“Eu Prometo” chega ao streaming: morte de autora marcou novela, que foi parcialmente apagada na Globo. Entenda!


A novela “Eu Prometo”, última obra de Janete Clair, será disponibilizada em fragmentos no Globoplay a partir de 9 de março, com apenas seis capítulos preservados. A trama política estrelada por Francisco Cuoco marcou também as estreias de Malu Mader, Fernanda Torres e Gloria Perez, que assumiu a autoria após a morte de Janete. Escrita enquanto a autora enfrentava uma doença grave, a novela tornou-se um caso singular na teledramaturgia brasileira, concluída coletivamente após sua morte em 1983. O folhetim reuniu episódios marcantes, como sequências de rebelião em presídio e participações inusitadas, além de trazer de volta Dina Sfat às novelas. Também revelou elementos dramatúrgicos que seriam retomados por Gloria Perez em trabalhos posteriores. Encerrada ao som de Gal Costa, a obra acabou transformando-se numa despedida simbólica de Janete Clair da televisão brasileira

*por Vítor Antunes (com colaboração de Sebastião Uellington Pereira)

A última novela assinada por Janete Clair (1925-1983) estará de volta hoje, dia 9, no Globoplay. Não integralmente, mas em fragmentos. “Eu Prometo”, trama ousada que abordava os conflitos emocionais de um político, o deputado e postulante a senador Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco [1933-2025]), entra na plataforma de streaming. A novela marcou a estreia de Malu Mader e Fernanda Torres, atriz que seria candidata ao Oscar em 2025;  também a de Gloria Perez como autora — inicialmente colaboradora e, depois, titular, em decorrência da morte de Janete Clair, além de marcar a estreia também de Claudia Jimenez (1958-2022) em novelas. Estima-se que apenas seis capítulos de “Eu Prometo” tenham sido arquivados: 1, 2, 52, 53, 102 e 103 (o último).

A novela marcou ainda a volta de Dina Sfat (1938-1989) às novelas, depois de ter deixado um projeto fracassado como “Os Gigantes”, traumático a ponto de Dina declarar que jamais faria outra novela. Faria, sim: além de “Eu Prometo”, viria “Bebê a Bordo” (1988). Segundo entrevista à repórter Monica Soares, na época da estreia, para da Revista Amiga, o convite da própria Janete fez Dina repensar o afastamento dos folhetins.

“Quando um autor diz que escreveu o personagem pensando exclusivamente em você, isso é visto, pelo menos por mim, como uma homenagem, o que me alimenta muito a vaidade. Isso me fez olhar para a novela com outros olhos. Fora o fato de estar quatro anos longe e querer enfrentar de novo essa coisa da qual eu fugi apavorada só porque a última experiência foi ruim. Na verdade, tinha muito de voltar, também. E agora eu estou acabando com os meus medos”. A novela a qual Dina se refere era “Os Gigantes”. Ela odiava de tal modo a novela, que chegou a pisotear o roteiro do folhetim, cujo autor era Lauro César Muniz. Curiosamente, Dina dizia estar à procura de uma comédia, e sua trama seguinte, “Bebê a Bordo”, cumpriu o objetivo. Ela morreria pouco depois de concluir esta última.

“Eu Prometo”: Novela foi exibida em 1983 (Foto: Reprodução/Memória Globo)

Uma cena curiosa, tanto na carreira de Maria Padilha quanto nas tramas de Janete Clair, é a participação de Chacrinha na história. A personagem de Maria Padilha era uma aspirante à cantora que fazia uma participação no programa do apresentador. A entrada de Chacrinha ocorreu no capítulo 24. Entre as sequências gravadas para “Eu Prometo” que causaram repercussão estão as dos capítulos 56 e 57: um tiroteio, uma rebelião e um presídio como cenário, além da participação de 32 policiais do Batalhão de Choque da PM — algo que não seria permitido hoje. “Um outro lado importante na vida de Lucas é a obra social que visa à recuperação de ex-presidiários. É uma preocupação sincera dele”, disse Janete Clair, na época

A GRANDE AUTORA

Eu Prometo” era a estreia de Janete no horário das 22h, e ela dizia haver um grande desafio em retornar aos folhetins justamente na faixa das dez. “A responsabilidade é muito grande: temos de reacostumar o público a um horário que está inativo há quatro anos, em termos de novelas.” Inicialmente, a trama se chamaria “O Homem Perfeito”.

Naquela trama, pela primeira vez, Janete Clair procurou alguém para colaborar. Entre alguns nomes indicados, escolheu Glória Perez, então diretora de arte do núcleo das 18 horas da Globo. “Desde que terminei ‘Sétimo Sentido’ (1982), senti ser muito puxado fazer uma novela sozinha. Resolvi, então, chamar uma colaboradora”.

Ela, certamente, será uma grande novelista, pois é uma pessoa culta, inteligente, com muito talento e vontade de acertar – Janete Clair, em 1983

Dina Sfat marcou seu retorno às novelas através de “Eu Prometo” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Como Gloria Perez não tinha prática com texto de novela, faria alguns diálogos determinados por Janete, responsável pela estrutura e pelo roteiro dos capítulos. A autora descartava a possibilidade de um trabalho a quatro mãos com Dias Gomes, seu marido, “já que temos estilos diferentes, amadurecidos e consagrados. Assim, é melhor ter a colaboração”. Curiosamente, a primeira menção à colaboradora foi publicada de forma equivocada: em vez de Gloria Perez, creditaram Gloria Pires. Era a estreia nominal de quem, mais tarde, se tornaria uma novelista de mão cheia.

Kadu Moliterno não faria a novela, mas acabou substituindo Carlos Augusto Strazzer. Na trama, envolveu-se com as personagens de Fernanda Torres, Malu Mader e Julia Lemmertz. Janete dizia que a censura havia liberado a novela apenas para depois das 22h. A própria emissora, porém, afirmou que abriu o horário das dez para Janete em razão do avanço de sua doença. “Comecei a escrever esta novela para as 20 horas, o horário que eu mais curto. Mas, como a censura só permitiu que fosse ao ar depois de 22 horas e a Globo tinha planos para esse horário, levei adiante meu projeto. Na verdade, não mudei a forma de criar histórias e personagens, apenas estou escrevendo com mais tranquilidade, com menos medo de ter cenas vetadas”.

Dina Sfat e Francisco Cuoco na trama de Janete Clair (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Janete deixou de escrever a novela por volta do capítulo 60. Com sua morte, cogitou-se que a trama deixaria de ser exibida — o que, evidentemente, não aconteceu. Jornais da época relatavam que Dennis Carvalho (1947-2026) levava a Janete fitas com os capítulos pré-finalizados; ela, por sua vez, ainda escrevia trechos à mão. Ficou 35 dias internada na Casa de Saúde São José. Já adoentada enquanto escrevia “Eu Prometo”, Janete não se negava a conceder entrevistas — apenas a posar para fotografias. Um dado curioso: Walmor Chagas podia ser visto, simultaneamente, em dois programas inéditos, exibidos por emissoras diferentes — uma raridade num mercado ainda cioso de suas fronteiras. Atuava em “Eu Prometo” e, ao mesmo tempo, apresentava o “Bar Academia”, na Manchete.

Walmor Chagas e Tom Jobim no Bar Academia, na Manchete (Foto: Revista Manchete)

Há também um elemento dramatúrgico que surgiu em “Eu Prometo” e que Gloria Perez reaproveitaria em novelas posteriores, como “América” e “Pecado Capital” (1998): os filhos que passam a integrar uma “turma esquisita”, para desespero dos pais. Em “Eu Prometo”, a personagem de Fernanda Torres torna-se punk — um gesto de enfrentamento geracional. Anos depois, em “Pecado Capital” (1998), a personagem de Paloma Duarte repete o movimento. Já em “América” (2005), Raíssa, vivida por Mariana Ximenes, adere ao funk como forma de provocar a família. Muda o figurino, muda a trilha, mas permanece o mesmo ruído doméstico: o conflito entre pais perplexos e filhos dispostos a performar sua diferença.

Fernanda Torres: Atriz indicada ao Oscar em 2025 estreou nesta novela (Foto: Nelson di Rago/Globo)

JANETE CLAIR: O ÚLTIMO CAPÍTULO

Foi assim que o Jornal do Brasil intitulou a reportagem de Diana Aragão que anunciou a morte da escritora. Quando ela morreu, estava no ar o capítulo 40 da trama. O noticiário da época apontava que Janete já havia escrito até o capítulo 60; Dias Gomes, até o 70; e Gloria Perez assumiu oficialmente a partir do 71, levando a história até o último, o 103. Fragilizada, Janete nem sequer compareceu à festa de lançamento da novela, em 15/07/83.

Há, contudo, versões distintas — já naquele momento — sobre a rotina de escrita. A própria Janete explicou os bastidores da trama e seu método de trabalho. “Escrevo cerca de três horas por dia e concluo quatro capítulos por semana. Ainda não entrei na batida de precisar escrever um capítulo diariamente”, disse a O Globo. Com o avanço da doença, Janete já não recebia repórteres e tampouco foi autorizada por Dias a assistir à novela. Enquanto ela estava viva, Glória escrevia cenas avulsas e, em alguns casos, capítulos inteiros. Janete declarou ainda, a O Globo, que as cenas eram propostas por ela, escritas por Glória e passavam por seu crivo. Após gravadas, tornou-se impossível saber, com precisão, quem escreveu o quê.

Kadu Moliterno viveu um personagem de destraque em “Eu Prometo” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Em 20/11/83, Gloria Perez concedeu uma de suas primeiras entrevistas sobre a novela, quando já tocava praticamente sozinha a trama. “Foram poucos meses de convívio, mas de uma troca intensa. Como Glória mesmo define, ‘era impossível manter com Janete uma relação puramente profissional’. Adaptei-me rapidamente ao seu ritmo de trabalho. Janete era uma pessoa muito fácil de conviver, dizia logo do que gostava e do que não gostava. Conversávamos muito, eu sempre ia à sua casa, quase todos os dias. Nossa relação profissional nos tornava muito próximas. Foi uma convivência curta — não chegou a completar um ano — mas muito profunda. Apesar de sua doença, eu tinha certeza de que ela ia se recuperar. Sua perda foi um choque muito grande.”, disse Gloria a O Globo.

O último episódio da trama trouxe um bilhete de Dias Gomes no roteiro do capítulo 103: “Esse capítulo deve ser feito com todo amor, com toda a garra de que eu sei que vocês são capazes. Essa será a maior homenagem que poderemos prestar à memória de Janete”.

Cenas da novela foram gravadas na Igreja da Glória, no bairro homônimo, e no centro da capital fluminense. Tratava-se de uma novela excepcional também por circunstância: o horário das 22h não exibia uma trama inédita desde o fim de “Sinal de Alerta”, e a faixa vinha sendo ocupada por reprises.

Ney Latorraca era o vilão de “Eu prometo” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Quando a notícia da morte de Janete Clair chegou aos corredores da Globo, no Jardim Botânico, houve uma mudança instantânea de clima. O silêncio e a tristeza tomaram conta da emissora. Quase imediatamente foram suspensas as gravações de “Guerra dos Sexos”, sobretudo por causa da crise nervosa de Gloria Menezes — presença constante em obras de Janete — levada às pressas por Tarcísio Meira (1935-2021) à Casa de Saúde São José. Como as cenas seguintes dependiam dela e o elenco estava emocionalmente abalado, Jorge Fernando interrompeu os trabalhos, sem saber quando seriam retomados. Já “Champagne” — para a qual faltavam apenas sete capítulos — continuou a ser gravada, com o elenco disposto a concluir as cenas. Para Renée de Vielmond, o drama foi duplo: no mesmo dia em que morreu Janete, morreu também seu avô.

No fim, quando o capítulo 103 foi ao ar e a voz de Gal Costa ecoou em “Pois tudo que é amor parece com você”, a novela já era também um réquiem. A canção não encerrava apenas a trajetória de Lucas Cantomaia, mas selava a despedida de Janete Clair da televisão que ela ajudou a moldar. Faltava ali a autora que escrevia à mão, que revisava diálogos do leito do hospital, que pensava personagens como quem move peças de um xadrez sentimental. A história terminou, a música subiu, os créditos rolaram — mas a ausência de Janete permaneceu no ar, densa, como um silêncio que nenhuma trilha sonora é capaz de preencher.