*Por Brunna Condini
Em tempos de BBB26, em que participantes (sobretudo os anônimos do grupo Pipoca) entram na casa movidos pelo desejo de projeção e de transformar suas vidas, uma trajetória segue como referência incontornável de longevidade: a de Grazi Massafera. Há 21 anos, quando deixou o BBB5 como vice-campeã, a jovem de Jacarezinho, no Paraná, carregava o rótulo que por muito tempo funcionou como um carimbo difícil de apagar: o de ‘ex-BBB’. De lá para cá, construiu, com disciplina e escolhas estratégicas, uma carreira sólida que hoje a coloca entre as atrizes mais respeitadas de sua geração, mas sem a pressão de querer tanto o reconhecimento alheio, sinal da maturidade adquirida. “Quando via que estava indo por esse caminho, redirecionava para dentro. Me perguntava: isso faz sentido para mim? Estou querendo agradar a quem? Sempre tento voltar para mim. O que quero com isso? Isso me traz mais consciência de escolha, de direcionamento, de felicidade. Não me arrependo das coisas que fiz e sei que isso é uma dádiva. Estou inteira até quando erro”, declarou recentemente.
O momento atual sintetiza essa virada de chave. Grazi vive simultaneamente dois papéis que evidenciam sua versatilidade: a vilã Arminda, na trama das nove da Globo, ‘Três Graças’, e a figura transgressora, sensual e politicamente provocadora de ‘Dona Beja’, novela da HBO Max que revisita o mito feminino sob uma lente contemporânea. Em registros distintos, ela demonstra uma entrega que transita entre o popular e o sofisticado, sem medo de arriscar nem de tensionar a própria imagem. Se hoje colhe reconhecimento, o caminho foi atravessado por desconfiança e preconceito, algo que a própria atriz frequentemente relembra ao falar sobre a necessidade de provar, repetidas vezes, que havia mais ali do que a fama instantânea do reality.
A história de Grazi levanta questões que ecoam especialmente nos anseios de quem passa pelo BBB hoje: o que explica sua permanência e evolução em um meio tão competitivo, e tantas vezes hostil com ‘forasteiros’? Teria sido talento, resiliência, inteligência emocional ou a capacidade rara de se reinventar sem perder a essência? Mais do que um caso de sucesso, sua trajetória ajuda a entender como a fama pode ser ponto de partida, mas nunca garantia, e por que, entre tantos rostos que passam pelo BBB, poucos conseguem transformar visibilidade em carreira consistente. O que explicaria o êxito de Grazi Massafera em um mercado cada vez mais ‘impermeável’ para muitos atores nos últimos anos?

De ex-BBB a personagens complexas, entre a vilã de ‘Três Graças’ e a força de Dona Beja: Grazi Massafera consolida uma trajetória de persistência e reinvenção (Foto: Luiza Ferraz)
Do estigma à assinatura própria
Nos primeiros anos após deixar o reality, Grazi enfrentou o que talvez seja o maior desafio para quem sai do BBB: ser levada a sério. Em um mercado que historicamente separa ‘celebridades’ de ‘atores’, ela precisou construir credibilidade passo a passo, muitas vezes sob o olhar desconfiado de colegas, crítica e público. A própria atriz já reconheceu o peso desse olhar ao revisitar sua trajetória. “Sou subjugada”, disse em entrevista, ao falar sobre as críticas que ainda atravessam sua imagem pública, evidenciando como o estigma inicial não desaparece completamente, mesmo após anos de carreira.
Se hoje ela vive uma fase de reconhecimento e liberdade criativa, seu início foi marcado por episódios de discriminação explícita nos bastidores. Ao revisitar esse período, Grazi expôs a dureza do ambiente que encontrou ao tentar se firmar após o reality. “Foi difícil. O elenco de uma produção se reuniu um dia e tirou sarro de mim, pedindo para eu procurar ‘galharufas’. Não sabia, mas era um trote. No teatro, ‘galharufa’ é um objeto simbólico dado como amuleto a iniciantes. Fiquei mal”, recordou. “Era uma estranha no ninho, e eles passavam do ponto. Só pensava: o espaço existe, vou me dedicar. E como tudo na vida, se eu for limpar um chão, me dedico, não seria diferente. Não pensava em ser aceita, mas em realizar”.

Murilo Benício e Grazi Massafera brilham como dupla de vilões em ‘Três Graças’ (Foto: Divulgação/ Globo)
Ela também já contou episódios de rejeição direta no set. “Otávio Augusto em ‘Tempos Modernos’ (2010), não quis contracenar comigo. Fez a cena olhando para a parede e foi embora. Fiz sem ele. Isso aconteceu outras vezes”. Segundo a atriz, o tempo tratou de ressignificar a experiência. “Trabalhamos novamente em ‘A Lei do Amor’ (2016). Ele pegou minha mão e disse: ‘É uma honra trabalhar com você. Desculpa o que aconteceu’”, contou. Grazi já relatou outras situações ofensivas ao longo do seu percurso, frisando que a grande virada da carreira, veio mesmo em 2015 , com ‘Verdades Secretas’, com um papel que mudou sua relação com a profissão. “Pela primeira vez era respeitada quando entrava em cena. Com a Larissa, vi que o sentimento que empresto a um personagem pode servir de reflexão. Me apaixonei pela profissão. Comecei a trabalhar por amor, não por dinheiro ou vaidade”.
Ela reforçou ainda, que percepções externas não definem mais suas escolhas, mas ainda revelam muito sobre como a indústria enxerga quem veio de fora dos caminhos tradicionais. Por isso, nestes anos todos, mesmo consciente de alguns privilégios, investiu em formação:
Sou uma mulher branca de olhos claros e por isso saí na frente, mas se tem uma mensagem que quero deixar é que nada é impossível quando você tem foco, disciplina, desejo e vontade. Na minha vida tem muita sorte, mas muito suor – Grazi Massafera

“Não pensava em ser aceita, mas em realizar” (Foto: Luiza Ferraz)
A inteligência das escolhas
Se há um elemento que atravessa a trajetória de Grazi, é a capacidade de escolher projetos que dialogam com o momento da carreira, e com o imaginário do público. Em ‘Três Graças’, a vilã Arminda surge como uma personagem ambígua, que tensiona moralidades, algo que costuma render grandes viradas dramáticas e exigir controle fino de interpretação. Já em ‘Dona Beja’, o desafio é revisitar uma figura histórica marcada pela liberdade feminina e pela sensualidade, mas sob um olhar contemporâneo, que discute poder, desejo e autonomia. “Os mais conservadores vão falar coisas absurdas, vão dizer que é lacração, vão virar um ‘siri na lata’, e isso é bom também, dane-se! A gente quer isso. Então, vai ter de tudo, mas o que eu tenho certeza absoluta é que a gente enfia o dedo na ferida da sociedade”, afirmou. Ao transitar entre esses registros, Grazi reafirma uma característica que se consolidou ao longo dos anos: a disposição para sair da zona de conforto e evitar a repetição de tipos.
Acho que é a primeira vez que estou realmente encarnada em um papel com toda a minha força. Beja me emociona demais e posso dizer que até agora é a personagem que eu mais amei fazer – Grazi Massafera

Pedro Fasanaro, na pele de Severina, e Grazi Massafera em cena de ‘Dona Beja’ (Foto: Divulgação/HBO Max)
E comenta as diferenças entre as personagens do momento: “Dona Cobra (a Arminda de ‘Três Graças’) é o oposto da Beja, porque ela queria ser a Beja. Acho muito interessante ter essas duas personagens hoje no ar. Não foi premeditado, aconteceu”. Grazi também falou do seu fascínio por Beja: “Ela faz parte de tudo que imagino em uma mulher e do tipo de mulher que eu quero e que venho me transformando”.
Em tempo: mesmo para quem tem a performance inesquecível de Maitê Proença na versão original da Manchete (1983-1999), vale muito assistir a produção da HBO Max, gravada em 2024, que após muitas polêmicas nos bastidores teve sua estreia adiada algumas vezes. A nova versão é uma releitura ambiciosa e visualmente sofisticada, e tem feito sucesso, apesar de críticas ao ritmo e à montagem. A novela tem ousadia narrativa. Isso tudo partindo de uma interpretação visceral de Grazi Massafera, que é, de forma absoluta, um dos grandes trunfos da trama. Impossível tirar os olhos da atriz e não ficar esperando por suas aparições em cena.
Mais do que inspiração, um parâmetro
Duas décadas depois de aparecer na TV, Grazi não é apenas uma ex-BBB que ‘deu certo’. É um parâmetro de longevidade em um ambiente conhecido pela volatilidade. Sua trajetória evidencia que talento pode abrir portas, mas é a capacidade de sustentar escolhas coerentes e evoluir artisticamente que mantém essas portas abertas. Em um mercado onde a fama é cada vez mais rápida e descartável, ela prova que consistência ainda é um diferencial poderoso. E talvez seja justamente por isso que, enquanto novas gerações entram no reality em busca de um lugar ao sol, Grazi segue ali, não mais procurando espaço, mas ocupando-o com segurança, repertório e maturidade. Bravissimamente.

“Na minha vida tem muita sorte, mas tem também muito suor” (Foto: Luiza Ferraz)
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