Em ‘Três Graças’, a bagunça dos créditos de abertura rebaixa veteranos e revela um novo descuido da Globo


Crise nas aberturas: Em “Três Graças”, a emissora até ensaia algum fôlego visual, mas tropeça na desordem dos créditos: veteranos e protagonistas aparecem misturados sem critério. Miguel Falabella, que retorna às novelas após 23 anos, surge discretamente, enquanto o cantor Belo, estreante, recebe a distinção de “participação especial”. O caso revela o esvaziamento simbólico de um gesto que, por décadas, era sinônimo de respeito e reconhecimento entre artistas. “Três Graças” é um sintoma de uma Globo em que alguns profissionais parecem desconhecer a própria história da empresa, sua tradição de respeito ao ofício e à liturgia da telenovela

*por Rodrigo Otavio

Há algum tempo, o Site Heloisa Tolipan já havia comentado, e com certo desalento, o modo como as aberturas de novelas vêm sendo tratadas com descuido pelas grandes emissoras. A Globo, que fez escola na criação de aberturas memoráveis – de “Roque Santeiro” a “O Clone”, por exemplo -, tem entregado, nos últimos anos, sequências preguiçosas e sem inspiração, quase sempre movidas mais pela obrigação do que pela invenção. Aqui mesmo, levantamos recentemente um dado curioso: o número crescente de novelas cujo título é idêntico à música-tema. A criatividade parece ter entrado em recesso. Nesse panorama de repetição e descuido, “Três Graças” que, pelo menos apresenta uma abertura com alguma inspiração visual, tem um sério problema na disposição dos créditos do elenco: uma desordem que beira o aleatório.

Nomes de artistas consagrados, com trajetórias consistentes e reconhecimento nacional, aparecem relegados a posições que não fazem jus à sua importância. Algo surpreendente em uma emissora historicamente cuidadosa com esse ritual simbólico. Durante décadas, a Globo manteve uma etiqueta precisa: protagonistas abriam os créditos, seguidos por atores em grandes papéis; nomes novos, participações menores ou pontuais vinham mais ao final. Havia uma liturgia. Grandes intérpretes em papéis pequenos eram creditados como “participação especial”, e veteranos de renome, por deferência, recebiam menções destacadas — exemplo de “Fernanda Montenegro como Olga”, em “O Dono do Mundo” (1991).

Depois de anos sem um elenco verdadeiramente estelar, a atual novela das 21h devolveu à grade um certo padrão de grandiosidade. A novela reúne grandes nomes e novos talentos – o que, em tese, exigiria um cuidado ainda maior na organização dos créditos. Tradicionalmente, nesses casos, a Globo adotava a fórmula “elenco em ordem alfabética”, preservando, porém, um destaque visual para a grande estrela. Agora, o que se vê é um embaralhamento desconcertante.

O exemplo mais eloquente é Miguel Falabella. Um dos maiores atores, dramaturgos, roteiristas e diretores do país, retorna às novelas após 23 anos e é creditado no terceiro bloco de nomes. Em outras épocas, seu nome viria precedido de alguma distinção, como “ator convidado”, “participação especial” ou, no mínimo, “Miguel Falabella como Kasper”. Ironia das ironias: o crédito de “participação especial” foi reservado ao cantor Belo, que estreia como ator e, pela tradição, deveria receber a chancela de “apresentando”.

Samuel de Assim, o diretor Luiz Henrique Rios e Miguel Falabella gravam ‘Três Graças’

A lista de distorções não para aí. Alanis Guillen, a Juma Marruá de “Pantanal”, aparece apenas no sétimo bloco. Fernanda Vasconcellos, protagonista de “A Vida da Gente” – uma das novelas brasileiras mais vendidas no exterior – surge apenas no oitavo, ao lado de Carla Marins, veterana da casa desde 1986 e protagonista de “História de Amor” (1995), além de papéis de destaque em “Tropicaliente” (1994) e “A Indomada” (1996).

Mais adiante, Amaury Lorenzo, Túlio Starling e Bárbara Reis, três nomes de valor da geração atual – o primeiro, destaque de “Volta por Cima”; o segundo, de “No Rancho Fundo” ela, protagonista de “Terra e Paixão” –, aparecem apenas no nono bloco. No último, figuram André Mattos e Julio Rocha, ambos veteranos. A única coerência está em Arlete Salles, devidamente creditada como “atriz convidada”, e Alana Cabral, que recebeu o justo “apresentando”.

A questão pode parecer banal – mera ordem de créditos -, mas dentro da cultura televisiva, ela sempre foi um marcador de status, respeito e memória. Houve um tempo em que se travavam pequenas batalhas contratuais por esse espaço simbólico. Marília Pêra, por exemplo, exigiu destaque em “Rainha da Sucata” (1990), mesmo tendo participado de poucos capítulos. Ganhou um raro “E Marília Pêra” após a lista de colegas – menção que a Globo quase nunca concedia. Em “O Beijo do Vampiro”, Glória Menezes foi identificada como “atriz especialmente convidada”; em “Baila Comigo” (1981), Fernanda Montenegro estreou na emissora com a distinção “Fernanda Montenegro como Sílvia”.

Naquela época, o jovem Miguel Falabella, em sua estreia em “Sol de Verão” (1982), tinha o nome posicionado no quinto bloco num total de sete, seguidos por menções especiais como “as crianças”, “participação especial”, “ator convidado” e “Jardel Filho como Heitor”. Em “Uga Uga” (2000), a abertura trazia 12 blocos. Marcos Pasquim, então em ascensão, aparecia no nono — hierarquia que espelhava, com precisão quase burocrática, o equilíbrio de prestígio entre veteranos e novatos.

Hoje, o que se vê é um desmonte silencioso dessa cultura interna. Um apagamento institucional da memória simbólica da emissora. O caso de “Três Graças” é apenas mais  um sintoma de uma Globo em que alguns profissionais parecem desconhecer a própria história da empresa, sua tradição de respeito ao ofício e à liturgia da telenovela

“As Filhas da Mãe”: Fernanda Montenegro foi creditada com deferência  (Foto: Cristiana Isidoro/Globo)

Nos tempos áureos, quando o elenco era sempre verdadeiramente estelar, a emissora optava pela ordem alfabética, uma solução diplomática que preservava hierarquias sem ferir egos. Assim era em “Espelho Mágico” (1977): abria com Carlos Eduardo Dolabella (1937-2003) e encerrava com Yona Magalhães (1935-2015), antecedida pela então estreante Vera Fischer. O mesmo expediente foi usado em “As Filhas da Mãe” (2001), com uma única exceção – e justa: Fernanda Montenegro, novamente, destacada com o honroso “Fernanda Montenegro como Lulu de Luxemburgo”.

O caso mais visível é o da Globo, mas nem mesmo a Record, sua principal concorrente, escapa da tendência. A vice-líder de audiência, por exemplo, frequentemente dispensa a vinheta de abertura ao reapresentar suas novelas, exibindo apenas o nome dos atores sobre as cenas, como se a abertura – aquela síntese estética e simbólica da trama – fosse um luxo dispensável. A vinheta, afinal, sempre foi mais do que um detalhe: é o prólogo simbólico da ficção nacional. E ao tratá-la com desdém, a Globo não apenas desorganiza seus créditos, mas sua própria memória.