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Dora de Assis: de moça tímida em Malhação – Toda forma de amar a garoto virgem no teatro

A atriz, que está arrasando na novela teen, quer montar sua peça de teatro até o fim do ano e afirma sobre a sua entrega aos personagens: "Atuar é chegar e falar. Sem floreios, sem contenção. Quando estou para entrar em cena, penso: ‘Vou entrar para morrer’. E entro”

Publicado em 22/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

Foto: Studio B. Art

*Por Jeff Lessa

Desde que estreou, em 24 de abril de 1995, “Malhação” não experimenta uma fase tão boa. A novela teen da Globo vem tratando de forma direta e sensível de temas espinhosos, como homossexualidade, racismo, preconceito de classe e muitos outros que estão na boca do povo e podem ser considerados inevitáveis. Cada temporada foca em uma questão e promove o debate na tela e fora dela. Bom para o espectador, bom para os intérpretes que, a cada temporada, se renovam, já que a atração não tem elenco fixo.

Um dos conflitos expostos na temporada atual, “Malhação – Toda Forma de Amar”, tem a ver com escolhas, decisões fundamentais que somos obrigados a tomar ao passar da adolescência para a vida adulta. Esse é o drama de Raíssa, personagem da atriz Dora de Assis. Aos 17 anos, Raíssa está naquela fase em que precisa decidir o que vai fazer da vida. Se depender da família, vai cursar Direito.

Seu desejo, porém, está dividido entre formar-se para poder tornar-se juíza e ser funkeira, sua grande paixão. “Raíssa tem um diálogo interno intenso e doloroso. Ama o funk, mas sabe que é marginalizado. Ao mesmo tempo, teme decepcionar a mãe e quer vingar o pai, morto num assalto, tornando-se juíza. Ela se questiona o tempo todo”, conta Dora, que acredita que sua personagem não vá conseguir fugir da paixão: “Ela não vai se desviar do funk”.

Assim como a intérprete não se desviou da sensualidade exigida pelo gênero. “A Raíssa é uma tímida-ousada. Ela tem um lado sensual cativante. Eu estudei presença de palco. Tive que abrir caminhos dentro de mim para encontrar isso. Estamos acostumados a ser sensuais só na privacidade”, diz. “Mas não consigo achar a dança vulgar. Nem as roupas curtas, nada disso. Para mim, sensualidade tem a ver com vontade de fazer”.

A atriz Dora de Assis tem um livro de poesias e uma peça de teatro prontos (Foto: Studio B. Art)

Foi preciso muita vontade para encarar o primeiro teste como atriz. O medo de se expor era antigo, vinha da época da escola. As aulas no Tablado, no curso ministrado por Cacá Mourthé, Ricardo Kosovski e Lincoln Vargas, ajudaram a se soltar, mas ainda assim, Dora evitava atuar: preferia trabalhar como figurinista. Fazer o teste foi, como se pode imaginar, dureza: “Já era para falar de sensualidade. A ideia era um monólogo em que eu contava para uma amiga sobre a minha primeira vez. Eu revelando para ela que tinha transado. Tudo no improviso. Fui lá e fiz”, conta Dora. “Acho que é por isso que, para mim, atuar é chegar e falar. Sem floreios, sem contenção. Quando estou para entrar em cena, penso: ‘vou entrar para morrer’. E entro”.

Aos 22 anos, a jovem não vê problema em interpretar uma garota mais nova. “Lembro bem do último ano de escola e entro em contato com a minha vulnerabilidade. É o momento em que a gente enxerga, finalmente, o colégio como um lugar de passagem, quando percebe que dali para a frente a vida nunca mais será a mesma. Nessa passagem, a gente é sufocada pela vida”, acredita. ”Você molda uma personalidade e, quando entra na faculdade, precisa se reinventar do zero”.

O colégio, por sinal, é uma referência constante na vida de Dora. Principalmente quando as memórias não são exatamente doces. “Eu gostava muito, mas era uma escola construtivista cuja prática não tinha a ver com o que pregava. Dizia que incentivava o conhecimento de arte mas, na hora do vamos ver, não era o que realmente importava. Era um ensino muito elitizado”, critica. “Na minha cabeça, o bom aluno tinha que ficar quieto. E a escola tinha um ranking do simulado para o vestibular, dá para acreditar? Do primeiro ao último lugar, do melhor ao pior em ordem decrescente”.

Foi na faculdade de Artes Visuais, na Uerj, que Dora compreendeu que a arte não tinha a ver com coisas materiais e que o bom aluno não era necessariamente o mais comportado. A faculdade de moda, cursada na Candido Mendes, abriu as portas para a carreira de figurinista, um grande amor da atriz. “Tive uma companhia de teatro. Criava os figurinos. Fui fazendo e fui sendo chamada para outras peças. Gosto de me expressar através da roupa. A roupa é mais um texto”, frisa, acrescentando: “Faria figurino de novo com prazer. Gosto de escrever, de desenhar… Eu não conseguiria ser atriz sem escrever, sem vestir, sem atuar”.

‘Precisei abrir caminhos dentro de mim para encontrar a sensualidade’ (Foto: Studio B.Art)

Escrever é mesmo fundamental para Dora. Ela tem um livro de poesias pronto, “Poesia Rouca”. E tem também uma peça de teatro escrita, que pretende montar ainda esse ano: “Porra Nenhuma”. Ahn? Como assim? “É o monólogo de um adolescente que ainda não gozou, por isso o título”, adianta a atriz, rindo. “Eu mesma quero interpretar o personagem, mesmo sendo um garoto. E a direção vai ficar por conta da minha amiga Lara Coutinho”.  (Lara também é atriz e interpretou a Tainá em “Malhação – Seu Lugar no Mundo”, em 2015)

O mundo ainda vai falar muito dessa atriz-figurinista-escritora. Preparem-se.

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