*por Vítor Antunes
Durante muito tempo, a Globo resistiu a revisitar seu próprio passado. Havia uma espécie de veto interno à ideia de exibir novelas “antigas demais” — obras cujos padrões estéticos ou técnicos pudessem destoar do que o público atual esperava de uma superprodução. A emissora, sempre obcecada pela atualização, preferia manter os olhos voltados para frente. Folhetins com mais de 15 anos, por exemplo, eram considerados “impróprios” para o Vale a Pena Ver de Novo, faixa que deveria, em tese, reviver clássicos. Algo que seria completamente modificado com a reprise de “Tieta” — exibida originalmente entre 1989 e 1990 — e que revelou-se um sucesso retumbante quando voltou ao ar em 2024. O último capítulo, protagonizado por Betty Faria, alcançou 20 pontos de audiência nacional e 25 pontos no Rio de Janeiro, números suficientes para deixar a Globo isolada na liderança.
O êxito de “Tieta” acendeu uma luz que há muito permanecia apagada nos corredores da emissora. A partir dali, a Globo começou a enxergar nas reprises um ativo de valor simbólico: a nostalgia. De repente, as novelas dos anos 1990, antes tratadas como peças de museu, voltaram a ser vistas como bens de conforto emocional.

Tieta surpreendeu na audiência (Foto: Divulgação/Globo)
Nos últimos dois anos, pelo menos seis produções noventistas foram resgatadas, reeditadas e recolocadas em circulação. O movimento não se explica apenas por uma estratégia de conteúdo, mas também por um fenômeno afetivo que o cinema já batizou de comfort movie – aquelas obras que o espectador revisita sabendo exatamente o que vai encontrar, e justamente por isso encontra alívio. Na TV, o conceito ganhou um novo subtipo: as “comfort-telenovelas”. São produções que, mesmo já vistas e revistas, oferecem ao público o consolo da previsibilidade, o calor da familiaridade e a segurança de um Brasil que, de algum modo, parecia mais simples.
A emissora carioca tem, nesse retorno, um motivo adicional: o envelhecimento de sua audiência e a crescente resistência dos telespectadores tradicionais aos novos formatos de teledramaturgia — séries curtas, narrativas fragmentadas e temas contemporâneos nem sempre assimilados por quem cresceu no tempo do folhetim clássico. Em 2004, “Deus nos Acuda”, então com apenas 13 anos, conseguiu romper parcialmente essa barreira.
Atualmente, duas tramas emblemáticas da década de 1990 estão em cartaz: “A Viagem” (1994), na faixa Edição Especial, e “Terra Nostra” (1999), no Vale a Pena Ver de Novo. Ambas reergueram o desempenho da Globo em horários em que a emissora tentara, em vão, fixar programas de variedades como Se Joga e Vídeo Show. Foi preciso voltar às novelas para que a audiência voltasse também. Desde sua reestreia em 12 de maio de 2025, A Viagem mantém média de 16,7 pontos na Grande São Paulo, chegando a 17 pontos em 11 de outubro. É a quarta exibição da trama na TV aberta — sem contar as reprises no canal Viva — e, ainda assim, o público continua fiel ao enredo metafísico protagonizado por Christiane Torloni e Antônio Fagundes.

“A Viagem” brilha no Ibope. Trama é protagonizada por Christiane Torloni e Antonio Fagundes (Foto: Divulgação/Globo)
Já Terra Nostra vive um renascimento inesperado. Quando reapresentada em 2004, a novela de Benedito Ruy Barbosa teve desempenho morno. Hoje, porém, a história de Matteo (Thiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio) é uma “grata surpresa” para os executivos da emissora. A cena do reencontro dos protagonistas marcou 13 pontos de audiência, e a reprise acumula média de 11,7 pontos ao longo de seis semanas — acima da antecessora, História de Amor (1995), que fechou com 11,6 pontos. No mesmo horário, a Record não passou de seis.
Mesmo sem repetir o estouro de audiência dos tempos de ouro, “História de Amor “e “Mulheres de Areia” (1993) consolidaram o domínio da Globo. A última, exibida na faixa Edição Especial, obteve média-geral entre 12,5 e 12,6 pontos na Grande São Paulo — índices robustos em tempos de fragmentação do público.
O sucesso das comfort-telenovelas diz tanto sobre o público quanto sobre a própria televisão. Enquanto o streaming oferece catálogos infinitos e o TikTok renova o conteúdo a cada deslizar de dedo, a TV aberta, com sua grande penetração nacional, reafirma o poder do hábito, da rotina e da lembrança. Ver “Tieta ou “A Viagem” hoje é menos um ato de curiosidade e mais um gesto de reconhecimento — uma forma de revisitar o país que fomos, ainda que através das novelas. Talvez o futuro da televisão brasileira, afinal, seja mesmo o passado, com “mofinhos” exibidos em novelas de alta definição.
Artigos relacionados
Novela que eternizou Vera Fischer como "Deusa" está só 34% preservada e pesquisador aponta outras tramas perdidas
Cristiana Oliveira retorna à novela inédita da Globo após 14 anos, fala sobre maturidade e diz: "Não vivo de passado"
Post de um ex-BBB sobre beleza de Rivellino faz Daniel Blanco, que interpreta o craque em "Brasil 70", explodir nas redes