*por Vítor Antunes
Ela voltou às novelas vestindo uma personagem que caminha sobre uma linha fina — e deliberadamente instável — entre a vilania e o carisma. Em “Êta Mundo Melhor!“, folhetim das seis assumidamente ingênuo, Tamires surge como uma francesa fajuta, dessas que colecionam sotaques improvisados e biografias de ocasião. Carrega uma ambiguidade moral que não costuma ser convidada para narrativas tão ingênuas. O desafio, aqui, não está apenas no texto, mas na fricção: como sustentar zonas cinzentas num universo que prefere o preto no branco. A tarefa coube a Monique Alfradique, que encontrou na personagem um terreno fértil para tensionar rótulos e expectativas. Ao falar de Tamires, a atriz recorre menos à psicologia clássica da vilã e mais à ideia de humanidade como um campo imperfeito, contraditório e, justamente por isso, reconhecível.
“Ela é uma personagem cheia de nuances, e isso sempre me atrai muito. Eu gosto de explorar justamente esse espaço onde a humanidade aparece de verdade. Nenhum personagem é totalmente bom ou totalmente mau, todos têm desejos, fragilidades, contradições e buscar essas camadas é o que deixa o trabalho vivo. Com a Tamires, eu me permiti transitar por essa ambiguidade moral com muita liberdade, entendendo suas motivações e vulnerabilidades, para que ela pudesse ser vista como alguém real, e não apenas como um rótulo.”
Há ainda um segundo nível de desafio: falar de cabaré e prostituição em uma novela das seis, em tom leve, sem apagar completamente o que esses espaços significam — sobretudo quando a história se passa nos anos 1950. Na adaptação televisiva, o cabaré vira dancing, um lugar para dançar; e prostitutas viram apenas vedetes. A suavização é evidente, mas não elimina o peso histórico do julgamento moral imposto às mulheres naquele período. Monique faz questão de situar a discussão nesse contexto:
“‘Êta Mundo Melhor‘ se passa nos anos 50, e isso traz um peso extra: o julgamento da mulher era ainda mais rígido, e qualquer desvio do padrão moral da época vinha acompanhado de rótulos muito cruéis. Minha preocupação sempre foi humanizar essas mulheres, mostrar que por trás daquele universo existiam histórias, dores, escolhas. A leveza veio exatamente desse lugar: não tratar o tema como tabu, mas entendendo que cada personagem tem seus afetos e sua humanidade. Fugir do estereótipo foi essencial para trazer verdade e respeito à trama”.

“Fugir do estereótipo foi fundamental” (Foto: Gabriel Fahrat)
PRAIA
Fora da novela, Monique também pode ser vista na série “Beach Life“, do canal E!, um programa que se propõe a documentar o estilo de vida de quem vive perto do mar. Entre passeios, esportes, conversas soltas e risadas ensaiadas, a atração apresenta diferentes “tribos” da praia, como se o litoral fosse um grande laboratório sociológico a céu aberto. Ao comentar a experiência, a atriz ressalta o envolvimento pessoal com o cenário.
“Cada episódio me surpreendeu à sua maneira. Eu acabei me identificando um pouco com todas as tribos, tanto com os “Ratos de Praia” quanto com o pessoal do “Perto de Casa”, porque nasci e cresci em Niterói, sempre com o mar como cenário. Minhas lembranças de infância e adolescência estão todas ligadas às praias de lá, então essa conexão é algo que levo comigo até hoje. Além dos encontros, as atividades novas que vivi durante as gravações também me surpreenderam muito. A trilha bem íngreme e desafiadora subi com determinação e comemorei muito quando cheguei ao topo. E ainda me arrisquei na natação no mar, altinha, no vôlei de praia e no futevôlei, funcional na areia fui experimentando um pouco de tudo. Cada experiência, cada grupo e cada atividade me revelaram algo novo, tanto sobre o universo da praia quanto sobre coisas novas que conseguia fazer”.
Embora o programa aposte numa espontaneidade quase programática, os bastidores exigiram mais esforço do que a leveza final sugere. Conciliar atividade física intensa, entrevistas em movimento e presença diante das câmeras não foi trivial — e Monique reconhece isso com humor. “Eu participei de várias atividades durante as gravações, e muitas delas eram totalmente novas para mim, como continuar a entrevista fazendo trilha bem íngreme, foi tudo muito intenso e divertido ao mesmo tempo, e acho que essas sensações, consegui passar para o público de maneira natural.”

Monique Alfradique está à frente de uma série praiana, “Beach Life” (Foto: Gabriel Fahrat)
“Beach Life” é apenas mais um item numa lista crescente de projetos como apresentadora. Antes dele, veio o “Crush Animal”; agora, a atriz se divide entre TV aberta, TV por assinatura, streaming e novela, tudo ao mesmo tempo. Ao falar dessa fase, Monique adota um tom de balanço — menos celebratório, mais reflexivo — sobre o lugar onde chegou. “2025 foi um ano muito importante para mim, um mergulho em diferentes projetos, e até como produtora executiva, e descobri como tudo isso tem me completado como pessoa e profissional, tudo que fiz até aqui me levaram até aqui e tem sido muito especial. Acho que essa diversidade é justamente o que me move como atriz, produtora e apresentadora. Ela me desafia, me inspira e me mantém sempre em movimento”.
A GAROTA DA BANDA
Monique já havia falado sobre ter sido pianista em orquestra quando criança. O quanto a música, ou outras artes, ainda influencia seu trabalho como atriz neste momento da carreira. “A música sempre foi uma base muito forte na minha vida, desde a época em que eu tocava piano na orquestra. E isso continua influenciando diretamente meu trabalho como atriz. Para cada personagem, eu crio uma playlist específica uma trilha que traduz o mundo interno dela, seu ritmo, seu estado emocional. Às vezes é uma música que ela ouviria, outras vezes é algo que me ajuda a acessar nuances que não estão no texto. Também busco referências em outras artes, como dança, cinema e artes visuais, porque acredito que tudo isso amplia a sensibilidade e alimenta a criação. No fim, a arte sempre conversa com a arte, e eu levo essa bagagem comigo em cada trabalho”.

Monique Alfradique era musista quando jovem (Foto: Gabriel Fahrat)
Ao longo de mais de 20 anos de carreira, ela viu várias fases da televisão e do entretenimento no Brasil se transformarem. Aponta-nos, então, aquelas mais significativas, e como isso influencia as oportunidades para atrizes hoje. “Foram muitas transformações ao longo desses anos, e talvez a mais impactante seja a multiplicação de plataformas e formatos. Hoje não é só a TV aberta que dita os caminhos da carreira, existem o streaming, a internet, os projetos independentes, o cinema ganhando nova força, isso ampliou muito as possibilidades de trabalho e também de escolha. As oportunidades hoje são mais plurais, mas também exigem que a gente esteja em constante movimento, se reinventando, estudando, se comunicando com novos públicos. Para nós, atrizes, é desafiador e, ao mesmo tempo, estimulante”.
No conjunto, o que se desenha é o retrato de uma artista em permanente estado de travessia. Entre a ambiguidade moral de uma personagem de novela das seis, a fisicalidade ensolarada de um programa de lifestyle e a adaptação constante às mudanças do mercado audiovisual, Monique Alfradique parece interessada em fixar uma identidade e mantê-la em movimento. Sua trajetória sugere que, num cenário em que formatos, plataformas e expectativas se transformam com rapidez, a sobrevivência — e talvez a maturidade — artística passa justamente por essa recusa ao repouso: seguir tensionando limites, acumulando repertório e aceitando que, como suas personagens, a carreira também se constrói nas zonas cinzentas.
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