ele já havia sido exibido em horário nobre, sem atenuantes — como um aviso antes do nome.

Maria Ceiça e Claudinho, então mestre-sala da Estácio e atual dançarino da Beija Flor, numa cena de “Felicidade” (Foto: Divulgação)