*Por Brunna Condini
A vida presta! A frase que Fernanda Torres disse inspiradamente (e acertadamente), quando estava na campanha do filme ‘Ainda Estou Aqui‘ e havia acabado de saber da sua indicação ao Globo de Ouro (que ganhou na categoria Melhor Atriz), viralizou por aí, entre estampas de camisetas e nome de bloco de carnaval, e até sua própria mãe, a grande Fernanda Montenegro do alto dos seus 95 anos, fez questão de frisar recentemente que, para ela, “a vida presta, e muito”. Isso evidencia a beleza contida em nossas existências, que pode nos proporcionar momentos extraordinários em meio ao ordinário. Sempre. Em qualquer tempo.
E essa foi exatamente a sensação que sentimos ao testemunhar o encontro entre mãe e filha na pré-estreia carioca do longa ‘Vitória‘, protagonizado por Fernandona e dirigido por Andrucha Waddington, que estreia nesta quinta-feira (13) nos cinemas. Na primeira aparição pública após o Oscar, Fernanda Torres celebrou a mãe com afeto e a discrição que conseguiu, tentando não roubar a cena no evento. Ela só foi vista na plateia pouco antes da exibição do longa na Cidade das Artes. Mas não adiantou, porque ambas foram aplaudidas de pé assim que a luz diminuiu e foi identificada sua presença, e claro, logo após assistirmos o filme, a aclamação pela dupla foi potencializada. Um registro altamente emocionante, nos poucos minutos que permaneceram no ambiente. Era mais que uma celebração por ‘Vitória‘, que traz uma interpretação especialmente comovente de Dona Fernanda. Era uma exaltação a nova fase do cinema nacional. Uma ode à nossa cultura, que resiste aos tempos mais duros e sempre estará aqui. E as Fernandas bem sabem disso:

O encontro de Fernanda Montenegro com a filha Fernanda Torres na pré-estreia carioca de ‘Vitória’ é comovente e uma ode ao cinema nacional (Foto: Cristina Granato/Divulgação)
“Nós Vamos sorrir. Sorriam!”, foi com essa frase marcante de Eunice Paiva em ‘Ainda Estou Aqui‘ que Fernanda Torres se manisfestou nas redes após o longa vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional. Algo histórico, não só porque foi a primeira produção nacional a levar uma estatueta, mas porque após o desmonte das políticas culturais nos últimos anos, um filme nosso ser reconhecido mundialmente, é a representação da força das criações audiovisuais nacionais. Uma comemoração que contém esperança e renovação.
Sobre o longa, segundo filme original Globoplay (o primeiro foi ‘Ainda Estou Aqui‘), baseado na história real de Joana da Paz, ou Dona Vitória, pseudônimo da aposentada de Copacabana que filmou uma quadrilha de traficantes da janela de seu apartamento e ajudou a denunciá-los à polícia; Torres declarou em entrevista na pré-estreia. “Esse filme tem essa capacidade de tocar a gente na empatia, no que tem de humano, e em uma sala de cinema é diferente de ver em casa, que é coletivo”, salientando a nossa capacidade de contar boas histórias, que nos aproximem em humanidade.

“A vontade de viver a vida é porque a vida presta. Se a vida presta, vamos viver” (Foto: AGnews)
Visivelmente emocionada, Fernanda Montenegro subiu ao palco da sala de cinema acompanhada do genro Andrucha, e de braços dados com os atores Alan Rocha e Thawan Lucas, do elenco do filme. Com mais de sete décadas dedicadas ao ofício, a atriz disse sobre o momento: “Este é nosso encontro de família por opção. Estamos no filme como artistas e criadores, vocês são nossa família de opção, que veio nos dar sua presença. E acho que vai ter muito aplauso no final”. É lindo ver como ela nunca perdeu de vista seu fazer operário da arte e até hoje se comove com as realizações.
Muito se especula se este será o último filme da atriz, o que é, na verdade, uma informação menos relevante do que testemunhar sua força motrix de produzir arte e reflexão até a ‘última gota’. E apesar dela ter dito que o cinema “pede fôlego, pede corpo”, sugerindo que as produções filmadas até agora podem mesmo indicar uma despedida, também constatou:

Fernanda Montenegro protagoniza ‘Vitória’, que estreia nesta quinta-feira (13) nos cinemas (Foto: Divulgação)
Agora vou falar em homenagem à minha filha, a Nanda (Fernanda Torres). A vontade de viver a vida é porque a vida presta. Se a vida presta, vamos viver – Fernanda Montenegro
O último longa a ser lançado por Fernanda Montenegro foi ‘Velhos Bandidos’, que protagoniza ao lado de Ary Fontoura, dirigido pelo filho, Cláudio Torres, ao lado de Andrucha. “Quis o acaso que o último drama que eu faço e a última comédia que eu faço é com meu filho. Nessa altura de quase 100 anos que eu tenho, já está bom. Está assim, sublime”, afirmou Fernanda, também durante a pré-estreia no Rio.

A roteirista Paula Fiúza, Andrucha Waddington, Fernanda Montenegro e os atores Alan Rocha e Thawan Lucas, (Foto: AGnews)
Sobre a herança de amor à arte e à cultura, transmitida pela mãe, Fernanda Torres, nos emocionou após o Oscar ao falar de ‘Ainda Estou Aqui‘, fazendo um paralelo com sua própria existência. “De certa forma, levo o legado da minha mãe adiante”, diz.
Temos que pensar que esse é um filme sobre transmissão de uma experiência. A minha mãe é da mesma geração de Eunice Paiva. São duas mulheres que viveram um período muito terrível no Brasil, no mundo, que é a Guerra Fria, e elas criaram filhos que depois foram capazes de escrever livros e de atuar. Gosto de pensar que esse filme foi feito por duas crianças, que era Marcelo Rubens Paiva e Walter [Salles], que estavam naquela casa e que sofreram por tabela uma violência de Estado e que, décadas depois, criaram algo para que nunca aquela história fosse esquecida – Fernanda Torres

“De certa forma, levo o legado da minha mãe adiante” (Foto: Agnews)
Vitória
O longa é baseado na história de Joana da Paz, ou Dona Vitória, pseudônimo da aposentada de Copacabana que comprou uma câmera e registrou a movimentação do tráfico na Ladeira dos Tabajaras, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Com seus registros, e a ajuda de um jornalista (na vida, Fábio Gusmão, e no longa o ator Alan Rocha), ela contribuiu para a prisão de mais de 30 pessoas, incluindo policiais militares envolvidos com a quadrilha. Devido à gravidade do caso, ela foi incluída no programa de proteção a testemunhas e mudou de cidade, vivendo no anonimato até seu falecimento, aos 97 anos, em 2023. O filme destaca a coragem, a força e a resiliência dessa mulher. A bravura veste o feminino!
‘Vitória‘ marca também o último trabalho do cineasta Breno Silveira, que faleceu no início das filmagens, em maio de 2022. O cineasta foi homenageado por Andrucha Waddington, que assumiu a direção da produção após a morte do colega, e pela roteista do longa e sua esposa, Paula Fiuza. Enfim, uma noite inesquecível para o cinema nacional.

A roteirista Paula Fiúza, Andrucha Waddington, Fernanda Montenegro e os atores Alan Rocha e Thawan Lucas homenageiam Breno Silveira (Foto: AGnews)
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