Cláudia Raia sobre volta de As Filhas da Mãe: “Eu ter interpretado uma mulher trans é problematizado com razão”


Duas décadas após sua estreia, “As Filhas da Mãe” retorna ao Globoplay, e Cláudia Raia revisita Ramona com olhar crítico e reconhecimento: “O fato de eu, uma atriz cis, ter interpretado uma mulher trans é problematizado, e com razão. Mas foi um passo importante para que o assunto viesse à tona”. A atriz recorda o impacto da personagem, que levou a transexualidade ao centro do debate em 2001, equilibrando humor e humanidade. Apesar das resistências e polêmicas, Ramona conquistou o público e abriu caminho para novas narrativas trans na TV. Hoje, Cláudia ressalta a importância de mais espaço para atrizes trans, protagonistas e autoras, refletindo o avanço da sociedade

*por Vítor Antunes

Duas décadas depois de sua estreia, “As Filhas da Mãe” retorna ao Globoplay ainda cercada pela mesma névoa de controvérsia que a acompanhou em 2001. Foi ali que surgiu a primeira personagem assumidamente trans das novelas da Globo: Ramona, interpretada por Cláudia Raia — uma atriz cis e heterossexual. O gesto, visto na época como ousado, seria replicado anos depois em “A Força do Querer”, quando Carol Duarte, mulher cis e lésbica, viveu Ivan. A discussão que mobiliza a comunidade trans, ativistas, pesquisadores e acadêmicos de diversas áreas se inscreve no campo do “transfake” – expressão que designa quando pessoas cisgêneras interpretam personagens trans. Cláudia, hoje, revisita o papel com a distância e o discernimento que o tempo permite.

As Filhas da Mãe foi um divisor de águas. Em 2001, falar sobre transexualidade na TV aberta era raríssimo. Eu e o Silvio de Abreu tínhamos uma responsabilidade enorme. Ramona levou o tema ao centro do debate, com humanidade e humor”, relembra. Ela reconhece que os tempos mudaram: “O fato de eu, uma atriz cis, ter interpretado uma mulher trans é problematizado, e com razão. Mas foi um passo importante para que o assunto viesse à tona. Precisamos olhar para trás com crítica e também com reconhecimento: o pioneirismo foi fundamental, e a evolução do debate mostra o quanto crescemos como sociedade. Hoje há mais espaço para atrizes trans e talentos incríveis, que dividem cena e protagonismo. E é essencial que mulheres trans também estejam na direção e na autoria, para que as histórias ganhem a pluralidade que a vida tem”.

Segundo reportagem publicada em 19 de outubro pelo site Heloisa Tolipan, a decisão de transformar Cláudia Raia em uma personagem trans partiu de Silvio de Abreu, que justificou a escolha com franqueza quase desconcertante: “Ela é grandona, tem um corpanzil, faz musculação”, afirmou o autor à época. Nos bastidores, o temor era de rejeição do público não se confirmou. Ramona caiu no gosto popular — ainda que sua transexualidade fosse tratada, muitas vezes, como motivo de piada, espelho fiel de uma televisão em que o humor frequentemente se sobrepunha à empatia. Mesmo assim, a trama enfrentou resistências: chegou-se a discutir a mudança de faixa etária por parte da Classificação Indicativa. Em 2002, Silvio contou ao Jornal do Brasil que chegou a ser “xingado no cinema por causa de Ramona”. Pressionado, tentou minimizar a polêmica, alegando que a personagem “não era trans, mas uma espiã” — uma justificativa que, como se sabe, não resistiu ao teste do tempo.

Leonardo descobre que Ramona usava chuteiras – Manchete de O Globo (2001)

Leonardo e Ramona, personagens de Alexandre Borges e Claudia Raia, em “As Filhas da Mãe” (foto: Cristiana Isidoro/Globo)

TRANSEXUALIDADE HOJE

A presença de personagens trans em novelas brasileiras é um fenômeno relativamente recente — e, historicamente, marcado por avanços tímidos, recuos bruscos e resistências institucionais. Em 1977, por exemplo, Cláudia Celeste (1952-2018) foi convidada para integrar o elenco de “Espelho Mágico, na Globo”. A participação, no entanto, terminou abruptamente: ao descobrir que a atriz era travesti e havia sido coroada Miss Brasil Gay 1976, a Censura Federal exigiu sua expulsão do elenco. Mais de uma década depois, em “Olho por Olho” (1988), Celeste retornou à TV, mas teve seu papel reduzido por pressão popular.

No ano seguinte, Rogéria (1943–2017) apareceu em “Tieta”, em uma participação que, embora recebida com mais simpatia do público, ainda refletia uma representação estereotipada — a figura “exótica”, marcada pela diferença. Para o jornalista e pesquisador Mário Camelo, mestre em Comunicação pela UFG, a trajetória das pessoas trans e travestis na teledramaturgia brasileira “é uma história de marginalização”. Segundo ele, “essas personagens quase sempre foram associadas à prostituição, ao submundo da noite ou usadas como alívio cômico”.

Entre os anos 1970 e 1990, houve pelo menos três tentativas de incluir pessoas trans em papéis de algum relevo nas novelas. Além de Cláudia Celeste, que interpretava Dinorá, uma prostituta, a TV voltaria ao tema em “Mandacaru ” (1997), com Roberta Close. Sua personagem também era uma profissional do sexo e, o convite à atriz, ainda que revestido de um verniz de inclusão, carregava o peso do preconceito. O episódio simbólico dessa tensão veio dos bastidores: o ator escalado para viver par romântico se recusou a beijá-la em cena.

Não chamei [Roberta Close à novela] como atriz, mas como evento – Walter Avancini, diretor de “Mandacaru” (Veja, Maio de 1998)

Roberta Close em “Mandacaru”. Ator recusou-se a beijá-la (Foto: Divulgação/TV Manchete)

Apesar de avanços pontuais nas últimas décadas, o chamado transfake — quando artistas cis interpretam personagens trans — permanece como uma ferida aberta na dramaturgia brasileira. Mesmo depois de tudo o que tem sido discutido, o transfake continua acontecendo. A população trans tem conquistado espaço e voz, mas isso ainda não se traduziu plenamente nas telas. Há muito caminho pela frente.

Ao revisitar “As Filhas da Mãe”, percebemos que a televisão é, ao mesmo tempo, espelho e lente deformante da sociedade. Ramona, outrora ousadia em forma de personagem, hoje surge como lembrete de caminhos trilhados e de lacunas ainda abertas. A história das atrizes e atores trans na dramaturgia brasileira revela avanços tímidos, retrocessos e resistências persistentes, mas também a urgência de novas vozes ocuparem o centro da narrativa. Entre memórias, críticas e pioneirismos, fica claro que não se trata apenas de representação: trata-se de reconhecimento, de protagonismo e da coragem de olhar de frente para quem sempre foi silenciado. Que cada novela futura permita que a pluralidade da vida trans brilhe sem máscara, com humor, dor e dignidade na mesma medida.