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Em “Palavras em Série”, Alberto Renault une interpretação e literatura com time poderoso de mulheres: “São autoras de sua própria vida”

De um lado, cinco atrizes brasileiras e, do outro, cinco autoras e trechos intensos de suas obras. Para interpretar esses textos, o diretor escalou Mônica Iozzi, Andréa Beltrão, Lília Cabral, Camila Pitanga e Regina Casé

Publicado em 08/01/2018 | Por Julia Pimentel

Um time de cinco atrizes embaladas pelas obras de cinco autoras e regidas pelo olhar de um mestre. É mais ou menos esta a equação de “Palavras em Série”, o novo programa do GNT com direção e concepção de Alberto Renault. Em um universo em que o audiovisual é o mais importante, Alberto Renault inova no sentido contrário ao criar um programa em que a imagem é quase vazia e a palavra o principal destaque. De acordo com diretor, “Palavras em Série” é o resultado de um desejo experimental que ultrapassa as barreiras tradicionais da ficção.

Mas, até alcançar essa identidade, o diretor confessou que seguiu um caminho de propostas e possibilidades com a direção do GNT. “Assim como toda ideia, este conceito não surgiu do nada. Eu levei a ideia de fazer uma ficção em um formato que tivesse um lado documental também e aí fomos construindo esse programa. A ideia não era fazer algo convencional com cenários e figurinos e, sim, um conceito mais perto da literatura e do estilo de documentário”, explicou Alberto que traduziu esta ideia montando um time estelar que interpreta trechos literários de maneira limpa e singular.

Alberto Renault e Andréa Beltrão em “Palavras em Série” (Foto: Divulgação/Clara Cosentino)

De um lado, cinco atrizes brasileiras e, do outro, cinco autoras e trechos intensos de suas obras. Para interpretar esses textos escolhidos por Alberto Renault, o diretor escalou Mônica Iozzi, que estrelou o primeiro programa, Andréa Beltrão, Lília Cabral, Camila Pitanga e Regina Casé, que fecha o “Palavras em Série”. “A minha escolha por essas cinco artistas foi pelo conjunto que elas trazem. Não queriam que fossem apenas atrizes que se repetiam em estilo, idade ou escola. As cinco são mais que isso e também são autoras de sua própria vida, carreira e escolhas. Isso faz com que elas tenham uma presença artística muito forte e que juntas, criam um coro super dissonante, mas que funciona em harmonia”, explicou.

No outro lado, Alberto Renault seguiu um pensamento similar para elencar as cinco autoras. Neste caso, “Palavras em Série” apresenta as obras de Adélia Prado, Tati Bernardi, Clarice Lispector, Ana Cássia Rebelo e Hilda Hilst. “Todas elas possuem marcas muito fortes e, quando eu pensei nas atrizes para participar, a ideia pelas autoras foi muito natural. Desde o começo eu já conhecia a relação da Regina com a Clarice, por exemplo, e da Lília com a Ana Cássia. Então foi uma construção muito espontânea”, contou o diretor sobre as duplas que ainda uniram Andréa Beltrão e Adélia Prado, Mônica Iozzi e Tati Bernardi  e Camila Pitanga e Hilda Hilst.

Alberto Renault e Mônica Iozzi em “Palavras em Série” (Foto: Divulgação/Clara Cosentino)

Porém, toda esta forma feminina, ainda mais no atual cenário que vivemos, não fora um dos conceitos principais de Alberto Renault na concepção de “Palavras em Série”. De acordo com o diretor, a escolha pelas dez mulheres foi mais estética do que ideológica. “A presença feminina veio da proposta visual que eu queria passar, e não da conceitual. Eu achei que fosse ser harmônico ter apenas mulheres interpretando, assim como textos em vozes femininas. E foi isso que embalou a criação. Ou seja, não tem nenhum discurso feminista por trás desse programa. Pelo menos da minha parte. Isso pode ser interpretado por quem assiste, apenas”, apontou.

Mesmo assim, “Palavras em Série” traz a força de todo um movimento que nos cerca nos dias atuais. Com a energia de cinco atrizes interpretando cinco autoras e temas potentes, que variam entre Deus, amor, sexo, morte, depressão e ansiedade, os elementos externos precisam ser os mais simples possíveis, de acordo com o diretor. E foi isso o que ele fez. No programa do GNT, Alberto Renault aposta no “menos é mais”. “Todos os programas eram muito visuais e com muita imagem. E eu queria seguir um caminho contrário. O que eu fiz foi esvaziar como uma pagina em branco e deixar que a palavra surja de maneira mais forte do que a imagem. Deste jeito, a informação visual fica concentrada na emoção das atrizes ao interpretar as obras”, explicou Alberto que sintetizou: “é para silenciar, desligar o celular e desacelerar”.

Camila Pitanga interpreta textos de Hilda Hilst em “Palavras em Série” (Foto: Divulgação/Clara Cosentino)

E deu certo. Aliás, o sucesso da proposta de comunicação de Alberto Renault em “Palavras em Série” foi o que mais surpreendeu o diretor da atração. “Fiquei bem satisfeito em ver que o cenário vazio, sem efeitos e figurino deu certo e que, de fato, a palavra ocupou e preencheu a tela. Isso mostra que não foi preciso aquela dramaturgia mais tradicional com cenários, figurinos e efeitos visuais para contar uma história. A força do programa veio através do talento das atrizes e autoras”, analisou o diretor que, em sua posição, contou que a missão foi apenas não atrapalhar. “Eu regi como um maestro. Na verdade, eu acho que a minha principal contribuição foi com a criação do formato e convite das atrizes. De resto, eu só me preocupei em não atrapalhar”, disse.

Mesmo assim, a participação de Alberto Renault foi essencial para o bom resultado em tela de “Palavras em Série”. Nos bastidores, mais do que boas ideias, o diretor carrega uma bagagem de anos de televisão e inúmeros trabalhos de sucesso, como “Casa Brasileira”, do GNT, e “Brasil Legal”, da Globo. E, segundo ele, sua proposta de esvaziar a tela de informação visual é o resultado de um cenário de novas propostas na telinha contemporânea. “Nós estamos em um momento de total efervescência da criatividade com muitas boas ideias surgindo. Está todo mundo tento buscar novos formatos que atendam às atuais maneiras de ver TV e estamos percebendo isso no entretenimento, dramaturgia etc”, apontou Alberto.

O diretor apontou para um bom momento criativo nos bastidores da televisão (Foto: Divulgação/Clara Cosentino)

Afinal, com os novos tempos e os novos comportamentos, a televisão passou a ser uma extensão das múltiplas possibilidades modernas. “Hoje nós temos conteúdo onde, como e quando quisermos, inclusive na palma da mão. Se programar para ver algo que vai passar na televisão em determinado horário não existe mais. O espectador passa a ser também o autor de um produto porque pode assistir de trás para frente, só um trecho ou pequenas partes por dia”, comentou o diretor que, por outro lado, destacou que neste cenário, a qualidade passou a ser ainda mais exigida por quem consome estes programas. “Com a possibilidade muito fácil de mudar o programa, o espectador está querendo ainda mais qualidade. Então, para mim, é uma evolução do mercado”, concluiu Alberto Renault que segue acompanhando os novos tempos, mas, por enquanto, aproveita uma temporada de férias.

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