*por Vítor Antunes
Em sua primeira novela na televisão, Fábio de Luca já demonstra a segurança de quem construiu um nome sólido tanto no teatro quanto na internet. O ator integra o elenco de “Êta Mundo Melhor” , vivendo o detetive Sabiá, e vem provocando reflexões relevantes nas redes sociais com um de seus personagens mais comentados: o pai-de-santo “Babá Laricoxê“. A figura, ao mesmo tempo cômica e crítica, lança um olhar sobre a folclorização e os desvios litúrgicos da umbanda e do candomblé. Se, por um lado, muitos se divertem com a abordagem, por outro há quem se preocupe com os limites entre humor e respeito.
“O que eu procuro fazer é um olhar para o fato de que a experiência humana diante da espiritualidade pode ser muito engraçada, mas não precisa ser um deboche. Dá para a gente apontar as nossas hipocrisias — e elas existem em toda religião. Há pessoas que gostam de botar banca de santo, ou de poderoso, ou de aquele que detém o conhecimento, e no final somos todos farinha do mesmo saco – Fábio de Luca
Para o ator, “o humor serve para apontar isso em todos os aspectos da vida: na política, em todo lugar, e na religião também. Então, dá para fazer humor, brincar com alguns elementos religiosos, mas sem desrespeitar a liturgia, a religião em si, os Orixás e tal. Estou tranquilo. Até porque, com a galera de santo, isso é muito pouco. As pessoas que reclamam são poucas em relação às que aprovam. Tem muito sacerdote mesmo que me segue, tem uma galera do fundamento ali que me acompanha, gosta, brinca. É o pessoal mais bem-humorado, mais aberto à comédia. Não se ofendem. Eu acho que cabe isso tudo, desde que a gente não esqueça de Orixá, da essência de tudo.”
O culto de Orixá tem uma dupla característica, eu acho, social. Na história, isso sempre foi das minorias mais escondidas. Os gays encontraram nas religiões afro a guarida que não encontraram em outras religiões – Fábio de Luca
Na novela, Fábio experimenta uma liberdade criativa pouco comum, concedida pelo autor Walcyr Carrasco aos comediantes — algo que se mantém pelo menos desde Amor à Vida: a possibilidade de improvisar, desde que com respeito aos limites da trama. “Desde o início, as primeiras experiências lá, a Amora Mautner, que é a diretora artística da novela, incentivou isso, para a gente criar. Quando eu dei de cara com isso, já me senti em casa. É claro que a gente tenta — e creio ser esta a preocupação do Walcyr — não mudar o rumo da história, mas sim trazer alguma piada, melhorar a maneira como a frase está construída para favorecer o humor. Eu já sabia que o Walcyr não admite improviso nos textos, fiquei meio cabreiro, mas tivemos essa liberdade.”
A trama, marcada por uma comédia ingênua, tem conquistado o público justamente por essa leveza. “Meu personagem é meio Chapolin: gosta de botar uma banca de herói, de quem resolve a questão, mas não resolve nada. Ele atrapalha mais do que resolve. E essa característica quase infantojuvenil da novela ressalta esse perfil cômico e atrapalhado.”
Antes de chegar à televisão, Fábio já acumulava uma longa trajetória no teatro, especialmente voltada ao público infantil — experiência que, segundo ele, contribuiu diretamente para seu desempenho atual. “Eu trabalhei muito tempo com teatro infantil. A novela das seis é muito semelhante ao trabalho que eu fazia no teatro infantil — nos temas, no vocabulário, em tudo. Mas a comédia para o público infantil é um desafio enorme. É um público muito exigente: se aquele negócio não estiver entretendo eles, eles começam a tocar o rebu. Então, tem que ser interessante, engraçado e dentro de um limite pedagógico”.
LIBERDADE
O debate sobre diversidade sexual ganhou novos contornos nas últimas décadas, especialmente no ambiente artístico. Se hoje há mais espaço para discutir abertamente questões LGBTQIA+, o cenário era bem diferente nos anos de formação do ator Fábio de Luca. Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense — região metropolitana do Rio de Janeiro — ele relembra a própria experiência como jovem gay em um contexto social mais conservador. “Eu acredito que por estar na Baixada, num lugar mais distante do centro, mais afastado das áreas mais abertas a isso — como normalmente é a Zona Sul, pelo menos aqui no Rio — esses assuntos foram ganhando espaço mais devagar. Quando comecei a descobrir minha sexualidade e a praticá-la, foi no início com muita culpa. Aliás, onde eu mais sofri homofobia foi dentro de casa, com pessoas muito queridas, que depois se arrependeram, pediram desculpas”.
Eu não sabia que era possível um cara namorar outro cara. Eu entendia que existia, que eu era gay, em um certo momento eu entendi isso. Depois de ficar rezando toda hora para poder tirarem isso de mim e ver que não saía. Eu nunca imaginei que poderia ter um namorado. Para mim, era sexo. Depois que eu entendi que, na verdade, ser gay era só um detalhe — que eu poderia ter uma vida amorosa, afetiva, como qualquer pessoa — aí todo um novo mundo se abre”, relembra.

Fábio de Luca: “Há uma liberdade de falar sobre homossexualidade hoje” (Foto: Vinícius Mochizuki)
Além da vivência pessoal, Fábio reflete sobre a contribuição específica do olhar gay para a comédia. “O gay tem um humor específico, uma forma personalíssima de entender e fazer comédia. Um tempo diferente, uma linguagem… Para além da questão do próprio pajubá (linguagem comum entre os LGBTs), na costura do tempo há uma coisa que é muito própria do nosso universo, a maneira de lidar com a vida. Eu não sei se é até uma defesa.”
O ator também se posiciona sobre um dos debates mais intensos da cena artística atual: a discussão sobre representatividade em papéis LGBTQIA+. Em especial, a questão de se personagens gays devem ser interpretados por atores gays, e personagens trans exclusivamente por pessoas trans. “Eu entendo que um ator não pode ter limite para o que ele possa fazer. Eu acho que qualquer ator, independente do gênero ou de como se identifica, tem que ter a liberdade de fazer o que quiser e o que aparecer. Fora que a gente já vive numa sociedade em que ser ator, viver disso, já é muito difícil. Então, essa oportunidade que aparece, às vezes não dá para descartar por uma questão como essa. Aí, tentando ampliar um pouco, porque eu não sou uma pessoa trans, então tentando ter empatia, tentando reconhecer, a gente vai vendo que, de fato, o mercado é muito mais fechado para um ator ou uma atriz trans do que para mim, por exemplo, que sou gay só. Então, é importante olhar essa questão com cuidado”.
Eu acredito que é importante que esses lugares onde existem personagens trans, pelo menos esses, sejam primeiro oferecidos a atrizes e atores trans. Porque realmente já são tão poucas oportunidades. E o ideal é que a gente chegue em algum momento em que uma atriz trans faça uma personagem mulher cis ou trans e isso não seja uma questão. É muito legal que eu tenha percebido essa preocupação lá dentro da Globo – Fábio de Luca

Fábio de Luca acredita ser importante debater representatividade, inclusive entre os personagens (Foto: Vinícius Mochizuki)
Para ele, há hoje uma liberdade inédita para artistas LGBTQIA+ falarem sobre si mesmos e se posicionarem publicamente. “Para mim é libertador, mais do que limitador, porque até pouquíssimo tempo atrás a gente não podia falar disso. Tinha que botar uma máscara, todo mundo sabendo que o ator é bicha, pintosa, mas não podia falar, não se sabia da vida pessoal da pessoa, aquele segredo. Ainda mais os que procuravam um caminho de galãs e tudo. Isso sempre foi um tabu, pelo menos para a TV. Eu não tive muitas referências quando eu era jovem, de pessoas gays que se casavam, tinham uma vida afetiva normal. Também é importante que as pessoas, chegando agora, vejam que você é gay e pode falar sobre isso em qualquer lugar, sendo à toa ou não sendo à toa, enfim.”
Entre liberdade e responsabilidade, Fábio reflete sobre os limites do humor, especialmente no contexto atual. “Isso é uma percepção importante. Hoje caminha ao lado da avaliação que a gente precisa fazer da qualidade da piada. Como humorista, como alguém que trabalha com humor, a gente sempre teve isso: está engraçado, não está engraçado, está no tempo certo… Agora, junto com isso, tem que estar o pensamento de quem é o alvo dessa piada? Quem eu estou expondo com essa piada, de alguma maneira? O que isso está causando às pessoas? Essa é uma preocupação que devia ter sido sempre primária, não só no humor, mas em qualquer expressão artística. Mas só mais recentemente isso tem se tornado uma coisa, por causa do cancelamento, por causa de tudo. Como tudo na sociedade, a gente vive uma coisa meio pendular. O pêndulo vai muito para um lado, depois vai muito para o outro.

Fábio de Luca; É preciso ponderação ao trabalhar humor (Foto: Vinícius Mochizuki)
Ele continua: “O exagero do politicamente correto tolhe demais a criatividade, mas, por outro lado, a total falta de empatia causa um humor que machuca, que pode até matar. É bom senso. Eu sou dos que acreditam que o humor, sim, tem limite, como qualquer coisa no mundo. Não há nada que não tenha limite. A liberdade de expressão, o humor, tudo tem, sim, limites, e é onde começa — para mim, no caso — é até onde o bom senso leva. Até onde a saúde do outro está em jogo. A saúde mental, inclusive. Se o que eu estou fazendo como piada tem como matéria-prima a exposição dolorosa de alguém, eu não quero ser esse cara. Não é isso que eu vi fazendo por aí. É uma escolha.”
Entre palcos, telas e terreiros imaginários, Fábio de Luca costura humor e pensamento com uma leveza que não se confunde com superficialidade. Seu percurso, atravessado por fé, riso e resistência, revela um artista atento ao tempo em que vive — e disposto a tensionar seus limites. Ao transformar vivências pessoais em matéria criativa, ele não apenas interpreta personagens: amplia espaços de fala, desafia silêncios herdados e inscreve, com voz própria, novas possibilidades de representação no imaginário coletivo.
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