*Com Vítor Antunes
Transgressora, “A Favorita” rompeu as regras do folhetim tradicional ao não revelar com clareza, em seus capítulos iniciais, quem era a mocinha e a vilã. A mesma transgressão coube a Murilo Benício, que pediu para fazer o personagem Dodi, inicialmente cotado para o ator Fábio Assunção, que não pôde vivê-lo: “Fui chamado para fazer parte do núcleo cômico. Não quis porque eu havia gostado desse personagem, o Dodi. Lembro que o ator que faria o papel não estava mais disponível, então eu pedi para interpretá-lo. Eu queria fazer uma coisa diferente, vinha de personagens cômicos”, relata.

Murilo Benício em “A Favorita”. Novela está sendo exibida na sessão “Vale a Pena Ver de Novo” (Foto: Divulgação/TV Globo)
O ator exalta o talento de João Emanuel Carneiro, a quem considera como sendo “um dos grandes autores de telenovela nacionais”. Além deste folhetim, ambos trabalharam juntos no fenômeno “Avenida Brasil” e no filme “Orfeu”. Diante da ousada narrativa escolhida pelo autor para costurar sua novela, Murilo define como sendo “Incrível aquela ideia de não se saber quem era o mocinho ou o bandido. É algo muito revolucionário o fato de o espectador não saber quem estava falando a verdade. O segredo era de uma pessoa só, do próprio João, o autor. A novela era um suspense, um thriller, algo muito legal. (A narrativa) Era tão nova, que eu achava aquilo o máximo”, conta.

Patrícia Pillar (Flora), Murilo Benício (Dodi) e Cláudia Raia (Donatela). “A Favorita” subverteu a ordem do folhetim tradicional ao não revelar de imediato quem era a mocinha e a vilã da história (Foto: Divulgação/TV Globo)
Os elogios que Benício aplica ao autor, estendem-se também ao elenco e à equipe técnica: “A turma era maravilhosa, a gente se divertia demais! Eu tenho memórias incríveis de ‘A Favorita’, novela da qual sinto muitas saudades”. Sobre a reprise da obra, aposta que ela “vá surpreender mais uma vez”.
Além das duas novelas em cartaz na sessão “Vale a Pena Ver de Novo”, o ator estava no folhetim exibido anteriormente, “O Clone”, o remake de “Ti Ti Ti”, onde vivia Victor Valentim, um personagem cômico. Ver a si em várias idades diferentes e em propostas dramatúrgicas tão opostas tem um sabor especial ao intérprete, que pode analisar sua trajetória artística nas mais variadas fases da vida e na emissora dos Marinho: “Eu acho maravilhoso reconhecer a minha própria idade nessas reprises, observar há quanto tempo eu venho construindo essa carreira, há quanto tempo faço parte da TV Globo e a quantidade de trabalhos que fiz naquela casa. Isso é muito recompensador e eu acho um barato, pois me dá a dimensão da carreira que construí”, analisa.

Murilo Benício em “A Favorita” (Foto: Divulgação/TV Globo)
Dodi não tratou-se do primeiro vilão de Murilo na teledramaturgia. Antes dele, vivera Juca Cipó, na versão de 1995 de “Irmãos Coragem”, e Cristóvão, na esquecida “Esplendor”, de 2000. Quatorze anos depois de seu último personagem mau, na novela de João Emanuel Carneiro, retoma a vilania através do antiquado e perverso latifundiário Tenório, de “Pantanal”, que é capaz das maiores atrocidades. Murilo diz não temer o cancelamento nas redes sociais diante das atitudes condenáveis de seu personagem. Pediu, inclusive, que Bruno Luperi, o adaptador da nova versão, não economizasse nas maldades: “Pessoas como o Tenório ainda existem aos montes. As coisas que ele faz para alcançar seus objetivos são irreais. Diria que ele é um cara com valores completamente deturpados. Uma pessoa bruta, cujo caráter muda conforme a situação. Um cara muito bronco. Acho que vai ser um bom espelho para uma parcela de pessoas que não conseguiu evoluir deste lugar”, opina.

Quatorze anos depois de seu último vilão, em “A Favorita”, Murilo Benício volta a interpretar um homem mau, o latifundiário Tenório, que é pai de Guta (Julia Dalavia), em “Pantanal” (Foto: João Miguel Junior/TV Globo)
Parafraseando o clássico de Pirandello (1867-1936), em vez de “Seis Personagens à Procura de um Autor”, Murilo Benício parece estar vivendo “Cinco Personagens ao Encontro de Um Ator”. Diante de tipos que podem ser facilmente encontrados em qualquer parte do Brasil e reconhecidos por qualquer pessoa, o artista marca seu nome na historiografia da TV Brasileira. Quer através do ingênuo jogador de futebol Tufão, de “Avenida Brasil”, quer através dos pérfidos Tenório e Dodi, ou ainda de Fabrício de “Fera Ferida”, que era gago tal como seu intérprete. Com eles, o ator revela as filigranas que compõem seu trabalho e os tons que o fazem personalíssimo.
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