*por Vítor Antunes
Ele iniciou a carreira como modelo e se tornou ator antes de haver assistido a uma peça de teatro. Marcelo Argenta hoje celebra um novo momento em sua trajetória. Atualmente, participa de mais uma novela de Walcyr Carrasco – a terceira de sua carreira – e de um projeto raro na teledramaturgia brasileira: um spin-off. Na trama de “Êta Mundo Bom!” e agora em sua continuação, “Eta Mundo Melhor“, Marcelo interpreta Lauro, personagem que se encontra no centro de um debate delicado e contemporâneo. Na primeira versão da novela, Lauro revelou-se gay. Já na sequência atual, a sexualidade dele e de seu par romântico, Tobias (Cleiton Moraes), permanece em suspenso, envolta em uma zona cinzenta. O público ainda não sabe se os dois retomarão o relacionamento.
“É algo que eu torço. Eu acho que foi muito legal a forma como foi construída a história dos dois, a forma como a gente levou a história do Lauro e do Tobias, sem afetações, de uma forma muito natural, dois homens ali. É algo que eu espero manter dessa mesma forma. E de verdade, eu torço muito, e realmente não sei o que que os autores pretendem fazer. Mas eu acho que seria um pecado não desenvolver ou deixar morrer essa história”.
Lauro, além de ter sua vida íntima em discussão, é um personagem de grande importância no núcleo central da novela, principalmente por seu vínculo com a co-protagonista Estela (Larissa Manoela). “Eu estou apontando para a Estela uma relação de proteção, dando um tom paternal, ou até quando há uma repressão, há um certo carinho”. A ambientação da trama – situada na década de 1940 – intensifica os dilemas enfrentados pelo personagem. A homossexualidade, em um tempo marcado por rígidos preconceitos, torna-se ainda mais desafiadora de ser representada com veracidade. “Ele é solteiro, se solteiro ele é mal visto, se ele assumir seu relacionamento, há o preconceito, então eu de verdade gostaria muito que os autores desenvolvessem. Eu não falo nem só o contato físico entre os personagens, mas a convivência deles. Eu não sei o que que eles vão fazer do Lauro e do Tobias. Eu torço para que a história se desenvolva”.
O sucesso da atual novela das seis confirma a aposta da emissora. A trama não apenas elevou os índices de audiência da faixa como também se consolidou entre os maiores êxitos recentes, ao lado de clássicos reprisados como “Vale Tudo” e “A Viagem”. Muito disso se deve à leveza de sua narrativa, capaz de atrair o público em tempos de instabilidade social. “A novela é divertida, e a gente, nesse mundão maluco que a gente tá vivendo… as pessoas querem chegar em casa ver uma coisa leve, para além do tiroteio, de violência”.

Marcelo Argenta acredita que o sucesso de “Eta” se deve à leveza de seu tema (Foto: Oseias Barbosa)
PASSO FUNDO – E CERTEIRO
Antes de atuar na novela, Marcelo estava em sua cidade natal, onde realizava workshops para incentivar outras pessoas a investirem na carreira artística. A iniciativa nasceu de sua própria trajetória, marcada por desafios e superações. “Estive no Sul recentemente, fazendo palestras sobre minha carreira e também sobre momentos de ansiedade e depressão que enfrentei. Muitas pessoas, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo, ainda veem o ator como um ‘super-herói’, inalcançável, e acabam se surpreendendo ao perceber nossas fragilidades. Após minhas falas, vários vieram me dizer que passavam por fases depressivas e que a reprise da novela na pandemia os ajudou a suportar aquele período, trazendo leveza e riso para dentro de casa. Isso mostra como nosso trabalho pode ir além da cena, atingindo o público em um lugar mais profundo”, revela.
Acrescenta ainda que “até bordões da novela já circulam no dia a dia das pessoas, como ouvi de minha própria mãe. Quero mostrar para as pessoas que desejam ser artistas de que tudo é possível. Sou filho de caminhoneiro e dona de casa, vindo do interior, e por isso desenvolvi um workshop voltado para quem está fora do eixo cultural do país. Nele, compartilho minha trajetória sem glamorização, mostrando as dificuldades reais da carreira de ator, em que muitos desistem. Fiz esse projeto pelo incentivo da Lei Paulo Gustavo, levando gratuitamente às cidades sem acesso à cultura. Há ainda poucos atores gaúchos em destaque no mercado, e quero seguir ampliando esse trabalho quando terminar a novela”.
O caminho até o reconhecimento, no entanto, foi árduo. Marcelo recorda que sequer havia assistido a uma peça de teatro antes de decidir se tornar ator. Sua vida parecia seguir outro rumo, até que um detalhe transformou sua história. “Nunca tinha ido num teatro, eu fazia faculdade de ciência da computação, trabalhava na Coca-Cola, não tinha nada a ver com isso. Então foi de uma situação específica que me fez vir para cá. Uma oficina de teatro que eu fiz lá no final de semana, que ali gerou uma pulga e seis meses depois, eu estava no Rio, morando com seis pessoas num apartamento de 40 m², sem armário, sem nada, sem televisão. Cheguei a ir para Quintino (bairro da zona norte do Rio) e me inscrever numa escola pública para poder andar de ônibus enquanto não podia pagar passagem e ir para a zona sul. Nisso, foi muito tempo até conseguir um personagem, que acabou sendo o Vanderlei de Amor à Vida. E meu personagem acabou terminando com o da Fabiana Karla”.

Marcelo Argenta fez uma novela de Walcyr Carrasco e iniciou uma parceria com o autor (Foto: Oseias Barbosa)
Ao longo da carreira, um dos trabalhos de maior repercussão foi em “Malhação – Vidas Brasileiras”, no qual interpretou um professor envolvido em uma trama sobre abuso sexual. O papel foi decisivo não apenas pela complexidade dramática, mas também pela resposta que gerou no público. “Esse é um dos trabalhos mais difíceis que eu já fiz. É, quando a produtora de elenco me chamou para ser um professor que passava pela questão do abuso sexual. Eu achei interessante pois dava a mim outra leitura além do cara bonito acima de qualquer suspeita. Eu nunca recebi tanta mensagem de ódio no meu telefone. Foi um trabalho que me consumiu muito, principalmente quando entramos na sequência em que teve a questão do abuso, mas a questão é o seguinte, nunca foi feito explicitamente por causa do horário. Tivemos toda uma forma de conduzir. Então tinha uma questão de uma concentração ali para como levar aquilo ali de uma intensidade, colocar a importância e o peso devidos. E eu recebi muita mensagem de gente que passou por isso. Muita gente veio falar comigo”.
O artista então revela as razões mais profundas que o movem, todas elas enraizadas no Rio Grande do Sul, território de sua origem afetiva e cultural. “Às vezes quando eu falo pode parecer que eu seja bairrista. Mas o Sul realmente ele tem uma identidade muito forte na questão da cultura. Então eu acabei perdendo essa coisa do Centro de Tradições Gaúchas. Mas se eu passar pelo Sul volta tudo. Gramado tem um cinema muito forte, o nosso mais pomposo festival de cinema, lá nasceu a sementinha de começar a alimentar coisas no meu estado, de querer produzir, fazer cinema lá. E sobretudo lá estão minhas raízes – minha mãe tem 75 anos, meu pai vai fazer 86, trata um câncer. Estar no Sul é estar perto deles”.

Marcelo Argenta é gaúcho e faz workshops para incentivas jovens artistas de sua região (Foto: Oseias Barbosa)
No fim, Marcelo Argenta se revela como um artista que nunca esquece de onde veio. Cada personagem que interpreta, cada oficina que ministra, cada história que divide com o público, carrega algo da estrada de terra do interior, da força de seus pais e da chama cultural do Sul. O menino que nunca tinha ido a um teatro tornou-se ator sem deixar de ser filho, e é nesse retorno às origens que encontra o sentido maior da arte: não apenas emocionar plateias, mas devolver à sua terra aquilo que um dia o fez sonhar. Entre a ficção e a vida, sua trajetória mostra que ser artista é, sobretudo, manter acesa a ponte entre as raízes e o futuro.
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