“Cura gay” às 18h e “devolução” de filho adotivo às 21h? O calvário dos personagens LGBT’s nas novelas


As novelas brasileiras já exibiram beijos e casais LGBTQIA+, mas sem continuidade consistente. Hoje, “Vale Tudo” e “Êta Mundo Melhor”, o spin-off de “Êta Mundo Bom”, tratam do tema de forma tímida e incoerente. Enquanto em 2016 dois personagens masculinos da novela das 18h tiveram final feliz, na nova versão foram apagados. “Vale Tudo” em 1988 apontava para lacunas legais da época, fazia avançar o debate social. Já em 2025, com direitos estabelecidos e respaldo jurídico, a nova versão parece retroceder, evitando enfrentar de frente os dilemas contemporâneos das famílias homoafetivas. O passado, por vezes, soa mais moderno que o presente que insiste em se vender como vanguarda. Em ‘Vale Tudo’, o casal lésbico perdeu densidade: de herança em 1988 para uma disputa de guarda rasa em 2025
As próprias atrizes reclamaram do esvaziamento de suas personagens, relegadas a papéis secundários. Assim, o passado soa mais ousado que o presente, que prefere o gesto simbólico ao debate real

Laís (Lorena Lima) e Cecília (Maeve Jinkings), mães adotivas da pequena Sarita (Luara Telles), em 'Vale Tudo', foram inseridas numa narrativa morna

*por Rodrigo Otávio

Já há algum tempo, os casais LGBTQIA+ deixaram de ser raridade nas novelas brasileiras. A Globo, por exemplo, experimentou em todas as suas faixas um “beijo gay para chamar de seu” – até mesmo na hoje esquecida faixa das 23h, quando em “Liberdade, Liberdade” (2016) foi exibida a primeira e, até agora única, cena de sexo gay em uma novela de TV aberta. Apesar do ineditismo, esse marco não se transformou em desdobramentos consistentes: permanece como exceção, não como ponto de virada.

Hoje, duas das tramas no ar lidam – ou deveriam lidar – com personagens gays. O problema é que a abordagem ou se dilui até a invisibilidade, como no caso de “Êta Mundo Melhor“, ou se perde em incoerências, como em “Vale Tudo”. Neste último remake, um casal homoafetivo enfrenta o risco de perder a guarda de um filho adotado de forma legítima – situação artificial, que soa deslocada diante dos avanços legais e sociais do país. Ironia das ironias: as versões originais foram mais ousadas. “Êta Mundo Bom”, em 2016, permitiu a seus personagens masculinos um final feliz, ainda que discreto, numa trama de época; “Vale Tudo”, em 1988, ousava tensionar os costumes nacionais com muito mais contundência do que a repetição morna exibida agora.

O caso de “Êta Mundo Bom” é emblemático. Em 2016, Marcelo Argenta e Cleiton Moraes viveram personagens que, discretamente, terminaram juntos – um gesto significativo para a faixa das 18h. Agora, no spin-off da trama, a relação simplesmente deixou de existir: os dois mal se cruzam em cena. Em entrevista ao site Heloisa Tolipan, o próprio Marcelo Argenta afirmou torcer para que o casal volte a se relacionar, algo que até o capítulo 75 não aconteceu. No capítulo do dia 25, inclusive, Tobias (Cleiton Moraes) disse “Como seu amigo, Lauro (Marcelo Argenta), devo dizer…”. A impressão que se passa é que a novela resolveu aplicar, silenciosamente, uma espécie de “cura gay ficcional”, apagando o que antes fora um pequeno avanço. Os personagens praticamente desapareceram em suas intenções românticas, como se o passado ousado precisasse ser corrigido por um presente mais tímido, conservador, e paradoxalmente menos corajoso.

A Walcyr Carrasco coube o título de “primeiro autor a colocar no ar um beijo gay em novela da Globo”, em Amor à Vida (2013). Dali em diante, a promessa era de que os tabus começariam a ser quebrados de vez. Mas a promessa ficou pela metade. O próprio Carrasco flertou várias vezes com a temática em títulos como “O Outro Lado do Paraíso”, “A Dona do Pedaço”, “Terra e Paixão” e “Verdades Secretas” (em suas duas versões). Ainda assim, a representação raramente passou da cota simbólica, com casais estereotipados, narrativas secundárias e desfechos que, em geral, não ousam rivalizar com os pares heterossexuais protagonistas. Importante lembrar que antes mesmo de Carrasco, outras emissoras já tinham ensaiado representações homoafetivas: “Xica da Silva” (Manchete, 1996) e “Cortina de Vidro” (SBT, 1990) trouxeram personagens e tramas que, ainda que pontuais, já apontavam para a necessidade de se refletir a diversidade brasileira.

Lauro e Tobias terminaram a novela “Eta Mundo Bom”, juntos (Foto: Reprodução)

No caso de “Vale Tudo”, Manuela Dias conseguiu a proeza – nada admirável – de tornar irrelevante um casal que, na primeira versão da trama, em 1988, surgia mais atraente e dramaturgicamente fundamentado. Na obra original, Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska) administravam uma pousada em Búzios, e a morte de uma delas abria um precedente instigante: discutir a questão da herança para casais homoafetivos numa época em que a Lei simplesmente não os contemplava em direitos. Tratava-se de uma abordagem ousada para os anos 1980, quando sequer se cogitava falar em casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

É justamente aí que reside a ironia: quando “Vale Tudo” em 1988 apontava para lacunas legais da época, fazia avançar o debate social. Já em 2025, com direitos estabelecidos e respaldo jurídico, a nova versão parece retroceder, evitando enfrentar de frente os dilemas contemporâneos das famílias homoafetivas. O passado, por vezes, soa mais moderno que o presente que insiste em se vender como vanguarda.

Laís (Lorena Lima), Sarita (Luara Telles) e Cecília (Maeve Jinkings). A luta pela guarda de uma criança (foto: Divulgação/Globo)

Quase quatro décadas depois, em uma realidade jurídica onde casais homoafetivos têm reconhecidos seus direitos, a tentativa de atualização da trama deveria ser mais potente. Mas o que se viu foi o contrário: as novas Cecília (Maeve Jinkings) e Laís (Lorena Lima), agora mães adotivas da pequena Sarita (Luara Telles), foram inseridas numa narrativa morna, marcada por fragilidade dramática e por um curioso jogo de empurra.

Primeiro, Marco Aurélio (Alexandre Nero) surge para contestar a guarda da menina, numa ação carregada de cinismo, mas roteiristicamente frouxa. Em seguida, o pai biológico da criança, Luiz (Guto Galvão), reaparece na trama de forma quase inverossímil: indicado pela própria instituição de acolhimento (!) – que, na novela, foi chamada de “orfanato”, termo há muito em desuso – para reivindicar conhecer a filha, algo que a Lei de fato ampara. O problema é que a dramaturgia não deixa claro se sua entrada no enredo terá como objetivo disputar a guarda ou apenas cumprir um papel episódico.

Esse esvaziamento não passou despercebido nem pelo público, nem pelas atrizes envolvidas. Maeve Jinkings e Lorena Lima, intérpretes das protagonistas lésbicas, chegaram a expressar descontentamento com o andamento da novela, observando que suas personagens ficaram meses escanteadas, relegadas a papéis secundários em uma narrativa que deveria, justamente, atualizar e dar voz às lutas contemporâneas.

Em razão dos problemas na abordagem do tema, Lorena Lima e Maeve responderam no Instagram a uma crítica feita pelo coletivo Dupla Maternidade. “Que tenhamos mais chances de contar nossas histórias. É imenso meu respeito e admiração pelo coletivo e por todas as mulheres que o formam. Guardo com muito carinho os presentes que mandaram e deixo meu desejo forte de encontrar com vocês (logo)”, disse Letícia. Já Maeve, “Todo meu amor e respeito ao coletivo, e a todas as mães adotivas e casais de mulheres. Desde o início busquei compreender a alma dessas famílias”.

No fim, as novelas brasileiras seguem tropeçando na mesma contradição: exibem beijos e casais gays para marcar posição histórica, mas recuam quando se trata de lhes dar densidade narrativa e coerência social. Oscilam entre o espetáculo midiático do “primeiro beijo” e a manutenção de velhos silêncios. Enquanto isso, perdem a chance de acompanhar a realidade: no Brasil de hoje, a luta por visibilidade, afeto e direitos não é mais uma trama lateral, mas um capítulo central da vida cotidiana.