Em nova fase no cinema, Vinícius de Oliveira vive imigrante em longa e revela drama real: “Quase fui barrado nos EUA”


“Vai pra salinha, fica 30 minutos, revista toda a minha mala. E aí, depois disso tudo, fala: ‘Pode ir’. Foi um desgaste enorme”. Com a estreia de ‘Quase Deserto’, hoje, dia 27, filmado em Detroit após uma entrada tensa no aeroporto dos Estados Unidos, o ator revisita temas como imigração e pertencimento, vive uma fase intensa com projetos integrando a série ‘Tremembé’, e com mais três filmes em produção, relembra o legado de ‘Central do Brasil’ e corre atrás de um sonho de 15 anos: dirigir ‘Justiceiras’, longa de ação protagonizado por mulheres que expõe a fragilidade das medidas protetivas e a urgência de novas narrativas no cinema brasileiro

*Por Brunna Condini

“Me senti um E.T. em Detroit”. A frase que Vinícius de Oliveira dispara ao falar das filmagens de ‘Quase Deserto’ na cidade norte-americana e que estreia hoje, resume não só a experiência de rodar um filme sobre imigração na Detroit em ebulição política, mas também o lugar que o ator, aos 40 anos, ocupa hoje no mundo, entre fronteiras, recomeços e deslocamentos. Protagonista do longa de José Eduardo Belmonte, em que vive Luís, um imigrante latino indocumentado perseguido pelo sistema enquanto tenta agarrar o ‘sonho americano’ em ruínas.

A tranquilidade atual contrasta com a intensidade das últimas filmagens. Em ‘Quase Deserto’, o ator trouxe para a pele de Luís a sensação real de deslocamento e hostilidade que viveu ao chegar aos Estados Unidos. Antes mesmo de pisar no set, enfrentou uma entrada quase barrada pela imigração americana, teve a mala revistada, horas de espera e um interrogatório improvável que só terminou quando ele mencionou que já havia estado por lá com ‘Central do Brasil’, longa de Walter Salles que concorreu ao Oscar em 1999, com indicações como Melhor Filme Internacional, e Melhor Atriz para Fernanda Montenegro.

O eterno intérprete de Josué de ‘Central do Brasil’ atravessa agora uma fase especialmente produtiva: está no ar em ‘Tremembé’, série de true crime do Prime Video; acabou de filmar no Rio de Janeiro ‘Crisálida’, drama sobre racismo estrutural e embates geracionais; acompanha o percurso do longa ‘Leite em Pó’ pelo circuito de festivais; aguarda para 2026 a estreia de ‘Rio de Sangue’; e corre, em paralelo, atrás de um sonho de 15 anos — tirar do papel ‘Justiceiras’, seu primeiro filme como diretor e roteirista, um longa de ação protagonizado por mulheres que mira de frente misoginia, violência de gênero e as brechas de um sistema que muitas vezes falha justamente com quem mais precisa de proteção.

“Sabe quando uma mulher pede uma medida protetiva? Que ela ganha no primeiro momento é ótimo, mas o papel é quase uma sentença de morte. Se você tem um companheiro que é um psicopata… porque o papel não vai manter a distância que ele tem que cumprir. Então o cara vai lá e acaba assassinando a mulher, infelizmente’, provoca. Neste bate-papo exclusivo por vídeo com o site Heloisa Tolipan, direto do seu apartamento em São Paulo, o artista resume também sobre a vida pessoal:

Vivo em São Paulo há 15 anos. Tenho a guarda compartilhada dos meus filhos, Benjamin,12, e Antônio, 10, estou separado da mãe eles há cinco anos. Namoro a Liliana Bernardi, que também é atriz, diretora e crítica de cinema. Estou feliz – Vinícius de Oliveira

Vinícius de Oliveira vive fase intensa no audiovisual e estreia ‘Quase Deserto’, filmado em Detroit, onde encarnou um imigrante latino em busca de sobrevivência (Foto: Reprodução/Instagram)

Vinícius de Oliveira vive fase intensa no audiovisual e estreia ‘Quase Deserto’, filmado em Detroit, onde encarnou um imigrante latino em busca de sobrevivência (Foto: Reprodução/Instagram)

Sobre o estresse vivido na imigração americana, ele revela: “Eles vão fazer de tudo para você não entrar. Se  não sentirem firmeza, vão te mandar embora. Tive que falar para o cara: ‘Meu amigo, eu já estive aqui, sou ator, estive aqui no Oscar, no Globo de Ouro. Se você quiser, dá um Google, você vai ver o meu nome aí, o filme ‘Central do Brasil’. E já era. Aí ele viu, não sei o quê… mas foi todo um trampo. Não é que ele viu e falou ‘pode ir’. Imagina! Vai pra salinha, fica 30 minutos, revista toda a minha mala. E aí, depois disso tudo, fala: ‘Pode ir’. Foi um desgaste enorme”, recorda.

Não precisei de laboratório e nem conversar com ninguém vivendo essa realidade lá, porque só essa entrada já me deu a temperatura, eu era o estrangeiro – Vinícius de Oliveira

Vinícius de Oliveira e José Eduardo Belmonte nos bastidores de ‘Quase Deserto’, filmado em Detroit (Foto: Divulgação)

Vinícius de Oliveira e José Eduardo Belmonte nos bastidores de ‘Quase Deserto’, filmado em Detroit (Foto: Divulgação)

Esse contato entre vulnerabilidade e resistência atravessa tanto o filme quanto a experiência pessoal de Vinícius . “Bastou ser um brasileiro em um país de mentalidade fechada. Eu entrava no elevador do hotel e as pessoas me olhavam como se eu fosse de outro planeta. Realmente, na época, me senti um E.T. em Detroit”. A vivência, porém, não o paralisou: despertou um estado de alerta e uma empatia que ajudaram a moldar o personagem.

Não por acaso, o ator enxerga uma ponte direta entre o menino que cruzava estradas com Dora (Fernandona) em ‘Central do Brasil’, e o imigrante latino na urbana Detroit. “O Josué estava buscando o seu lugar no mundo, buscando afeto, pertencimento, uma família que ele não conhecia. O Luís também busca um lugar. Quer sobreviver, ter dignidade, trazer a filha para perto dele. No fundo, é a mesma jornada humana: buscar sobrevivência e um espaço possível no mundo”, compara.

Crescido no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, o artista conta que aprendeu cedo a sobreviver em ambientes que o colocavam “sempre lá embaixo”. Essa origem o blindou dos abalos emocionais que poderiam surgir de situações de rejeição como a que viveu nos EUA:

Não faço questão de estar onde não me querem. E se eu tiver que brigar, brigo. Isso não me derruba. Não vou ficar com trauma. A vida segue – Vinícius de Oliveira

Vinicius de Oliveira, Angela Sarafyan e Daniel Hendler em cena do filme ‘Quase Deserto’ (Foto: Divulgação)

Vinicius de Oliveira, Angela Sarafyan e Daniel Hendler em cena do filme ‘Quase Deserto’ (Foto: Divulgação)

Amadurecimento

Essa firmeza também se reflete na leitura que faz da própria carreira. Aos 40 anos, sente que o meio audiovisual finalmente o enxerga de forma ampla e madura, mesmo que o público ainda carregue o afeto eterno pelo menino de ‘Central‘. “O público é muito apegado ao Josué, e com razão. Mas o meio já me vê como um artista com trajetória, com entregas, diversidade de papéis. Sinto esse respeito”.

E é justamente essa história que dá contorno aos novos desafios. Em ‘Tremembé’, série Prime Video, ele interpreta Rogério Olberg, um dos namorados de Suzane von Richthofen (Marina Ruy Barbosa), personagem inserido em uma trama que confronta o imaginário popular cristalizado sobre o caso Richthofen . “O ser humano é profundamente complexo. A série mostra isso. Não é sobre defender ou romantizar nada, é sobre encarar o que somos capazes de fazer”. Já em ‘Crisálida’, longa dirigido por Silvio Guindane e estrelado por Leandro Hassum, o tema é outro: branquitude, racismo, privilégios e a necessidade ativa de ser antirracista. “É um filme que coloca duas pessoas brancas discutindo racismo a partir do próprio privilégio. Isso é raríssimo no nosso audiovisual. Acho fundamental”.

Vinícius de Oliveira é Rogério Olberg em 'Tremembé' (Foto: Divulgação)

Vinícius de Oliveira é Rogério Olberg em ‘Tremembé’ (Foto: Divulgação)

No ainda inédito ‘Leite em Pó’, que percorre festivais internacionais, ele protagoniza a história delicada de um jovem criado pela avó, uma relação marcada por afeto simples, sintetizada na imagem do leite preparado todos os dias e deixado na pia. “É um filme profundamente humano, sobre perda, reconstrução e identidade”. E em ‘Rio de Sangue’, da Disney, surge como um garimpeiro cruel, em uma trama que aborda invasões de terras indígenas, tráfico, violência e a busca desesperada de uma mãe por sua filha. “É um filme de ação, intenso, filmado no Pará. Fiz um personagem bem miserável. Foi forte”, conclui, evidenciando sua versatilidade como intérprete. Com tantos papéis em trânsito e temas urgentes atravessando sua filmografia, é impossível não pensar no jovem engraxate do aeroporto que — por acaso, destino ou insistência de uma vida inteira — encontrou Fernanda Montenegro e Walter Salles. A herança desse encontro segue viva:

A generosidade da Fernanda em cena, a delicadeza do Walter para dirigir… levo tudo comigo. Eles são referências de humanidade e de escuta. Isso molda quem eu sou até hoje – Vinícius de Oliveira

Vinícius de Oliveira com Fernanda Montenegro, Walter Salles e a equipe de 'Central do Brasil' no Oscar em 1990 (Foto: Reprodução/Instagram)

Vinícius de Oliveira com Fernanda Montenegro, Walter Salles e a equipe de ‘Central do Brasil’ no Oscar em 1990 (Foto: Reprodução/Instagram)

Estreando na direção

Paralelamente a todos os projetos como ator, Vinícius corre atrás de um sonho antigo: dirigir seu primeiro longa. ‘Justiceiras’, roteiro que ele mesmo escreveu depois de 15 anos incubando a ideia, nasceu de um impulso ético e estético que o acompanha desde ‘Central do Brasil’, quando se apaixonou pela orquestração silenciosa de Walter Salles no set. “Nunca fui o ator que ficava no trailer. Ficava olhando o Walter dirigir, encantado”, lembra. O filme, um projeto de ação protagonizado por mulheres, confronta de frente a misoginia e o fracasso das medidas protetivas no país. “Quando uma mulher ganha uma medida protetiva é ótimo, mas o papel pode virar quase uma sentença de morte”, diz. Vinícius escreveu o roteiro sozinho, depois de não conseguir conciliar agendas com outros roteiristas, e agora busca parceria com uma grande produtora para viabilizar a filmagem: “Estou batendo em portas certas, indo devagar, mas em movimento”.

"O público é muito apegado ao Josué, e com razão. Mas o meio já me vê como um artista com trajetória há algum tempo" (Foto: Reprodução/Instagram)

“O público é muito apegado ao Josué, e com razão. Mas o meio já me vê como um artista com trajetória há algum tempo” (Foto: Reprodução/Instagram)