*por Vítor Antunes
Ontem, sábado, dia 10, morreu Manoel Carlos, um dos nomes mais versáteis — e discretamente decisivos — da televisão brasileira. Embora tenha se tornado imortal, sobretudo a partir dos anos 1970, como autor de novelas, sua trajetória é mais larga do que o rótulo costuma permitir. Antes de assinar sua primeira trama solo, “Maria Maria“, Maneco já havia participado da concepção de programas fundadores da TV no país, como o Fantástico, além de ter escrito para clássicos do humor, caso de Família Trapo, e integrado a equipe de adaptação do Grande Teatro Tupi.
Na Globo, após “Maria Maria“, escreveu “A Sucessora“, colaborou com Gilberto Braga (1945-2021) em “Água Viva“ e assinou “Baila Comigo“, obra que consolidou seu prestígio junto ao público urbano da época. Mas foi durante “Sol de Verão“ que sua trajetória sofreu um abalo decisivo: a morte repentina do protagonista, Jardel Filho (1927-1983), em 1983, interrompeu o curso normal da novela. Abalado, Manoel Carlos afastou-se do projeto, que acabou encerrado às pressas por Lauro César Muniz e Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006). O episódio marcou também o fim de seu contrato com a TV Globo naquele momento.
A partir daí, Maneco passou por outras emissoras — SBT, Band e Rede Manchete —, onde realizou quatro trabalhos. Parte desse legado, contudo, perdeu-se no tempo: alguns desses títulos já não podem mais ser vistos, vítimas da deterioração ou do desaparecimento dos originais, especialmente no caso da Manchete. Confira:

Logo de Viver a Vida da Manchete (Foto: Reprodução/Manchete)
1984 — Viver a Vida, Rede Manchete
Segunda minissérie da Manchete, Viver a Vida foi também o primeiro trabalho de Manoel Carlos após sua saída da TV Globo, em 1983. A produção conseguiu manter a audiência herdada da atração anterior, Marquesa de Santos, alcançando cerca de sete pontos no Ibope da Grande São Paulo. Em 2009, o autor reutilizou o título para uma novela da Globo, embora as duas obras não compartilhem enredo nem personagens. Hoje, assim como outros títulos do período, Viver a Vida é considerada em grande parte perdida, reflexo das falhas de preservação do acervo da Manchete.

Claudia Magno foi Eduarda em “Viver a Vida”. Um dos poucos registros disponíveis da novela (Foto: Reprodução/TV Manchete)
1984 — Joana, Rede Manchete / SBT
Joana marcou um episódio raro na história da televisão brasileira: foi a única vez em que Regina Duarte apareceu fora da Globo após sua contratação, em 1969. A série, exibida tanto pela Manchete quanto pelo SBT, era uma produção independente comandada pelo diretor Guga de Oliveira, irmão de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então principal dirigente da Globo. Regina associou-se a Guga para viabilizar o projeto, e Boni autorizou, sem maiores entraves, a participação especial de alguns atores contratados da Globo. A série dialogava com o modelo de Malu Mulher (1979–1980). Assim como em Malu Mulher, Manoel Carlos assinou parte dos roteiros, contribuindo para uma narrativa centrada na experiência feminina.

Regina Duarte era a protagonista de “Joana” (Foto: Divulgação)
1986 — Novo Amor, Rede Manchete
Exibida a partir de 14 de julho de 1986, Novo Amor foi a segunda novela de Manoel Carlos fora da Globo. Sua estreia na Manchete havia ocorrido pouco antes, com a minissérie Viver a Vida. Originalmente intitulada Brilho, a novela teve o nome alterado para evitar associações com a cocaína, então popularmente chamada pelo mesmo termo. Protagonizada por Renée de Vielmond, a trama chamou atenção pela abordagem de temas delicados, como o aborto, o que gerou embates com a censura. A novela marcou ainda o reencontro do autor com Nathalia Timberg, após A Sucessora. O bom desempenho de audiência consolidou Manoel Carlos fora da Globo e abriu caminho para o ciclo que mais tarde ficaria conhecido como sua trilogia do amor — História de Amor e Por Amor. À época, ainda não havia a tradição das protagonistas chamadas Helena: a personagem central chamava-se Fernanda. Reportagens do extinto Jornal do Brasil registraram os problemas da novela com a censura, especialmente em torno da personagem Teresa, interpretada por Cristina Aché. Em entrevista à jornalista Danuza Leão, a atriz relatou ter vivido experiência semelhante à de sua personagem. Hoje, parte do material de Novo Amor é considerada perdida.

Renée de Vielmond em “Novo Amor”, e Nathalia Timberg na capa da Revista Brilho, o principal cenário da trama (Foto: Biblioteca Nacional/Revista Manchete)
- 1989 — O Cometa, Band
Segundo o pesquisador e crítico de teledramaturgia Nilson Xavier, O Cometa acompanha Habib, personagem vivido por Carlos Augusto Strazzer, um mascate turco atravessado pela memória da mulher e do filho, mortos em um acidente. Para escapar da solidão e das lembranças persistentes, ele decide ganhar a vida como caixeiro-viajante — ou “cometa”, como a atividade era conhecida à época. A minissérie marcou o retorno de Manoel Carlos à teledramaturgia após três anos afastado, desde o encerramento de Novo Amor. O texto foi escrito em parceria com o filho, Ricardo Almeida, morto em 1988, vítima de aids, dois dias antes de completar 34 anos. Concluída, a produção permaneceu engavetada por cerca de um ano e só foi exibida após sua morte.
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