*por Vítor Antunes
Quando surgiu na televisão, Bruna Griphao era uma menina cheia de energia e presença. Hoje, mais madura, após algumas novelas e um BBB nas mãos, reúne quase cinco milhões de seguidores e muita história para contar. Em um momento em que ser mulher se torna pauta urgente, sua fala se direciona especialmente à questão feminina. Nas últimas semanas, diariamente, ao menos um caso de feminicídio chegava aos portais de notícia. Diante desse cenário, ela desabafa: “A gente sente o machismo todos os dias e de várias maneiras. Foi bem intensa essa última semana. Eu chorei bastante, teve uma hora em que até tirei os portais de notícias do meu celular, porque era um caso atrás do outro. Isso é algo muito grave.”
Para a atriz, esses casos não são isolados, mas resultado da ausência de um processo educativo que se repete de forma sistêmica. Ela também aponta a expansão do conteúdo redpill, movimento masculinista e misógino que utiliza a metáfora da “pílula vermelha”, do filme Matrix, para descrever um suposto “despertar” masculino sobre a “realidade” das relações de gênero.
“Acho que é muito importante entender que esses casos não são isolados. Não é algo que acontece esporadicamente; ninguém atropela outra pessoa de forma esporádica. Precisamos compreender que é um problema social, enraizado, cultural. O que me preocupa hoje é a quantidade de conteúdo e de criadores redpills promovendo discursos muito machistas e pessoas normalizando isso. Os discursos criam uma ponte para que essas situações aconteçam. A partir do momento em que a mulher não é respeitada, quando é vista como objeto ou posse, tudo é um risco. O principal hoje é conseguir enxergar os sinais e discursos de ódio para mudar o pensamento no geral e construir um mundo mais seguro para as mulheres”, analisa.

Bruna Griphao debate a violência contra a mulher (Foto: Divulgação)
Ao falar sobre carnaval e representatividade feminina, Bruna destaca que este será seu primeiro ano desfilando em posição de destaque: musa do Salgueiro no enredo dedicado à carnavalesca Rosa Magalhães (1947-2024). Por décadas, Rosa foi a única mulher a assinar sozinha um desfile no Grupo Especial, num espaço historicamente masculino. Além do carnaval, Bruna poderá ser vista em novos projetos, como a série “Jogada de Risco“, criada por Cauã Reymond – que também atua como protagonista – e produção do Globoplay.
Bruna afirma: “O carnaval reflete a sociedade. Rosa enfrentou o machismo e foi uma mulher muito à frente do seu tempo, mostrando que mulheres também podiam. Tanto que foi a maior carnavalesca da História, num ambiente tomado por homens, como a maioria dos espaços de poder. Ela fez história e certamente batalhou muito mais por ser mulher para conseguir provar seu valor. Acho muito lindo o Salgueiro homenageá-la neste ano. É um enredo e um samba que representam também todas nós, mulheres, e demonstram a força, a vivência e o olhar artístico que ela tinha. Isso é muito emocionante, sempre me emociona”.
Comenta também as cobranças que acompanham o posto de musa, especialmente por não ser cria de comunidade. Ela reconhece a responsabilidade: “Eu já esperava ser cobrada. Quando aceitei, sabia que tinha que me comprometer para honrar e demonstrar seriedade. É uma cobrança válida: o carnaval merece essa seriedade, e quem entra precisa tratá-lo dessa forma. Espero muito ver o Salgueiro campeão e vou dar o meu sangue por isso. É o trabalho de milhares de pessoas que têm paixão pela escola e pela História”.
Ainda sobre o carnaval, Bruna relembra sua primeira experiência na Sapucaí: “Eu já desfilei quando era bem criança. Eu não sei quantos anos eu tinha, talvez uns 11 ou 12. Desfilei num carro e foi emocionante. Sempre frequentei e sempre vivi o carnaval do Rio, seja o carnaval de rua, seja o da Sapucaí. Só que nunca em posição de destaque, com a responsabilidade que tenho este ano. Tenho vivido uma imersão que me fez descobrir, de fato, uma nova paixão. Ao aceitar o convite, eu sabia que teria que me comprometer seriamente”.

Bruna Griphao vai estrear como musa no Salgueiro (Foto: Divulgação)
VIDA
Solteira, Bruna tem dedicado sua energia sobretudo ao trabalho, mais do que aos namoros. Ela explica: “Eu estou solteira e acostumada a sê-la. Estou tão focada na minha vida e nas minhas coisas que eu não consigo nem pensar em relacionamento. Então, acho que, para eu me relacionar com alguém, tem que ser alguém que faça muito sentido, que seja muito bom e acrescente muito no meu universo. Eu tenho uma correria grande e não vejo como prioridade. Se acontecer, aconteceu”.
Quando a gente se conhece, se basta e sabe o que merece, o sarrafo fica mais alto. Então tem que ser uma pessoa que faça muito sentido para eu dedicar meu tempo, investir, porque relacionamento requer tempo e esforço. Eu estou muito ocupada com o trabalho, com a minha família e com meus amigos, que também precisam de tempo – Bruna Griphao

Bruna Griphao volta ao teatro e não quer saber de relacionamento agora (Foto: Divulgação)
De família grega, a atriz fala sobre a intensidade e a expressividade que marcaram sua formação: “Eu não sei se é algo da minha família apenas, mas os meus avós e minha mãe, que são gregos, são todos muito expressivos, fervorosos, intensos. Eu acabei absorvendo isso. Tem muito a ver com o que escolhi para a minha vida. Eles gostam de música, gostam muito de arte, a gente sempre canta junto em casa, temos algumas tradições que são fofas e engraçadas e que levam para esse lugar artístico. Ser muito expressiva vem daí. Às vezes meus avós estão falando em grego, depois passam para o português, depois voltam. São muito festivos. Acho que herdei isso deles”.
Ela também comenta sua relação com a língua: “Grego não é uma língua simples de aprender. O que eu sei é pouco, mas aprendi de tanto ouvir em casa. Sei várias palavras e frases, entendo bastante. E também aprendi coisas incríveis, como identificar uma briga. Às vezes eles estão conversando coisas boas no mesmo tom, porque são dois velhinhos intensos, então ficava na dúvida. Hoje eu já tenho essa sagacidade de entender quando é discussão e quando, na verdade, eles estão dizendo que se amam.”

Bruna Griphao: “Grego é muito difícil, não é uma língua simples de aprender” (Foto: Divulgação)
PALCO, PIPOCA E CAMAROTE
Em 2023, a atriz participou do BBB. Sua passagem ficou marcada não apenas pelo terceiro lugar, mas pela personalidade intensa e vigorosa que apresentou ao público. Ela analisa essa experiência: “Eu passei por esse processo e desenvolvi uma maturidade que é impagável. Eu falo que o Big Brother foi uma realização pessoal muito grande, porque eu estava passando por um momento muito difícil fora dele. É muito doido, porque quando lá estava impossível, eu fechava o olho e pensava: ‘Nossa, lá fora está pior’. Eu aprendi a ser resiliente, a me reconectar com esse lugar da minha força, da minha coragem. E, saindo, tendo que lidar com a repercussão, com tudo — críticas positivas, negativas, qualquer comentário — aprendi a filtrar. Acho que o principal é você ter humildade para olhar para si, entender onde errou, onde acertou, aceitar e tentar melhorar sempre. Carrego muito isso comigo: olhar para mim e reconhecer, sendo uma mulher que vê essa fase da vida com muito carinho e acolhimento.”

Bruna Griphao participou do BBB23 (Foto: Paulo Belote/Globo)
No meu talento, no meu ofício, graças a Deus, eu sempre tive muita ciência do que eu queria fazer e do que eu amava fazer. Acho que também vem desse lugar de lidar com críticas, de filtrar, entendendo o que podia me agregar e o que era apenas ódio disfarçado de crítica ou de elogio – Bruna Griphao
Em janeiro, ela volta aos palcos — um território que visitou pontualmente ao longo da carreira, mas que sempre lhe trouxe experiências marcantes: “Eu fiz teatro, mas foram poucas peças e bem pontuais, porque duraram muitos anos. O André Gonçalves eu conheci na leitura e foi incrível; ele é um cara muito generoso, muito gentil, foi muito legal. Teatro é enriquecedor demais, e estrearemos em janeiro essa peça que é para rir e para se divertir”. Ambos os atores estarão em cena na montagem de “No Da Seguinte”, de Regiana Antonini, baseada em original de Luiz Fernando Verissimo (1936-2025).

Bruna Griphao foi finalista do BBB 23 (Foto: Paulo Belote/Globo)
Enquanto o mundo parece girar cada vez mais depressa, Bruna segue encontrando o próprio compasso — entre a força que descobre em si e a delicadeza que herda de suas raízes, entre a Sapucaí que a chama e os silêncios que ela mesma se concede. Sua trajetória, que começou luminosa ainda menina, agora se ilumina de outras formas: pela consciência do tempo em que vive, pela urgência de ser mulher num país que insiste em testar a resistência delas, pela coragem de escolher seus afetos, seus trabalhos, suas batalhas. E, nesse cruzamento de vida pública e reinvenção íntima, ela caminha como quem aprende a cada passo: que maturidade também é afeto por si, que paixão também é responsabilidade e que futuro, para ser possível, precisa caber num mundo onde mulheres possam, enfim, existir sem ter de pedir licença.
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