“Coração Acelerado” fracassa na audiência, perde para a Record em Goiânia e acende alerta na Globo


A novela “Coração Acelerado”, exibida às 19h, enfrenta dificuldades para cumprir sua meta de audiência, inclusive em Goiânia, praça estratégica para a Globo. Em 5 de março, a trama chegou a ser superada pela Record Goiás no minuto a minuto, com 16,75 pontos contra 14,42 da TV Anhanguera. Embora tenha registrado picos ocasionais, os índices seguem abaixo da antecessora “Dona de Mim”, que marcou 21,5 pontos. A tentativa de dialogar com o público do agro e do Centro-Oeste esbarra numa narrativa considerada leve demais e com conflitos resolvidos rapidamente. Nem participações de estrelas sertanejas têm garantido repercussão. Apesar do bom desempenho do elenco, a novela carece de maior impacto dramático. O cenário lembra o fracasso musical de “O Amor é Nosso” (1981), também marcado por baixa audiência

*por Rodrigo Otávio

Acelerado para quem? “Coração Acelerado” parece não estar cumprindo nenhum de seus objetivos numéricos. A atual trama das 19h, pensada para conquistar a audiência de Goiânia — uma das praças da Globo que historicamente mais enfrenta dificuldades no Ibope — tem dado errado em praticamente todas as frentes, inclusive na própria capital goiana. No último dia 5 de março, a novela chegou a ser ultrapassada em diversos momentos, no minuto a minuto, pela Record Goiás. A emissora concorrente, com o “Goiás Record”, atingiu 16,75 pontos, contra 14,42 da TV Anhanguera (Globo), exibindo “Coração Acelerado”. No mesmo dia, os números voltaram a oscilar em favor da Record, que marcou 16,07, diante do desempenho da afiliada da Globo. O painel é acirrado em Goiânia — bem diferente de São Paulo, onde a novela costuma ficar abaixo da casa dos 20 pontos, enquanto a Record permanece na faixa dos 8 com seus jornais noturnos.

Ainda assim, houve respiros ocasionais. Na última quarta-feira, “Coração Acelerado” registrou 18,5 pontos e, no fim de fevereiro, chegou a marcar 16,58. Nada, porém, que altere substancialmente o quadro. Chama atenção o fato de que sua antecessora no horário, “Dona de Mim”, havia alcançado 21,5 pontos de média, um patamar que hoje parece distante e que já acende um alerta dentro da emissora.

Antônio Calloni, Rafael Rara e Thomás Aquino em ‘Coração Acelerado’

A estratégia de conquistar o agro e o público do Centro-Oeste acabou esbarrando numa contradição: A Globo apostou numa novela de tom ingênuo, ainda que com núcleos e personagens que, no papel, pareçam interessantes — mas que, na prática, não despertam grande envolvimento. Um dos problemas recorrentes apontados é a ligeireza na resolução dos conflitos. A morte de Eliomar (Stepan Nercessian), por exemplo, foi resolvida com tamanha rapidez que mal produziu impacto. Nem mesmo a presença de grandes nomes da música sertaneja, como Ana Castela, Paula Fernandes e a dupla Maiara e Maraísa tem conseguido garantir repercussão à novela. Nas redes sociais, “Coração Acelerado” passa muitas vezes em brancas nuvens — e, quando surge, é frequentemente alvo de críticas. Como resumiu a usuária Huzzah (@ah_huzzah) no X:

“Não dá para se apegar à história de Agraul (shipp de Agrado e Raul, protagonistas da novela). Brigaram ontem e hoje já estão fazendo as pazes. Depois dizem que eles enfrentaram muitas coisas e ninguém realmente sente isso.

Dentro do que lhes cabe, os atores fazem seu trabalho com vigor. Filipe Bragança e Isadora Cruz revelam um casal com evidente sintonia. Thomas Santana sustenta o antagonismo com firmeza. A trama de Antonio Calloni, um homem dependente do jogo que dilapida o patrimônio do próprio filho, também apresenta bons momentos. Isabelle Drummond talvez seja o grande nome da novela, compondo a vilã rural Naiane com energia e presença. Mas falta algo que unifique tudo isso. Tal como definia Laurence Olivier (1907–1989) ao falar de artistas talentosos que não conseguiam brilhar plenamente, é possível aplicar à novela a mesma sentença: “é boa, mas falta-lhe esplendor”.

A audiência descendente de “Coração Acelerado” também faz lembrar outra experiência musical da Globo que fracassou ao tentar dialogar com o universo pop. Trata-se de “O Amor é Nosso”, exibida em 1981. A proposta era capturar o espírito da música jovem da época. Para isso, a emissora escalou Fábio Jr., então em ascensão como cantor, para protagonizar a trama.

Elenco de “O Amor é Nosso”. Liderada por Fábio Junior, a novela teve muito problema nos bastidores (Foto: CEDOC/TV Globo)

O resultado, porém, foi um fracasso retumbante. O material original da novela acabou praticamente descartado. Como registra o pesquisador e jornalista Gabriel Sartori, em sua monografia “O vídeo é uma fantástica máquina do tempo – A preservação e a rememoração do arquivo de entretenimento da Rede Globo”, o insucesso foi tamanho que nem a presença de Roberto Carlos na história — além do próprio Fábio Jr. — conseguiu melhorar a memória ou os números da produção.

Convém lembrar que as autoras de “Coração Acelerado” não são novatas em sucessos musicais na televisão. Izabel de Oliveira foi coautora de “Cheias de Charme” (2012), enquanto Maria Helena Nascimento assinou sozinha “Rock Story”. A própria Globo já havia testado o formato em “Malhação”, na fase da Vagabanda — uma temporada musical que teve boa repercussão entre o público jovem, e que contou com Izabel de Oliveira entre as roteirisrtas. O histórico, portanto, recomendava otimismo. Mas, por enquanto, o coração da novela parece bater em um ritmo que o público ainda não conseguiu acompanhar.