Festival de Cannes: vitrine maior do cinema tem desfile de estrelas, aposta em novos talentos e “Mad Max” pegando carona por fora


Críticas ao evento vêm e voltam: monumentalismo, prioridade ao cinema mainstream e suas estrelas, custos estonteantes. Mas a edição deste ano opta pelo equilíbrio entre arte e indústria

*Por Flávio Di Cola, diretamente de Cannes

1854: este é o número recorde de obras audiovisuais recebido para análise pelas três comissões de seleção prévia do Festival de Cannes 2015 que começa hoje e se estende até o encerramento no dia 24 de maio, quando será concedida a Palma de Ouro. Essa cifra dá uma boa idéia do estágio de gigantismo a que chegou a mais importante e badalada vitrine do mundo do cinema. Por outro lado, esse volume espetacular de potenciais candidatos às principais premiações também revela uma muito bem-vinda abertura por parte dos organizadores – cada vez mais ampla – para o novo ciclo de produção e criação que emergiu na esteira das novas tecnologias comunicacionais, como o celular.

Ingrid Bergman no cartaz-homenagem do Festival de Cannes 2015: o tributo à diva de Hollywood e musa de Roberto Rossellini (Foto: Divulgação)

Ingrid Bergman no cartaz-homenagem do Festival de Cannes 2015: o tributo à diva de Hollywood e musa de Roberto Rossellini (Foto: Divulgação)

Esse maremoto de som e imagens precisou ser contido em duas grandes represas para onde foram canalizados os filmes selecionados para competição: a principal é a Seleção Oficial Competitiva com 19 títulos e mais um filme de abertura hors concours que – neste ano – prestigia o talento feminino através do filme “La tetê haute” da prestigiada diretora e atriz Emmanuele Bercot. Nessa seleção, estão concorrendo as últimas criações de diretores já consagrados como os americanos Todd Haynes e Gus Van Sant, o canadense Denis Villeneuve, ou a poderosa trinca Matteo Garrone-Nanni Moretti-Paolo Sorrentino disposta a provar que o cinema italiano embora longe das suas glórias passadas, pelo menos não morreu.

O Palácio dos Festivais, na orla de Cannes, ponto de encontro do cinema mundial nos próximos 12 dias (Foto: Reprodução)

O Palácio dos Festivais, na orla de Cannes, ponto de encontro do cinema mundial nos próximos 12 dias (Foto: Reprodução)

Ao lado desse pelotão de diretores-medalhão, a Seleção Competitiva não pode deixar de incluir cineastas do país-sede do festival como Jacques Audiard, Stéphane Brizé e a jovem Maïwenn, que já desabafou não suportar mais esse debate rançoso sobre a presença das mulheres no cinema e nos festivais.

Representantes da China, Japão, Austrália/Grã-Bretanha, Grécia, Hungria e Noruega completam o mapa dos principais concorrentes ao prêmio máximo do Festival de Cannes em que – sintomaticamente – está ausente a cinematografia latino-americana. É bom lembrar que o laureado com a Palma de Ouro 2014 – o longo e maravilhoso representante da Turquia “Winter sleep” (Kis Uykusu) do diretor Nuri Bilge Ceylan, já superpremiado em Cannes – entrou em cartaz ainda há pouco no Brasil, ou seja, com quase um ano de atraso em relação ao seu lançamento.

Espetáculo! Conheça as personalidades da Sétima Arte que compõem o júri da Seleção Oficial do Festival de Cannes 2015. O eclético grupo de celebrities inclui desde a bond girl que seduziu Pierce Brosnan nas telas à estrela britânica que, no início de carreira, atuou como assistente pessoal de David Bowie:

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A segunda mostra competitiva de Cannes mais importante em termos de visibilidade é Un certain regard, cujo vencedor do ano passado também precisou de um tempo escandaloso para estrear em telas brasileiras: a produção franco-sueca Força maior” (Force majeure) com roteiro e direção de Ruben Ostlund e que já se tornou um pequeno cult entre o público carioca. Essa seção do festival acolhe obras de diretores jovens e – eventuamente – alguns primeiros filmes com pegada inovadora, compreendendo 19 competidores oriundos tanto de cinematografias maduras (França, Japão e Estados Unidos) como as de países emergentes, destacando Coréia do Sul, México e Romênia, cada vez mais festejados neste e em outros festivais importantes do mundo. Infelizmente, o Brasil – desta vez – ficou de fora dessa festa. Mais um sintoma da crise que assombra a nossa pátria?

Acompanhe alguns dos lançamentos mais esperados em Cannes:

Teaser promocional de “Amy”: a cinebiografia de Amy Winehouse dirigida por Asif Kapadia e que desagradou à família da cantora pode ser considerada – desde já – a melhor trilha musical do festival (Trailer oficial: Divulgação)

“Irrational Man” de Woody Allen: muito mais amado na Europa do que no seu próprio país, o diretor nova-iorquino volta uma vez mais a Cannes (Trailer oficial: Divulgação)

Em Cannes, o ritual de recepção às estrelas dos filmes selecionados não se restringe ao red carpet (ou ao tapis rouge): a subida da escadaria – a famosa montée des marches – é muito mais esperada. Veja quem vai passar por lá sob o fuzilamento dos flashs dos paparazzi:

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Em tempo: correndo por fora nesta quinta-feira (14/5), a estreia mundial de “Mad Max a estrada da fúria (Mad Max: Fury Road”, quarto filme da franquia que lançou Mel Gibson (agora substituído por Tom Hardy), dirigido pelo próprio George Miller, promete fazer barulho em paralelo à competição oficial, turbinando o red carpet de Cannes.

Confira o trailer (Divulgação):

*Flávio Di Cola é publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e ex-coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá. Apaixonado pela sétima arte em geral, não chega a se encantar com blockbusters, mas é inveterado fã de Liz Taylor – talvez o maior do Cone Sul –, capaz de ter em sua cabeceira um porta-retratos com fotografia autografada pela própria