Daniel Pereira dirige curta onde revisita câncer e falecimento da mãe e revela haver “desmaiado de chorar” em filme


O ator transforma a perda da mãe no curta “Refúgio”, um tributo de afeto e espiritualidade. Aborda a vulnerabilidade masculina, o cuidado e a importância de quebrar tabus sobre o homem que sente e acolhe. O filme revela sua vivência como cuidador durante a doença da mãe e reflete sobre laços, adoção e esperança. Entre dor e criação, Daniel transforma memória em arte e amor em permanência. “Refúgio” é, sobretudo, um manifesto sobre o poder de cuidar e continuar amando além da vida”, diz

*por Vítor Antunes

Um dos livros de Camilo Castelo Branco (1825-1890) chama “Amor de Perdição“. Não seria leviano dizer que esse amor desmedido foi o que motivou Daniel Pereira a escrever, produzir e co-dirigir  “Refúgio”, curta no qual homenageia e reverencia sua mãe, Dona Vivinha, que morreu vítima de um câncer. “No filme, fiz uma abordagem um pouco diferente, ainda mantendo essa conexão com ela, obviamente. Mas procurei explorar como fica o cuidador após a morte. Foi um processo muito difícil. Teve uma cena em que, ao terminar de gravar, desmaiei. Tive uma crise de choro que não imaginei que fosse ter, e ninguém cortou a cena — fiquei quase três minutos chorando intensamente”, desabafa.

O artista relembra ainda que “quando perceberam que eu realmente estava tomado por uma emoção muito forte, a diretora Denise Sganzela, que dirigia a mim em cena, mandou cortar, e aí eu desmaiei. Precisei ser socorrido, a pressão baixou. Sempre que a gente recria uma emoção, a cena fica mais aflorada, mas também mais verdadeira. Conseguimos contar essa história de uma forma muito forte, poética, e acredito que vai resultar em um trabalho muito bonito”. O filme, estrelado por Daniel, é dirigido por ele e por Denise Sganzela, além de contar com Larissa Maciel e Rodrigo Fagundes no elenco”.

O filme também revela o quanto os homens ainda precisam aprender no que diz respeito a sentimentos e afetos. Muitos têm grande resistência em falar sobre o tema, ou diante das suas mulheres vulnerabilizadas, as abandona. “Eu vejo que muitos ainda evitam falar sobre isso, há uma resistência grande. Na época em que minha mãe passou pelo câncer, muitos homens, filhos e amigos abandonaram suas companheiras e amigas, ou as deixavam sozinhas durante as seis horas de quimioterapia, sem sequer levar um lanche. Eu ficava com a minha mãe seis, oito horas, às vezes a noite inteira. Só saía quando íamos para casa. Enquanto ela fazia o tratamento, eu comprava lanche para ela e também para outras mulheres que estavam lá”.

Vejo que é um reflexo cultural: o homem não pode chorar, não pode sentir dor, não pode mostrar vulnerabilidade — tem que estar sempre firme. E, ao mesmo tempo, o homem não pode cuidar. É algo muito distorcido, porque eles são cuidados, mas não cuidam. Meu pai traiu minha mãe quando ela adoeceu. Eles eram casados há 35 anos, e ele não teve coragem de ficar com ela. Expulsei-o de casa porque ele a fazia sofrer ainda mais.  – Daniel Pereira

O ator prossegue: “Eu acharia lindo ver campanhas do Outubro Rosa feitas também por homens — filhos com suas mães que passaram pelo câncer, maridos com suas esposas. A gente não vê isso. Só vemos as mulheres raspando o cabelo, as mulheres falando. Por que não incluir também a imagem masculina junto à vulnerabilidade? Mostrar o cuidador é importante. Assim, a gente muda nossa cultura, nossa sociedade. Acho que isso seria muito bonito de se mostrar.”

Daniel Pereira e sua mãe, Dona Vivinha. Batalha contra o câncer e adoção norteiam monólogo no Rio (Foto: Reprodução/Instagram)

REFÚGIOS

Daniel revisita como produziu “Refúgio”. “Eu escrevi o roteiro e apresentei ao Alessandro Marson, ex-autor da Globo, cujo último trabalho foi Elas por Elas. Ele fez a supervisão do roteiro. Montei todo o elenco, fiz a produção e o filme já está em edição. Acredito que, no próximo mês, concluiremos essa etapa. Depois virão os processos de colorização, som e finalização. Pretendo lançá-lo no primeiro semestre do ano que vem, junto com os festivais. Tenho esperança de que o curta-metragem alcance boa visibilidade e um retorno positivo com a história, para que possamos projetar o longa, conseguir patrocínios e aprovar nos editais, já que para um longa é necessário um orçamento considerável.”

Para 2026, o ator pretende investir novamente em seu monólogo. “Eu pretendo voltar com a minha peça, meu monólogo, porque muita gente pergunta”. Além disso, ele estima que o seu primeiro longa como antagonista, seja lançado. “É o filme “A Primeira Música”, que vai estrear no ano que vem e foi gravado em Jaraguá do Sul (SC). interpreto meu primeiro antagonista no cinema, ao lado de Denise Weinberg. Fiz um agroboy, foi um processo muito interessante, muito bacana.”

Daniel Pereira em “Refúgio” (Foto: Divulgação)

Ao revisar a sua própria trajetória para fazer “Refúgio”, Daniel fala sobre a importância da terapia. Em especial, há uma terapeuta transformada em personagem e vivida por Larissa Maciel. “O processo com a terapia ajuda, mas mesmo com esse entendimento, quando revivemos certas emoções, há coisas que vão além do nosso controle. Parece ser mais forte do que nós. Além de todo o processo que vivi, percebo que o filme oferece um grande acalanto às pessoas que assistem e se conectam com a história”.

O ator também reafirma que não apenas o fato de a própria mãe ser o tema do filme, mas o de ele próprio ter sido adotado e os possíveis reveses disso: “Eu nunca sofri preconceito por ser adotado. Sempre falei com muito orgulho que sou filho adotivo. Minha mãe dizia: ‘Para de falar que é filho adotivo. É meu filho, não muda nada’. E eu respondia: ‘Mas tenho tanto orgulho disso. Acho tão bonito e combina tanto com a nossa história, porque somos almas gêmeas. Temos uma conexão muito forte de mãe e filho’. Sempre falei com muito carinho sobre o fato de ela ter sentido no coração que precisava me adotar. Ela me salvou quando eu era criança, e mais tarde fui eu quem cuidou dela em todos os momentos. Tivemos uma troca muito bonita. Nunca tive qualquer problema ou preconceito por isso”.

Quero muito adotar também — é um dos meus principais objetivos de vida, quando eu tiver uma boa condição financeira para entrar nesse processo. Quanto ao meu filho, ainda não sei se quero adotar um bebê ou uma criança mais velha. O amor que tive com ela é o mesmo amor que quero transmitir ao meu filho. Quero que ele também mantenha essa corrente de afeto. Meu sonho é adotar com o meu companheiro. Já conversamos sobre isso, ele também tem esse desejo. Ele tem sido um apoio essencial. Moro sozinho no Rio, sem meus pais, e às vezes me sinto um pouco órfão. Ter esse apoio é muito importante – Daniel Pereira

Daniel Pereira e o companheiro Guga Dale (Foto: Reprodução/Instagram)

Fazendo um filme que trata sobre temas sensíveis e emocionais, Daniel diz sobre a grande mensagem que o projeto traz: “Eu acho que a esperança que o filme traz é muito grande. Ele me fez acreditar que a vida existe após a morte e que os detalhes das pessoas que amamos permanecem presentes. Tenho certeza de que minha mãe ainda está viva de alguma forma. A esperança que o filme transmite é a de que, além da vida carnal, existe uma vida espiritual muito forte, que permite conexões com aqueles que amamos. Fazer esse processo no teatro e no cinema mostra o quanto minha mãe continua viva em mim. Acho que o filme traz essa mensagem: a vida não se resume ao que vivemos aqui. Ela segue com outros caminhos, outras formas, e seguimos conectados com quem amamos. Cada um acredita à sua maneira, mas o poder de ressignificar que o filme traz é muito forte”.

“Refúgio” é mais que um curta — é um gesto de amor que atravessa a morte, um sopro de vida que Daniel Pereira transforma em arte. Ao reelaborar a dor em criação, ele devolve à mãe, Dona Vivinha, não apenas a presença, mas a permanência. Seu filme nasce da perda, mas floresce como testemunho de afeto, coragem e ternura masculina — uma delicadeza rara num tempo em que sentir ainda é ato de resistência. Entre memórias e reencontros, Daniel constrói uma ponte entre o visível e o invisível, entre o que partiu e o que permanece. E, no fim, “Refúgio” não é só sobre a ausência — é sobre o milagre de continuar amando, mesmo quando o amor parece não caber mais neste mundo.