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Dizendo que Ministra Kátia Abreu é “lobo para cuidar das ovelhas”, Marcos Palmeira conta: “Houve conversa para eu me candidatar a governador”

Comemorando três anos do Armazém Vale das Palmeiras, ponto de venda de orgânicos na Zona Sul do Rio de Janeiro, o ator mantém jornada dupla se preparando para estrear em "Velho Chico", próxima trama das 21h: "A novela, passando no Nordeste, traz uma coisa mais lúdica, de uma briga por amor. Não é a vingança pela vingança. Tem uma veia poética"

Publicado em 23/02/2016 | Por Lucas Rezende

Vamos com calma porque é muita coisa para o carioca de 52 anos batizado de Marcos Palmeira de Paula: ele está comemorando três anos de existência do Armazém Vale das Palmeiras, ponto de venda dos orgânicos que produz na Fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis, que armou numa região hype da Zona Sul do Rio, entre Talho Capixaba e o Jobi, no Leblon; está se preparando para começar a gravar “Velho Chico”, um Romeu e Julieta às margens do Rio São Francisco dirigido por Luiz Fernando Carvalho, da obra de Benedito Ruy Barbosa, para a faixa global das 21h; e aguarda a estreia, no começo do segundo semestre, de “E aí, comeu?”, seriado reformulado a partir da obra de Marcelo Rubens Paiva, no canal por assinatura Multishow. Foi enquanto se arrumava para os compromissos – como podem notar, muitos, do dia -, que Marcos Palmeira aceitou conversar com HT.

Marcos Palmeira (Foto: Divulgação)

Marcos Palmeira (Foto: Divulgação)

Papo vai, papo vem, o ator disse que Kátia Abreu, Ministra de Governo da Agricultura não está interessada em produzir bons alimentos e sim “commodities agrícolas” e que, sua manutenção na pasta, é um erro, já que “não interessa colocar um lobo para cuidar das ovelhas”. Depois de chamar o “Imposto da Pobreza” instaurado por Rosinha Garotinho enquanto comandava o executivo do Estado do Rio de Janeiro de “louco”, Palmeira disse que vê “Marina Silva e Fernando Henrique Cardoso como os melhores nomes que enxergam o Brasil” e se considera, sim, um dos fundadores do partido Rede Sustentabilidade. Alegando que a vida está “ficando chata” com uma “patrulha exacerbada”, Palmeira analisou a arte como “entretenimento” e, ao fim, e não menos importante, foi tácito: “Pedro Paulo (prefeitável no próximo pleito municipal) bateu na mulher. A gente não pode aceitar isso”. Só seguir o rumo da prosa.

“Queria fomentar o consumo e a produção”

“Tenho a fazenda há cerca de 19 anos e o Armazém há três. Iniciei com ambos no mesmo mês: fevereiro. Quando comecei a produzir orgânico, sempre quis ter acesso direto ao consumidor, sem terceiros, e queria fomentar o consumo e a produção. Hoje, por exemplo, tem produtores que começaram com um produto e já estão cultivando três. Vou lutando do jeito que eu posso. Minha família tem outra fazenda no interior da Bahia e estou fomentando para que ela também produza o orgânico. A gente montou um curso (junto da Rehagro – Recursos Humanos no Agronegócio) em gestão de orgânicos exatamente para passar a prática. Eu só como alimentos 100% orgânicos. Quando o assunto é carne, prefiro frango caipira ou um peixe mais selvagem, mas o nível de contaminação das águas com metais pesados é grande então tem esse problema”.

“Não pode a Kátia Abreu como Ministra da Agricultura”

“Não existe uma cultura orgânica do governo porque não interessa para eles, não é um grande business. O poder público era quem deveria estar fomentando isso. Por incrível que pareça, é mais barato comprar um produto orgânico de São Paulo, do que um do Rio de Janeiro. O que não pode é a Kátia Abreu como Ministra da Agricultura. Não interessa um lobo para cuidar das ovelhas. Ela não tem interesse nisso, ela não produz alimentos, ela produz commodities agrícolas. A gente tem que sair desse discurso de que ‘ah, mas o orgânico não acaba com a fome do mundo’. Calma. O problema é a falta de comida ou falta de distribuição correta dela? Eu entrei nesse negócio de uma maneira abrupta. Estou aprendendo muito enquanto gestão e amadurecendo junto. Mas não é fácil manter. A gente paga um imposto louco que a Rosinha Garotinho criou para o Fundo de Combate à Pobreza”.

“Meu personagem tem sangue nos olhos”

Depois de “Babilônia” (em que viveu o político corrupto e conservador Aderbal), fui para a Bahia cuidar da vida (foi nesse meio tempo, aliás, que Palmeira se casou em cerimônia intimista com Gabriela Gastal) e recebi esse convite irrecusável para entrar em “Velho Chico”. Mas não gravei ainda. Eu entro na trama depois de uma passagem de tempo de 30 anos. Meu personagem (Cícero) é surumbático (tristonho), trabalha muito no silêncio. Mas ele tem sangue nos olhos e estou bem animado com isso. Ele é capaz de fazer qualquer coisa por amor. Como é um homem bruto, ele não consegue lidar com sentimentos fortes. (Na trama, Cícero dividirá o amor da personagem de Camila Pitanga com Domingos Montagner. Um assassinato está previsto no roteiro).

“País investe zero em cultura”

“A melhor cara do Brasil está no interior, que é onde temos a nossa cultura. A novela, passando no Nordeste, traz uma coisa mais lúdica, de uma briga por amor. Não é a vingança pela vingança. Tem uma veia poética. A gente está no maior astral. Vai ser um trabalho honesto. É um momento tão cruel no país que a gente precisa dar um jeito de abstrair. Arte é entretenimento antes de tudo. Tem que ser bom e divertir. Ok que esse bom entra em várias questões. Mas, vivendo num país que investe zero em cultura, eu acredito nisso”.

“Eu sou de uma geração machista”

“São 13 episódios de “E aí, comeu?” para o Multishow. A adaptação do Guilherme Siman, Guga Gessule, Pedro Henrique Neschling e do Bruno Mazzeo deu outra dimensão do filme. Foi uma leitura muito feliz. A gente analisa os relacionamentos dos três protagonistas com o olhar do homem, mas com visão feminina. Tem um discurso machista, também. Eu sou de uma geração machista. Meu pai (Zelito Viana, cineasta), apesar de ser um cara liberal, também. Mas a gente vive lutando para quebrar esses elos. A vida está ficando tão chata com essa patrulha exacerbada. É muita informação. É tudo muito conectado e as pessoas estão sempre querendo acontecer de alguma forma”.

“Houve, sim, uma conversa para eu me candidatar para prefeito, senador e até governador do Rio”

“Eu e Marina Silva pensamos a Rede quase que juntos. Ela um dia, então, me ligou e disse: ‘Você é um dos fundadores’. Houve, sim, uma conversa para eu me candidatar prefeito, senador e até governador do Rio. Mas eu sou artista e minha alma é livre. Apesar de a Marina Silva ser a pessoa que, junto do Fernando Henrique Cardoso, melhor enxerga o Brasil, eu declinei. Na medida do possível eu vou fazer campanha, mas eu tenho que respeitar meu contrato (com a Rede Globo). Não posso veicular muito a minha imagem. Mas eu vou começar a sondar. Eu sou bastante crítico, né? Fico pensando: ‘Será que vou conseguir fazer alguma coisa, se eleito?’. Acho que conquisto mais com meu trabalho, que é a arte. Mas quem sabe? Já fui sondado. Eu sempre me coloquei a favor de alguém mesmo….”

“O Pedro Paulo bateu na mulher”

“A gente perdeu a noção das coisas. O Pedro Paulo bateu na mulher. A gente não pode aceitar isso. E foi ela quem disse. Não eu. A gente não pode aceitar isso. E Lei Maria da Penha? Ah, então porque ele é amigo do Eduardo Paes (prefeito do Rio de Janeiro), pode ficar livre? Eu acho esse caso muito complexo.

Serviço

Vale das Palmeiras

Endereço: Rua Ataulfo de Paiva, 1100 – Loja C – Leblon – Rio de Janeiro

Horário: das 18h às 22h

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