Guardião de segredo em ‘Três Graças’, Márcio Vito desabafa sobre claustrofobia e relacionamento interpessoal


O ator se destaca em “Três Graças” como Amintas Gaiola, personagem central de um grande mistério. Na novela, ele vive uma testemunha cercada de segredos, reforçando sua transição do humor para papéis dramáticos. Veterano da TV, o ator defende o humor como ferramenta de diálogo em tempos de polarização. Fora da telinha, planeja retomar peça sobre o Barão de Itararé e protagoniza o monólogo “Claustrofobia”, sobre a dificuldade de relacionamento interpessoal nos tempos modernos

*por Vítor Antunes

Há cerca de um mês do fim de “Três Graças”, Márcio Vito aguarda ainda voltar com um dos segredos da trama das 21h. Ele esteve recentemente em “Três Graças” como Amintas Gaiola, em duas participações – uma em janeiro e outra em março – e deve voltar à trama até o fim. O personagem está envolvido na misteriosa morte – e no retorno – de Rogério (Eduardo Moscovis) à trama: é a testemunha que resgatou o empresário após um atentado a mando de Ferette e, ao mesmo tempo, guarda uma série de segredos.

Veterano de televisão, Márcio acredita que a TV – e, em especial, as novelas – ainda têm um forte poder de centralização, mesmo em meio à concorrência das redes sociais. “Há pouco tempo, ‘Três Graças’ bateu 100 milhões de pessoas que a acompanham esporadicamente. Então, não são 100 milhões que estão vendo todo dia. São pessoas que acompanham a novela no ar, no streaming, no Globoplay. Tem muito público diferente e conectado a ela”, teoriza.

Guardião de segredo em ‘Três Graças’, Márcio Vito desabafa sobre claustrofobia e relacionamento interpessoal

Fora da novela, um dos desejos do ator para este ano é retomar uma peça sobre o Barão de Itararé, personagem do jornalista Aparício Torelly (1895-1975), figura célebre no início do século XX. Diante disso — e do debate contemporâneo sobre o humor — surge a pergunta inevitável: quais são, hoje, os desafios de fazer rir? “O segredo está na comunicação abrangente. Naquela piada que serve tanto para aquele que discorda da gente quanto para os seus iguais, naquela que una todos os lados. A televisão poderia ser uma dessas pontes”.

O desafio do humor, eu acho, é o desafio de alguém que está organizando os espaços e que pode tentar unir a direita à esquerda e nos fazer rir – Márcio Vito

Para o ator, há também um senso de responsabilidade em participar de uma obra de Aguinaldo Silva. “Estar numa obra que foi criada pelo Aguinaldo Silva — e nós crescemos vendo coisas em que ele estava na sala de roteiro ajudando a criar, vendo o Brasil repetir frases e ideias que esse cara elaborava, com ironia e muito humor, e que conhece tudo de estrutura dramatúrgica, sobretudo de obra aberta — é muito importante. Especialmente por ser ele responsável pela criação de personagens que são maiores do que aqueles que os representam.”

ITARARÉ

Márcio revela o desejo de retomar a montagem de “A Sobrancelha é o Bigode do Olho – Uma Conferência do Barão de Itararé”, peça que encena há muitos anos. “Há 20 anos eu comecei a fazer publicamente este trabalho sobre o Barão de Itararé, que é um humorista, um jornalista de humor. Agora, em 2026, são 100 anos desse jornal, ‘A Manha’ (uma paródia de um jornal que circulava na época, ‘A Manhã’, que revelou o personagem)”. Ele relembra o surgimento do projeto e as dificuldades de pesquisa em um período em que a internet ainda engatinhava. “Antigamente a nossa pesquisa era muito difícil. A internet estava começando. Quando se colocava ‘Barão de Itararé’ no Google, apareciam pouquíssimas coisas. Depois da peça, a gente já foi vendo isso mudar, e eu tinha um carinho muito grande. Hoje, a biografia dele, escrita pelo Cláudio Figueiredo, ‘Entre Sem Bater’, dedica-se o nosso trabalho.”

Para o ator, é importante trazer o Barão de Itararé justamente no atual momento político, que ele descreve como atravessado por tensões e disputas constantes. “Ele tinha uma visão de humor que não perdoava ninguém. Aparício viveu uma oscilação de poder e sempre se colocou em favor dos mais pobres e dos trabalhadores. Uma de suas frases era ‘eu sempre demonstrei um grande talento para desacatar a autoridade’”.

Na montagem de “Claustrofobia”, monólogo indicado aos prêmios Shell e APTR deste ano, Márcio vive um ascensorista, uma executiva ambiciosa e um porteiro que sonha em ser policial, personagens que se cruzam em um prédio empresarial no centro de uma metrópole brasileira. O ator não problematiza o fato de ser homem e interpretar uma mulher, tampouco o de dar vida a um direitista convicto. “É um desafio um tanto diferente por conta das passagens dos personagens no mesmo espaço, mesmo sendo uma história que passa por personagens que não são a minha experiência de vida — que é uma mulher, um bolsonarista, um nordestino. Era muito perigoso dar vida a estes personagens neste momento em que a gente está falando um pouco das nossas próprias relações. O que fizemos foi ter a delicadeza de não buscar acento nenhum para o nordestino, de não buscar preconceito nenhum à frente da interpretação para a mulher. Trata-se de obedecer ao lugar de fala da peça — liderada por um ator que conta uma história. Não foi uma questão de eu estar fazendo esses personagens sem esses maneirismos, sem tentar ser essas pessoas”.

O lugar de fala é legítimo é uma linha delicada de ser cruzada, para colocar luz no lugar certo colocar luz onde outras pessoas estão tendo esse espaço e essa discussão, assumindo essa discussão que a peça traz. Quando você se coloca à disposição de uma fala e de um discurso que é próprio de quem tem direito e que vive isso, aí está valendo tudo. Acho que não tem problema nenhum que eu faça isso e que isso seja até criticado na própria peça – Márcio Vito

Márcio Vito e a discussão sobre lugar de fala (Foto: Marcelo Correa)

ANTES DO ANTES

Um quadro célebre do Domingão, nos anos 1990, eram as “Olimpíadas do Faustão”. Dentro delas, um se fixou na memória: “A Ponte do Rio Que Cai”. Nele, Márcio vivia o “canhoneiro” — aquele que arremessava bolas por canhões para desestabilizar os calouros. Ao lembrar o período, ele descreve um outro cenário para os Estúdios Globo, então ainda chamados de Projac, antes da consolidação do complexo. “Era um brejo, um palmo de concreto, era barro puro, não tinha nada. Eu entrava com meu fusquinha dentro do Projac até onde hoje é o Big Brother. Ali é onde a gente fazia as “Olimpíadas do Faustão”. Logo depois subiram a cidade cenográfica de ‘Fera Ferida’ também no Projac. Eu fiquei na Olimpíada do Faustão, de 91 a 94. Inicialmente lá em Guaratiba, num posto do Exército, uma piscina grande que tinha lá — muitas coisas da Globo foram feitas lá em Guaratiba —, depois passou para o Projac.”

O sobrenome artístico de Márcio também nasce de uma operação meio lúdica, meio doméstica. “Vito” é uma abreviação de “Vieira Souto”, formada pela primeira sílaba de Vieira e pela última de Souto. “É uma brincadeira do meu pai, que era um gaiato. O sobrenome que eu herdaria sria outro, mas acabou sendo o que ficou. Mantivemos a brincadeira e hoje meus familiares também têm esse nome e a minha produtora também, a ‘Avenida Filmes’, um trocadilho com a rua famosa de Ipanema.”

“A Ponte do Rio Que Cai” em um quadro do “Domingão” (Foto: Reprodução)

A trajetória de Márcio Vito parece se organizar menos por rupturas do que por deslocamentos — do humor ao drama, do improviso televisivo ao rigor do monólogo, da piada herdada do pai à elaboração de uma persona artística que atravessa décadas. Entre a novela das nove, o resgate do Barão de Itararé e a memória ainda vívida de um Projac em estado bruto, o ator opera como alguém que circula entre tempos e registros distintos sem abandonar um princípio central: o de que representar, seja no riso ou na tensão, ainda é uma forma de mediação — entre mundos, discursos e públicos que, fora da cena, raramente se encontram.