*Por Brunna Condini
Ao interpretar Walmor Chagas (1930-2013) no longa ‘Cacilda Becker Em Cena Aberta’, Daniel Haidar mergulha não apenas na trajetória de um dos maiores atores do teatro brasileiro, mas na complexa intimidade de uma parceria artística e amorosa que marcou época. O longa, que acompanha a relação entre Walmor e Cacilda Becker (1921–1969), coloca Haidar diante de um desafio que vai além da composição: compreender um homem cuja vida e obra se entrelaçaram profundamente, e cujo fim solitário (Walmor Chagas foi encontrado morto com uma arma na mão em sua pousada no interior de São Paulo), ainda ecoa como reflexão sobre o destino de quem faz arte no país.
“Poder viver essa história sabendo o seu desfecho, coloca tudo em outra dimensão. É impossível não relacionar o seu fim trágico com a realidade de muitos dos nossos artistas. E ele ainda teve grande reconhecimento e amparo financeiro em algum momento da sua vida, algo que, infelizmente, não acontece com muitos de nossos colegas, sobretudo atores e atrizes de teatro”, reflete Daniel.
O ator de 26 anos, que veio de São Luís do Maranhão para o Rio de Janeiro com apenas 15, buscando construir uma carreira, divide como foi interpretar Walmor na telona. “Uma revolução interna muito forte”, resume ao falar sobre o processo de preparação. Para viver o ator, autor, diretor e produtor teatral brasileiro, Haidar recorreu não apenas a entrevistas e registros históricos, mas principalmente às memórias de quem viu Walmor Chagas em cena.
“Os relatos de colegas foram fundamentais para entender a real dimensão de quem ele foi”. Ao comentar o que mais o tocou na relação entre Walmor e Cacilda, marcada pela sobreposição entre vida pessoal e artística, Daniel destaca a parceria como eixo central. “Qualquer pessoa que se relacionou de maneira duradoura com alguém tem propriedade para falar sobre abdicações, erros e perdão. A forma como eles foram encontrando maneiras de estar perto um do outro ao longo dos anos, mesmo após o divórcio, é muito bonita”. E aproveita para compartilhar uma descoberta sobre a personalidade do veterano ator:

Daniel Haidar vive Walmor Chagas no cinema e mergulha na parceria artística e amorosa do personagem com Cacilda Becker no longa que estreia este ano (Foto: Carlo Locatelli)
Colegas que trabalharam com Walmor mencionaram que seu temperamento era, por vezes, de muito mau humor. Mas todos ressaltam seu profissionalismo e respeito pelo ofício, contando essas histórias já com um saudoso sorriso no rosto – Daniel Haidar
‘Cacilda Becker em Cena Aberta’ propõe um olhar sensível sobre a trajetória da icônica atriz brasileira. No filme, a protagonista (Cacilda na pele de Debora Falabella) se funde às personagens que marcaram sua carreira, revelando camadas artísticas e emocionais por trás de sua vida e obra. O projeto foi todo rodado no histórico Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, com direção de Julia Moraes, e a história de Walmor e Cacilda é narrada a partir de um território em que vida pessoal e artística se confundem.
Casados, sócios, parceiros de cena e, por vezes, diretor e atriz, os atores sustentaram uma relação atravessada por amor, conflitos e uma busca pela excelência: “Cacilda e Walmor foram, sem dúvida, amores da vida um do outro. Eram dois artistas incansáveis e em constante inquietação. Somando-se aos conflitos pessoais, havia a busca incessante pela altíssima qualidade do teatro que faziam; isso tornava a relação algo muito simbiótico. Vivenciavam muita coisa simultaneamente”.

Daniel Haidar encarna Walmor Chagas em ‘Cacilda Becker Em Cena Aberta’ (Foto: Reprodução/Instagram)

Debora Falabella e Daniel Haidar em ‘Cacilda Becker Em Cena Aberta’ (Foto: Reprodução/Instagram)
Shakespeare: atual sempre
O mergulho de Haidar na memória de um gigante da cena nacional acontece em um momento particularmente fértil de sua carreira. Enquanto se prepara para levar Walmor às telas, o ator, que tem carreira no teatro musical já tendo vivido Elvis Presley e Rocky Balboa no palco, também integra a nova montagem de ‘Hamlet’, que marca a reabertura do CineCopan, em São Paulo. Sob a direção de Rafael Gomes, a peça traz Gabriel Leone no papel título. Daniel interpreta Guildenstern, que, ao lado de Rosencrantz (Rael Barja), compõe o núcleo de amigos de juventude do protagonista. “Fazer parte desta montagem que já nasce histórica é uma realização muito especial. Não só pelo espetáculo, um clássico atemporal, um acontecimento em si onde quer que seja montada, mas por participar da devolução de um espaço histórico e cultural nobre como esse para a cidade de São Paulo”, diz.
Shakespeare é atual sempre porque encara o humano de frente. Nossas falhas, paixões e contradições. O ser humano de hoje precisa disso. Estamos tentando anestesiar partes da vida onde Shakespeare justamente coloca suas palavras insubstituíveis. Com guerras acontecendo pelo mundo, o ápice da desumanidade, é poderoso ver que ainda estamos buscando nos relacionar com o que é profundo – Daniel Haidar

“Com guerras acontecendo pelo mundo, o ápice da desumanidade, é poderoso ver que ainda estamos buscando nos relacionar com o que é profundo” (Foto: Carlo Locatelli)
Ele quer mais cinema
Ao comentar o momento do cinema brasileiro no circuito internacional, especialmente diante das inéditas indicações de ‘O Agente Secreto’ ao Oscar 2026 (o longa já fez história ao receber quatro indicações, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco); Haidar demonstra confiança. A cerimônia acontece no próximo dia 15, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
“As chances do filme levar estatuetas são muito reais. Embora eu ache que não exista competição entre obras de arte, acredito que ‘O Agente Secreto’ é um filme poderoso e ousado, e o mundo está vendo isso. Se ‘Ainda Estou Aqui’ foi nossa volta aos prêmios internacionais, o filme do Kleber Mendonça Filho vem assegurar que produzimos cinema de altíssima relevância”, afirma. O reconhecimento também amplia seu próprio desejo de permanecer nas telas: “A minha vontade de fazer mais cinema é gigantesca. Além do filme da Cacilda, gravei no Maranhão, meu estado natal, o longa ‘Dois Graus Ao Sul do Equador’, que também sairá em breve. O cinema brasileiro está olhando com mais segurança para si”.

“Shakespeare é atual sempre porque encara o humano de frente. Nossas falhas, paixões e contradições. O ser humano de hoje precisa disso” (Foto: Carlo Locatelli)
Vivendo o teatro intensamente, com mais de 20 espetáculos no currículo, e de olho no cinema, o ator projeta os próximos passos. “Também tenho muita vontade de fazer mais televisão. O diálogo que as novelas têm com o público é poderosíssimo. Adoraria fazer uma trama familiar densa, mas também me divertiria em um universo mais lúdico e poético”, afirma o ator, que esteve na novela ‘Garota do Momento’ (2024), na Globo.
E expõe que seus planos seguem ancorados em narrativas que provoquem impacto: “Meus sonhos profissionais estão atrelados a histórias que mexam com as pessoas. No momento, organizo meus projetos: tenho o plano de uma tragédia grega com o Ulysses Cruz, estou escrevendo um filme que quero dirigir e há outros projetos de musical vindo por aí. Tudo isso enquanto estou mergulhado em Hamlet. Busco sempre essas múltiplas possibilidades para que tudo saia no seu devido tempo”.

“Meus sonhos profissionais estão atrelados a histórias que mexam com as pessoas” (Foto: Carlo Locatelli)
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