*por Vítor Antunes (Com pesquisa de Sebastião Uellington Pereira)
Um dos maiores sucessos da fase rural da teledramaturgia brasileira está de volta — desta vez para ficar. Em 20 de julho de 2026, “Paraíso” (1982) será disponibilizada na íntegra pelo Globoplay, dentro do Projeto Resgate, que vem recuperando clássicos do acervo da Globo. A trama, uma das primeiras a consagrar Kadu Moliterno como protagonista na emissora, ganhou um remake em 2009 e marcou também o retorno de Benedito Ruy Barbosa à casa após uma demissão turbulenta. “Paraíso” carrega as marcas registradas do autor que reapareceriam, anos depois, em obras como “Pantanal” e “O Rei do Gado”.
A história remonta a 1979. Em meio à exibição de “Cabocla”, Benedito foi procurado pela Globo com um pedido pontual: escrever o capítulo final de “Os Gigantes”, novela das oito que vinha em crise e cujo autor, seu amigo Lauro César Muniz, já havia sido demitido pelo fracasso. Em solidariedade, Benedito recusou — e entregou a própria carta de demissão. Os dois amigos acabaram na Bandeirantes. Lá, coube a Benedito a melhor sorte: escreveu “Os Imigrantes”, que se tornou o maior sucesso da história da emissora e lhe rendeu, pouco depois, o convite de volta para a antiga casa.
Kadu Moliterno, hoje aos 44 anos de distância da trama, faz questão de relembrar o papel com carinho: “É com grande alegria que vejo a volta de ‘Paraíso’, um dos personagens mais importantes da minha carreira. Foi um protagonista escrito por Benedito Ruy Barbosa e, passados 44 anos, o tempo realmente voa. Essa novela sempre foi muito lembrada pelo público. Na época da primeira versão, eu realmente me transformei em um peão boiadeiro. A família da minha mãe era do interior de São Paulo, e eu frequentava muito as fazendas. Gostava de montar a cavalo, e o personagem caiu como uma luva. Acabei montando cavalo bravo, touro e búfalo. Cheguei a quebrar um dedo. Sempre foi um trabalho arriscado, mas foi um momento inesquecível, que carrego comigo como um marco da minha carreira.”
Acho engraçado ter sido tão premiado por uma obra [Os Imigrantes] que foi oferecida três vezes à Globo e, em todas elas, recusada pela emissora — Benedito Ruy Barbosa, para Lília Ribeiro, do JB, 29/08/1982

Cristina Mullins e Kadu Moliterno em “Paraíso” (Foto: Nelson di Rago/Globo)
O nome provisório da novela era “Na Morada do Sol” — a trama rural que substituiria “O Homem Proibido”. Aliás, “O Homem Proibido”, mesmo sem ser um grande sucesso, acabou tendo que ser esticada para dar tempo à produção da sucessora. O título mudou por causa de um condomínio carioca homônimo, situado em frente ao Shopping Rio Sul: os imóveis começaram a se valorizar por conta da coincidência e, além disso, os próprios moradores do edifício entraram numa cruzada contra a Globo pelo direito ao uso do nome que, segundo eles, lhes pertencia.
Segundo o jornal O Globo, em julho de 1982 um representante dos condôminos chegou a escrever à emissora informando que possuía os direitos sobre o título e solicitando a mudança de nome da novela. Como o título era mesmo provisório, o pedido em nada contrariou os interesses da Globo. Muita gente chegou a pensar tratar-se de merchandising — ou seja, que os proprietários dos imóveis estariam financiando o nome da trama para valorizar os prédios —, mas não era o caso. A novela passou então a se chamar “O Paraíso” e, só depois, ganhou o título definitivo: “Paraíso”.

Entrada do condomínio “Morada do Sol”, em Botafogo (Foto: Reprodução/Quinto Andar)
Personagens nascidos de histórias reais
Segundo conta a Revista Ilusão, as origens dos personagens vieram de histórias reais ouvidas pelo próprio autor. Sobre José Eleutério, vivido por Kadu Moliterno, Benedito Ruy Barbosa contou: “A história do José Eleutério eu fiquei sabendo na Bahia, há três anos. Um fazendeiro comprou uma garrafa de enfeite com um diabinho desenhado dentro. Uma empregada, curiosa, perguntou o que significava aquilo, e o fazendeiro respondeu, brincando, que há muito tempo o diabo o acompanhava. A notícia se espalhou e foi impossível desmentir. Dali em diante, todos olhavam o homem com receio por causa de sua amizade com o demônio.”
Já sobre a Santinha, o autor revelou: “Isso aconteceu na cidade de Vera Cruz, São Paulo. Diziam que havia uma menina que praticava milagres e, por isso, romarias imensas iam vê-la. Só muito mais tarde ficou provado que a menina, a quem chamavam Santinha, não fazia milagre nenhum. Quando a coisa esfriou, quem não gostou muito foram os comerciantes da cidade.”

Kadu Moliterno em “Paraíso” (Foto: Divulgação/Globo)
De fato, já na reta final das gravações, Kadu sofreu um acidente sério: rompeu os ligamentos da mão direita e precisou terminar a novela com a mão enfaixada. Ao jornal O Globo, em 21 de novembro de 1982, o ator contou o episódio: “Estava montando num cavalo acostumado a usar freio e, naquela hora, só o haviam preparado com bridão. A ordem que recebi era de galopar em direção à câmera e, quase em cima dela, dobrar à esquerda. Mas, ao puxar a rédea, senti que o cavalo não ia me obedecer. Para me equilibrar melhor, segurei atrás, na sela, que veio de encontro à minha mão e provocou a ruptura de ligamentos.”
Mesmo depois da lesão, Kadu dispensou o dublê por diversas vezes e voltou a montar no touro. Roberto Bonfim, outro do elenco envolvido nas cenas mais arriscadas, também nunca precisou ser substituído.
Essa reprise é uma oportunidade de lembrar, reviver e ver o público assistir novamente à novela. Quem não teve a oportunidade de conhecê-la também pode descobrir um trabalho simplesmente espetacular, muito brasileiro, escrito por Benedito Ruy Barbosa – Kadu Moliterno

O casal principal de “Paraíso” (Foto: Divulgação/Globo)
As gravações das cenas finais de Paraíso não foram das mais fáceis. Cristina Mullins ficou mais de sete horas montada no cavalo e levou dois tombos. Com roupa de noiva completa — vestido, cabelo pronto e maquiagem —, já montada no cavalo, começou a chover. Durante a trama, havia a necessidade de gravar cenas de montaria e de rodeios.
O ator relembra sobre como foi particuipar das duas versões. “Na primeira versão, tínhamos um elenco muito unido. Estavam lá Sérgio Reis, Cosme dos Santos , Roberto Bonfim, Cláudio Corrêa e Castro (1928–2005), Cristina Mullins, Eloísa Mafalda (1924–2018) e tantos outros que deixaram saudades, além daqueles que continuam trabalhando até hoje. A escalação do elenco foi muito importante, assim como a direção de Gonzaga Blota (1928-2017) na primeira versão. Guardo apenas boas lembranças daquele período e um astral maravilhoso”. Na segunda versão, a do remake, Kadu foi homengeado com uk persongem. “Senti-me homenageado por estar presente, acompanhando a história como mais um personagem”.
De acordo com reportagem de Lília Ribeiro, do JB, os 20 primeiros capítulos de Paraíso tiveram de ser regravados, pois não havia uniformidade de sotaques. Por fim, decidiu-se que não haveria um “sotaque interiorano”: os atores falavam com seus próprios acentos.
Há em Paraíso alguns elementos que, mais tarde, passariam a ser recorrentes em obras de Benedito Ruy Barbosa: os vaqueiros que também são violeiros, a presença de Sergio Reis e o encerramento com um texto poético. Isso se repetiria em novelas como Paraíso, Pantanal e O Rei do Gado.

Sérgio Reis em “Paraíso” (Foto: Divulgação/Globo)
Bastidores
Estima-se que o papel do “filho do diabo”, que acabou nas mãos de Kadu Moliterno, tenha sido cogitado para Eduardo Tornaghi, mas o ator não quis fazer a trama. A censura, por sua vez, cortou minutos das cenas da noite de núpcias de José Eleutério e Rosinha (Zaira Zambelli), além de cenas entre Zefa e Eleutério, vividos por Neuza Amaral e Cláudio Corrêa e Castro. Lima Duarte, que na época estava no ar em “O Bem-Amado — A Série”, gravou uma participação especial em “Paraíso”, nos capítulos 9, 10, 17 e 18.
As cenas externas eram gravadas mensalmente em Vassouras, nas fazendas Cachoeira e Santo Antônio. Sérgio Reis viajava até a cidade fluminense em seu próprio ônibus de turismo, com 40 lugares e pintado de verde e amarelo. Kadu Moliterno chegou a levar para as gravações Ana, a modelo que estampava a abertura da novela — vale lembrar que a vinheta não era estrelada por Cristina Mullins. “Paraíso” foi a terceira novela gravada em Vassouras, praticamente em sequência: antes dela, “Os Gigantes” e “Olhai os Lírios do Campo” também levaram suas equipes para lá. No meio da exibição, a trama ganhou mais um diretor, J. Marreco, então casado com a própria Cristina Mullins.

Ary Fontoura em “Paraíso” (Foto: nelson di Rago/Globo)
Benedito Ruy Barbosa chegou a confessar, em entrevista a O Globo, que temia a rejeição do público a José Eleutério justamente por causa do estigma de “filho do diabo”: “Eu achei até que o filho do diabo pudesse gerar algum problema de aceitação mas, ao contrário, ele está sendo muito amado. As pessoas acham o Zé Eleutério uma figura bonita. E a atuação dos atores está muito boa, porque o elenco começou com segurança e todos estão sentindo os personagens.”
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