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Conto de fadas queer: No red carpet de “O Casamento de Gorete”, Letícia Spiller e Rodrigo Sant’anna falam sobre cinema gay no Brasil

Produzido pela atriz e estrelado pelo humorista, longa-metragem revela a jornada de uma drag queen em busca do amor incondicional, daqueles imortalizados nos desenhos da Disney

Publicado em 18/11/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por João Ker

Produzido e co-estrelado por Letícia Spiller, “O Casamento de Gorete” é uma comédia cinematográfica que traz Rodrigo Sant’anna (a Valéria de “Zorra Total”) no papel principal da drag queen que precisa se casar para arrebatar a herança do pai. Com uma estética similar à de um conto de fadas queer e cheio de irreverência, o filme ainda traz no elenco Tadeu Mello e Ataíde Arcoverde como as “fadas madrinhas” Domitila e Marinalva, além de Carlos Bonow como o príncipe “Bonitão” que acaba fisgando o coração da princesa, todos sob a direção de Paulo Vespúcio Garcia (“Chico Xavier”, 2010) . Nesta noite de segunda-feira (17/11), o elenco da produção se reuniu com uma animada turma de drags e convidados para a pré-estreia do filme no Shopping Leblon. HT esteve por lá para saber um pouco mais sobre o longa que parece abrir caminho para outras produções mainstream do gênero. Seria a vez de produções tipo “Priscilla, a rainha do deserto” (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, de Stephan Elliot, PolyGram Filmed Entertainment e outros, Queen of the Desert, 994), “Cruzeiro das Loucas” (Boat Trip, de Mort Nathan, Motion Picture Corporation of America e outros, 2002) e “Transamérica” (idem, de Duncan Tucker, Belladonna Productions, 2005)?

Rodrigo, amplamente conhecido pelo grande público graças ao sucesso da travesti Valéria no humorístico semanal da Rede Globo, diz que não se preocupa com a associação das duas personagens e que, sim, elas têm lá suas semelhanças: “Não há nada de diferente, as duas estão no mesmo lugar. A Valéria me catapultou para o Brasil, então eu quero mesmo é que o público associe essa ideia. Já a Gorete é um personagem mais sutil, que me possibilitou explorar nuances diferentes, do tipo que não tem espaço no Zorra”, comenta. Intencionalmente ou não, o longa ajuda a desmistificar um pouco a representação da comunidade LGBT – principalmente das drag queens – que, no cinema nacional, está majoritariamente ligada ao drama e ao debate de questões mais profundas. “O humor tem esse papel de tratar um tema sério através de um viés leve. Porém, vou achar mais legal ainda quando isso não for mais uma questão, quando a temática gay no cinema for encarada apenas como algo natural”, pondera.

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O envolvimento de Letícia Spiller no longa é um novo passo na carreira da atriz, que agora estreia como produtora, assim como seu filho Pedro Novaes (fruto do casamento com Marcello Novaes), que também faz seu début na profissão de ator. Com 17 anos, o menino se diz incerto sobre seguir ou não os passos dos pais: “Eu ainda estou focando na banda que tenho com meu irmão e meu primo, a Fuze. Esse trabalho aqui eu aceitei porque era maneiro, então foi mais fácil. Minha mãe está sempre me dando os conselhos certos e ainda tem o Ricardo Blat que, pô, é um amigo que eu admiro bastante e também me ajudou muito com o personagem”, diz.

Apesar da pouca idade, Pedro já demonstra ter uma daquelas cabeças bem formadas que são fruto da boa criação. Quando perguntado sobre o que ele e seus amigos achavam de estar estreando em um filme com temática LGBT, ele responde: “Não, não teve problema nenhum. Eu acho que todo mundo tem o direito de fazer o que quiser e eu não vejo nada de errado nisso”. Ponto para a mãe-coruja que estava ali do lado e já emenda o papo: “Eu sempre fui avessa a qualquer tipo de preconceito ou homofobia. Quando o Paulo [Vespúcio Garcia, diretor] me mostrou esse filme, eu achei genial e fiquei interessada por ser irreverente, audacioso e ainda assim falar de amor. É uma temática séria, abordada de uma forma divertida que não deixa a história ser banal”, explica.

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Quem assistiu à Regina Casé durante o “Esquenta” deste domingo (16/11), pode ver a atriz dando um show de bate-cabelo, enquanto encarnava sua personagem Rochanna e era acompanhada por um time de drags no palco do programa. “Ela é trash!”, dispara Letícia sobre sua personagem. “A parte mais difícil foi acertar o tom da voz e encontrar uma alma, uma essência para ela. Eu ouvi bastante o Paulo, que foi me guiando e me dirigindo muito bem nesse filme. E me equilibrar em cima daquela bota pesada com salto 40 também não foi nada fácil”, brinca. E o mais divertido? “Tudo, né? O momento do jogo, as danças, as brincadeiras com os meninos, foi tudo demais!”, diz a atriz, que ainda lamenta o falecimento do ator Antônio Firmino, com quem trabalhou na peça “Bodas de Sangue” durante as gravações do longa: “Ele se foi muito cedo, mas eu tenho certeza que ele está nos iluminando lá de cima”, comenta um pouco emocionada.

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Bastante feliz durante a cerimônia de estreia, Paulo Vespúcio Garcia comenta sobre a temática do filme: “Eu acredito nele porque fala basicamente de amor, puro e incondicional. É uma comédia que chega em um momento que o mundo todo está meio louco. Existem várias vertentes capazes de abordar assuntos diferentes, como o melodrama, a comédia de situação etc. Mas a história é como um bolo solado que precisa de um pouco daquele sal do humor para ficar bom”, diz. Uma das diretoras mais conceituadas do panorama nacional, Tizuka Yamasaki, também comenta sobre a abordagem desse tema: “O cinema representa a liberdade de expressão, logo tem que ser democrático e mostrar tudo o que existe”, finaliza.

Tizuka Yamasaki e Paulo Vespúcio Garcia (Foto: Zeca Santos)

Tizuka Yamasaki e Paulo Vespúcio Garcia (Foto: Zeca Santos)

“O Casamento de Gorete” pode até não parecer algo que se deva levar muito a sério, pelo menos a princípio, mas não é bem assim. Como elenco e produção comentam, é apenas a partir de uma representação leve e livre de estigmas ou estereótipos que a temática queer pode começar a ser considerada apenas mais uma nuance dentro da imensidão de particularidades do Brasil. Ao colocar no papel central uma drag queen que é vista como “princesa” e não apenas a amiga extravagante que aparece para inferir comédia a um roteiro centrado basicamente em uma história heterossexual, a minoria LGBT já começa a abrir espaço para atingir um cinema mainstream e sair da margem alternativa. Em um ano que o Brasil tenta concorrer a uma vaga a ‘Melhor Filme Estrangeiro’ no Oscar com a produção “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, o horizonte cinematográfico começa a mostrar pouco a pouco as suas cores e todos, gays ou não, têm algo a ganhar com isso. Confira abaixo as fotos do badalo na pré-estreia.

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Fotos: Zeca Santos

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