*Por Brunna Condini
Com mais de 40 anos de carreira, dezenas de prêmios e uma filmografia que narra o Brasil profundo com corpo e alma, Dira Paes segue em plena ebulição criativa. No ar simultaneamente com ‘Pablo e Luisão’, série cômica e afetiva criada por Paulo Vieira, disponível no catálogo Globoplay; e em cartaz com o filme ‘Manas’, drama social que denuncia abusos sofridos por meninas silenciadas, a atriz transita com maestria entre a leveza e o drama nu e cru. Prestes a viver a protagonista de ‘Três Graças’, próxima novela das nove da Globo, e ainda colhendo os frutos por sua estreia como diretora no longa ‘Pasárgada’ (2025), ela reflete sobre escolhas, preconceitos culturais, personagens que transformam, e a beleza de se manter fiel à própria essência: “Me sinto muito feliz e privilegiada de ter ouvido a minha intuição e ter dito ‘não’ para muita coisa e ter dito ‘sim’ porque eu sonhava”.
Nascida há 56 anos em Abaetetuba, no Pará, Dira tem orgulho de carregar as raízes da região Norte, e afirma que ainda hoje percebe o peso do preconceito com quem vem de fora do eixo Rio-São Paulo:
A xenofobia existe. Eu sempre vim com a vontade de quebrar com toda e qualquer discriminação. Me amo, sei o quanto a gente precisa se valorizar para ser valorizado, e, ao mesmo tempo, com o nosso próprio trabalho, conseguir calar a voz do preconceito e a invisibilidade que ele provoca nas pessoas e na sociedade – Dira Paes

Dira Paes: entre comédia, drama, direção e protagonismo na próxima novela das 21h (Foto: Renan Oliveira)
O Brasil que Dira vem contando com seu corpo e sua voz é um Brasil muitas vezes invisível, composto por histórias reais, tantas vezes negligenciadas pelas narrativas centrais. São mães, trabalhadoras, mulheres que resistem, cuidam, criam e renascem todos os dias. “Sempre tem uma história interessante de uma brasileira para contar”, diz. “E quando pensam em mim, fico feliz porque gosto do Brasil, amo o meu país”.
Você sente que esse país real está finalmente sendo ouvido? “Me sinto orgulhosa de ter uma representatividade muito grande da nossa brasilidade. E é um Brasil muito diverso, muito gigante, então gosto de contar a história das brasileiras que cruzam no meu caminho. Me sinto honrada quando sou lembrada através dos meus personagens nos filmes e nos meus trabalhos como um todo, porque isso atesta que as pessoas se sentem tocadas pelo que faço e esse é o nosso combustível”.

Dira Paes como Conceição em ‘Pablo e Luisão’, e Conceição, mãe de Paulo Vieira (Foto: Divulgação/Reprodução/Globo)
Essa consciência também atravessa seus projetos mais recentes. Em ‘Pablo e Luisão,’ a atriz dá vida a Conceição, mãe do personagem de Paulo Vieira, em uma comédia que, embora leve, é profundamente política. “Fazer a mãe é sempre o clássico. Agora, fazer uma mãe brasileira é mais clássico ainda, sabendo que o alicerce do Brasil é matriarcal. E a Conceição é aquela mãe possível, real, mas sobretudo, a mãe corajosa, guerreira, franca, que expõe suas fraquezas e as suas fortalezas também. Então, acho que esse DNA é o da maioria das mães brasileiras, e, para mim, é uma honra representá-la”.

Ailton Graça, Dira Paes e Otávio Muller em ‘Pablo e Luisão’ (Foto: Divulgação/Globo)
Ao falar sobre ‘Pablo e Luisão’, Dira se emociona com a potência coletiva do projeto, e com a presença fundamental de Paulo Vieira. “O Paulo é o mentor de toda essa ideia. Ele esteve presente em cada etapa da artesania. Era uma testemunha ocular de tudo aquilo que estávamos construindo. Quando ele não estava no set, o irmão dele, o Neto, estava e, muitas vezes, os dois juntos. Eles contavam pra gente como eram as relações, como era a casa, como viviam. A gente bebia direto da fonte. E isso foi precioso”, conta.
Mais do que ator e criador, Paulo assumiu o papel de showrunner da produção: “A equipe foi escolhida por ele, sonhada por ele. E foi esse cuidado, esse olhar amoroso e certeiro, que fez a série tão querida pelo público brasileiro”.
Manas
Na outra ponta, em ‘Manas’, ela interpreta Aretha, uma policial inspirada em pessoas reais, como o delegado Rodrigo Amorim, conhecido por combater a exploração sexual infantil nas balsas da região, e em Marie Henriqueta Ferreira Cavalcante, uma referência no enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes na região Amazônica. O filme tem percorrido festivais e tocado plateias. “Ninguém sai incólume de ‘Manas’. Ele provoca, faz pensar. Toda vez que assisto, algo se movimenta em mim. E é muito bom, como cidadã e atriz, saber que um longa pode ser esse agente de transformação. É um filme, que além de uma cinematografia belíssima, tem um cunho social humano. Esse é um traço que faz com que o espectador não fique passivo, tome consciência e opinião sobre o que está assistindo”, reflete.
É muito satisfatório para uma cidadã que é atriz e uma atriz que é cidadã, fazer um filme como ‘Manas’. Ele leva uma mensagem potente por onde passa e provoca grandes discussões. A Aretha foi uma das personagens mais marcantes da minha trajetória. Ninguém sai incólume de ‘Manas’, sempre sai transformado.” – Dira Paes

Dira Paes e Jamilli Correa em ‘Manas’ (Divulgação)
Criadora e protagonista
Dira estreou este ano na direção com ‘Pasárgada’, longa idealizado ao lado do diretor de fotografia Pablo Baião e gestado em plena pandemia. “Foi um projeto que nasceu de um sentimento pandêmico, essa vontade de encontrar um refúgio, de ir embora para Pasárgada, como no poema do Manuel Bandeira. Todo mundo queria um paraíso para chamar de seu. E o filme faz esse paralelo entre a solidão da Irene, minha personagem, e o desejo de liberdade, representado pelas asas de um pássaro, pela natureza”, conta.
Mais do que interpretar a protagonista, Dira se envolveu em todas as etapas do projeto: roteirizou, produziu, dirigiu e também assumiu a divulgação do longa, que está disponível no catálogo Globoplay. “Queria ter como atriz essa experiência do fazer cinematográfico desde a ideia original. E ‘Pasárgada’ me deu isso. Foi a chance de viver o cinema em sua totalidade”.

Dira Paes dirige e protagoniza ‘Pasárgada’ (Divulgação)
Enquanto ainda celebra esse voo solo atrás das câmeras, ela se prepara para protagonizar a próxima novela das nove da Globo, ‘Três Graças’, escrita por Aguinaldo Silva. Na trama, a atriz será Lígia, uma das três gerações de mulheres que enfrentam a maternidade precoce e solitária. “Acho que é um mote bonito e muito real. A novela traz essa coragem feminina de dar conta de tudo sozinha, como tantas brasileiras fazem. Começo a gravar agora em julho”.
Com mais de 43 filmes, dezenas de produções na TV e mais de 40 anos de trajetória, a atriz recusa a ideia de sucesso como ponto de chegada. Para ela, é o tempo que valida: “Essas marcas são o legado do tempo. Tenho como provar o tempo cinematograficamente falando. Através dos meus filmes, tenho o registro de mim mesma desde os 15 anos. Essa é a minha história”, pontua.
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