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Elsa & Fred: no longa sobre o amor na terceira idade, Christopher Plummer rouba a cena e prova que ator veterano não é morto-vivo!

Eterno Capitão Von Trapp de "A noviça rebelde", o antigo astro contracena com Shirley MacLaine em produção sensível onde não existe o medo de revelar as rugas

Publicado em 20/11/2014 | Por Alexandre Schnabl

Depois de “Amor” (Amour, de Michael Haneke, Les Films du Losange e outros, 2012), o cinema volta a brindar o público com outra delicada história vivida por personagens da terceira idade, desta vez muito mais leve, mas nem por isso pouco densa: “Elsa & Fred” (idem, de Michael Radford, Cuatro Plus Films e outros, 2014), refilmagem do longa argentino homônimo de 2005. Se o primeiro trata da crueza imposta pela saúde frágil no limiar da vida e a dificuldade de um casal de anciãos em lidar com isso, o novo exemplar dessa bissexta fornada sênior é muito mais suave, procurando trazer luz à descoberta do amor em idade avançada e, óbvio, o preconceito que pode existir, tanto por parte dos apaixonados, quanto por quem os rodeia. Claro, as limitações de quem não está mais na flor da idade estão lá, assim como são fato as preocupações que inspiram seus filhos e netos. Mas quem os impede?

Foto (Divulgação)

Foto (Divulgação)

Dessa vez, cabe aos veteranos Shirley MacLaine e Christopher Plummer darem vida ao improvável conto de fadas sobre casal de vizinhos de andar que descobre a paixão quando todos à sua volta imaginavam que já estariam virando o Cabo da Boa Esperança. Em uma das cenas, o octuagenário Fred Barkwell interpretado pelo outrora Capitão Von Trapp (de “A Noviça Rebelde”) entrega logo o jogo: “Queria 30 anos menos e uma próstata do tamanho de um amendoim”.

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Naturalmente, realizar um filme protagonizado por atores que já passaram dos oitenta é tarefa árdua em tempos atuais, dominados por tchutchucas de seios fartos nas capas de revistas, potrancas com cabelos esvoaçantes e quadris avantajados  sussurrando “baby boy” em videoclipes, macho men de abdômens de fazer inveja à Brastemp assaltando todas as mídias e a exibição de tórridas cenas de sexo, tanto no cinema quanto na televisão, que podem levar hordas de adolescentes a sujar as poltronas. Nunca o culto à pele macia e aos músculos em riste esteve tão no topo e, além de toda a liberdade sexual cultivada neste último meio século, existe a internet e todas as facilidades do mundo virtual para transformar o furor sexual dos jovens em um grande espetáculo, nem que seja um autêntico peep show eletrônico diante da tela de um laptop. Sim, com todos os recursos audiovisuais atuais, até  um private meeting caseiro pode virar superprodução.

Dessa forma, além das limitações de plateia e do risco de pagar mico na bilheteria, realizar uma produção dessas requer muita sensibilidade. Afinal, ninguém paga ingresso para ver pelanca e mesmo o público cada vez maior de pagantes idosos ainda prefere, quando for o caso, encontrar monstros sagrados da atuação devidamente cobertos, sem seus músculos flácidos lhes lembrando a decadência física iminente. E, em um roteiro normal, se o excesso de rugas estiver lá, o filme costuma ter tantos outros atrativos que os espectadores nem reparam.

O diretor, portanto, chega a ser ousado quando –  em um exercício de metalinguagem –, brinca com a passagem do tempo comparando, no ponto alto do filme, o frescor da juventude com seu inevitável ocaso ao emular a cena mais emblemática de A doce vida” (La dolce vita, de Federico Fellini, Riama Film e outros, 1960).

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Naturalmente, o objetivo nessa hora não é usar a luz para disfarçar rugas e, nesse ponto, estrelas como MacLaine, presentes no telão há quase sete décadas, tem coragem ao se deixarem se filmar desse jeito. Dinossauro de Hollywood que ainda pegou a Era de Ouro – começou em 1955 em uma realização hitchcockiana, O Terceiro Tiro” (The Trouble with Harry, Paramount) – , ela está bem em cena, embora reproduza mais uma vez todo o repertório de caras e caretas que carrega produção após produção, desde quando era jovenzinha.

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Mas quem rouba todas as cenas é Christopher Plummer, 85 anos no mês que vem. A maturidade fez bem ao ator que despontou em meados dos anos 1960 como o Commodus de “A queda do Império Romano” (The Fall of the Roman Empire, de Anthony Mann, Samuel Bronston Productions e outros, 1964), ficou estigmatizado pelo papel seguinte no musical que consolidou de vez a carreira de Julie Andrews e fez filmes importantes até começar a desaparecer nos anos 1980/1990, se reduzindo a coadjuvante de ouro em produções na sua maioria classe B. Agora, como o velho rabugento que perdeu a esposa que não amava e finalmente encontra o amor genuíno na porta ao lado do seu apartamento, o ator confirma mais uma vez seu talento e não será surpresa se for indicado ao Globo de Ouro ou a Oscar nesta temporada.

A velhice lhe fez bem e, atualmente desprovido da obrigação de ser galã, ele pode alçar outros voos, o que tem feito nesta última década, quando já viveu o Dr. Parnassus (2009) na curiosa produção de Terry Gilliam, deu voz ao aposentado Charles Muntz em “Up: Altas Aventuras (Up, de Pete Docter e Bob Peterson, Walt Disney Pictures e Pixar Animation Studis, 2009), chamou atenção em “Millenium: os homens que não amavam as mulheres (The Girl wiht the Dragon Tattoo, de David Fincher, Columbia Pictures e outros, 2011) e ainda arrebatou o Oscar de ‘Melhor Coadjuvante’ no papel do viúvo que se descobre gay em “Toda forma de amor” (Beginners, de Mike Mills, Olympus Pictures e outros, 2010). Apesar de, em uma cena de “Elsa & Fred”, seu personagem afirmar que é “uma espécie rara de morto-vivo que parece vivo, mas já morreu”, sua atual trajetória prova justamente o contrário.

Trailer oficial (Divulgação)

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