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“Fala Comigo”, do estreante Felipe Sholl, é o grande vencedor da 18ª edição do Festival do Rio com trama polêmica sobre o amor entre diferentes gerações

Já o aguardado documentários "Divinas Divas", dirigido por Leandra Leal, arrematou o prêmio pelo júri popular, além de ser eleito o favorito ao Troféu Felix

Publicado em 17/10/2016 | Por Leonardo Rocha

Depois de onze dias de uma mostra competitiva acirrada na Cidade Maravilhosa, o Festival do Rio chegou ao fim, na noite deste domingo, coroando o filme “Fala Comigo”, do estreante Felipe Sholl, como grande vencedor da 18ª edição do evento que exalta principalmente o cinema nacional. A cerimônia, que aconteceu no Espaço BNDES, no Centro, e contou com apresentação de Isis Valverde e Antonio Calloni, mostrou que a qualidade das produções brasileiras têm subido de nível, já que os 13 troféus principais da noite foram distribuídos para 11 películas diferentes.

Equipe de 'Fala comigo' recebe o troféu de melhor longa de ficção do Festival do Rio neste domingo (16) (Foto: Divulgação)

Equipe de ‘Fala comigo’ recebe o troféu de melhor longa de ficção do Festival do Rio neste domingo (16) (Foto: Divulgação)

O eleito como Melhor Filme Considerado pelo Júri, conta a história de Diogo (Tom Karabachian), um adolescente de 17 anos que tem o hábito de se masturbar enquanto telefona para as pacientes de sua mãe, uma terapeuta. No entanto, o longa aborda temas muito contemporâneos, como o amor livre de preconceitos, já que em determinado momento, Ângela, uma mulher de 43 anos, passa a se relacionar com o jovem. Pelo papel, Karine Teles foi escolhida a Melhor Atriz do festival. No dia da sessão, Sholl definiu a sua obra como “subversiva” e disse esperar que ela ajude a “tornar o Brasil um pouco menos conservador”.

Tom Karabachian é Diogo em cena de "Fala Comigo", primeiro longa do diretor Felipe Sholl (Foto: Divulgação)

Tom Karabachian é Diogo em cena de “Fala Comigo”, primeiro longa do diretor Felipe Sholl (Foto: Divulgação)

“Não esperava que ganhássemos melhor filme. É uma grande honra meu primeiro longa de ficção, e primeiro para
tanta gente da equipe, receber esse troféu. Fizemos esse trabalho com tanto amor, que essa pode ser uma das coisas que cativou o espectador. Estou muito feliz!”, contou o diretor, que já foi premiado pelo Festival de Berlim, em 2008, pelo curta “Tá” (2007). O júri, formado por Charles Tesson, Rodrigo Santoro, Sandra Kogut e Maria Augusta Ramos, ainda entregou o prêmio de Melhor Documentário para o aclamado “A Luta do Século”, bastante aplaudido pelo público ao ser exibido durante o festival. Curiosamente, a preferência do público foi bem diferente do júri oficial já que “Hotel Cambridge” e “Divinas Divas”, com direção assinada pela atriz Leandra Leal, ganharam os prêmios dados pelo júri popular.

Leandra Leal recebeu o prêmio ao lado de suas divas (Foto: Divulgação)

Leandra Leal recebeu o prêmio ao lado de suas divas (Foto: Divulgação)

“Esse prêmio é uma realização. Fazer um filme é muito difícil. É bom saber que ele comunicou, que chegou ao público, que foi escolhido pelo voto popular. É lindo!”, celebrou Leandra, que na produção, conta a história de ícones da primeira geração de artistas travestis do Brasil, na década de 60, época em que o Brasil vivia sob extrema censura militar. No doc, Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Marquesa e Brigitte de Búzios contam suas histórias de vida ao mesmo tempo em que continuam a demonstrar talento em cena. Além do juri popular, a produção também levou a estatueta do Prêmio Felix, dedicado a escolher os melhores filmes de temática LGBT na programação.

Equipe de "Divinas Divas" (Foto: Divulgação)

Equipe de “Divinas Divas” (Foto: Divulgação)

Criado desde o último ano, o Felix concede um troféu especial, o Suzy Capó, a uma personalidade que se destacou na promoção dos direitos LGBTs. Em 2016, a modelo e estilista Lea T. foi a grande homenageada. “Não conseguia me ver recebendo uma homenagem como essa. Fiquei muito grata por terem lembrado de mim como personalidade. Conheço várias meninas e meninos, pessoas transexuais e hoje eu sou todos nós. Todos que acreditam que podemos viver em um mundo com mais liberdade”, festejou.

Lea T foi homenageada com o troféu especial, o Suzy Capó (Foto: Divulgação)

Lea T foi homenageada com o troféu especial, o Suzy Capó (Foto: Divulgação)

Uma curiosidade da premiação nesta edição foi a divisão do prêmio de melhor ator entre Nelson Xavier, por
“Comeback”, e Julio Andrade, por dois filmes: “Redemoinho” eSob Pressão”. Na noite de gala, diversos
famosos também prestigiaram o encerramento do evento como Gabriel Leone e a namorada Carla Salle, Julia
Rabello, José Loreto, Vanessa Giácomo, Letícia Colin, Marcos Veras e Andrea Horta.

Como de praxe, os discursos políticos não ficaram de fora da premiação. Em diversos momentos, o coro de “Fora
Temer” e “Fora Crivella”, foram entoados pelo teatro do BNDES. Ao receber o prêmio Novos Rumos de Melhor
Filme por “Então Morri”, Bia Lessa subiu ao palco lado de Dani Roland com o discurso pronto: “Primeiramente, fora Temer”. Já o diretor Daniel Ribeiro, levou o troféu especial do júri do Prêmio Felix, pelo filme “Love Snaps”, demostrou insatisfação com o governo de Michel Temer.”Não podemos esquecer por nem um dia que existe um presidente ilegítimo desgovernando esse país”, comentou.

Dany Roland e Bia Lessa (Foto: Divulgação)

Dani Roland e Bia Lessa (Foto: Divulgação)

Já o prêmio de melhor curta ficou com “Demônia, um Melodrama em 3 Atos”, de Fernanda Chicollet e Cainan Baladez. “Queremos agradecer às mulheres endiabradas que nos ajudaram a fazer esse projeto. Que são, além de outras coisas, mulheres emponderadas que não aceitam machismo e misoginia de nenhuma espécie. Mulheres que podem ser do lar, do lazer, da cultura, e acima de tudo, o que elas quiserem ser”, defendeu Fernanda. Na categoria direção de ficção, Cristiane Oliveira levou o Troféu Redentor por “Mulher do Pai”. “Esse filme é fruto das políticas de descentralização do investimento e que elas continuem. A diversidade é a maior riqueza que temos no Brasil e a Ancine tem colaborado para isso. Melhorias sempre, retrocesso jamais”, agradeceu.

Em sua 18ª edição, mais curta e enxuta por conta da crise econômica, o Festival do Rio exibiu 250 filmes de mais de 60 países e teve cerca de 220 mil espectadores, segundo seus organizadores. “O Festival foi uma alegria. Saber que tivemos salas cheias, o público acreditando na programação, comparecendo em peso. São tantas coisas boas que já nos permitem pensar na edição do ano que vem”, celebrou Ilda Santiago, diretora da mostra.

Veja, abaixo, os ganhadores do Festival do Rio 2016:

— Premiação do júri
Melhor longa de ficção:
“Fala comigo”, de Felipe Sholl
Melhor longa de documentário: “A luta do século”, de Sérgio Machado
Melhor curta: “O estacionamento”, de William Biagioli
Menção honrosa curta-metragem: “Demônia”, melodrama em 3 atos, de Fernanda Chicollet e Cainan Baladez
Melhor direção de ficção: Cristiane Oliveira, por “Mulher do pai”
Melhor direção de documentário: Sérgio Oliveira, por “Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos”
Menção honrosa direção de documentário: Marcos Prado, por “Curumim”
Melhor atriz: Karine Teles, por “Fala comigo”
Melhor ator: Nelson Xavier, por “Comeback” e, Julio Andrade, por “Redemoinho” e “Sob pressão”
Melhor atriz coadjuvante: Verónica Perrotta, por “Mulher do pai”
Melhor ator coadjuvante: Stepan Nercessian, por “Sob pressão”
Melhor fotografia: Fernando Lockett, por “Superorquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos”, e Heloisa Passos, por “Mulher do pai”
Melhor montagem: Marcio Hashimoto, por “Era o hotel Cambridge”
Melhor roteiro: Martha Nowill e Charly Braun, por “Vermelho russo”
Prêmio especial do júri: “Redemoinho”, de José Luiz Villamarim

– Premiação por voto popular
Melhor longa de ficção: “Era o hotel Cambridge”, de Eliane Caffé
Melhor longa documentário: “Divinas divas”, de Leandra Leal
Melhor curta: “Demônia”, melodrama em 3 atos de Fernanda Chicollet e Cainan Baladez

Mostra Novos Rumos
Melhor filme: “Então morri”, de Bia Lessa e Dany Roland
Melhor curta: “Não me prometa nada”, de Eva Randolph
Prêmio especial do júri: “Deixa na régua”, de Emílio Domingos
Menção honrosa:  Layla Kayã Sah, pela atuação em “Janaína overdrive”, de Mozart Freire

— Prêmio da crítica Fipresci (da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica)
“Viejo calaver””, de Kiro Russo, e “Era o hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

— Prêmio Felix (dedicado aos filmes com temática LGBT)
Melhor longa de ficção: “Rara” (Estranha), de Pepa San Martin
Melhor longa documentário: “Divinas divas”, de Leandra Leal
Prêmio especial do júri: “Love snaps”, de Daniel Ribeiro e Rafael Lessa
Prêmio Suzy Capó Personalidade Felix de 2016: Lea T

— Mostra Geração
Vencedor do júrio popular: “Bruxarias brujerías”, de Virginia Curiá

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