Chandelly Braz estrela série com Isis Valverde, exalta fazer artístico e critica cobrança de conteúdo nas redes sociais


Atriz é Dondom, irmã de Maria Bonita, protagonizada por Isis em ‘Maria e o Cangaço’, série do Disney+ que acaba de estrear. Nesta entrevista, ela compartilha as referências familiares que a inspiraram na composição, fala de amadurecimento, escolhas e de como conserva sua vida pessoal longe dos holofotes. Chandelly está em outra série prevista para este ano ‘Raul Seixas: Eu Sou’, no Globoplay, como a produtora Kika Seixas, casada com o artista entre 1979 a 1985, e aqui também reflete sobre o que pertence à arte e ao artista hoje. “Essa exigência atual de ter que se tornar um criador de conteúdo para a internet, me deixa desistimulada. Fico achando tudo uma grande b#sta, me desculpe. Se é esse o jogo, que grande m#rda isso tudo. Mas aí, quando vou ao teatro e assisto um trabalho bom, isso faz com que eu faça as pazes com o ofício e dissocie essas coisas. Tem horas que parece que essa profissão é um mercado. E não é. Ao mesmo tempo, precisamos dele para pagar as contas. Acho uma pena, porque têm muitos produtos sendo jogados no mundo com qualidade baixa. Acredito que isso tenha a ver com esse frisson por números. Escolher um ator ou uma atriz por número de seguidores é de um empobrecimento enorme. O público merece qualidade”

*Por Brunna Condini

Chandelly Braz retorna ao audiovisual em ‘Maria e o Cangaço’, série do Disney+ que estreou nesta sexta-feira (4). Na trama, dirigida por Sérgio Machado, ela é Dondon, irmã de Maria Bonita, vivida por Isis Valverde. “Elas são parecidas em termos de temperamento. Têm o mesmo senso de realidade, sabem muito bem o que é ser mulher naquele tempo ( o movimento do cangaço ocorreu no sertão do Nordeste brasileiro, entre o final do Segundo Reinado e a década de 1930); nessa sociedade onde as regras são ditadas por homens. Maria Bonita tinha muitas irmãs e irmãos, mas o Sérgio decidiu condensar isso na Dondom e em mais um irmão na trama. Minha personagem é aquela que fica e cuida da família. E sente muitas saudades dessa irmã, sabendo os perigos que ela está correndo. Maria e Dondom têm muitos embates, é uma relação que tem diferenças, dureza, mas muita confiança”, traduz.

A atriz que nasceu em Minas Gerais, foi muito pequena ainda para Ipojuca, Recife (PE), com a mãe (Telma) e três irmãos (Naraiana, Rondineli e João Davi) e conta que se inspirou em sua própria relação de irmandade para compor a personagem. “Pensei muito na minha irmã mais velha. Quando eu era mais nova, tínhamos muitas questões, mas ao longo do tempo fomos ficando cada vez mais companheiras. E pensei também no meu irmão mais novo, que quando menor, verbalizava pouco o que sentia, era mais para dentro. A Dondom é um pouco assim. Me inspirei neles e também em outras pessoas da minha família. Como na relação com a minha avó, por exemplo, em que nunca ouvi um ‘eu te amo’, mas jamais duvidei do afeto dela por mim. Pelo contrário. Acho que foi minha avó que me ensinou o amor. A frase não saiu de sua boca, porque talvez ela também nunca tenha ouvido. Na minha família, principalmente para os mais velhos, as formas de expressar o afeto eram outras. Uma vez, a minha mãe me botou de castigo porque eu quase fui atropelada por um ônibus (risos)…essa foi a maneira dela demonstrar preocupação. É um jeito meio bronco, meio torto, mas as vezes são os recursos que as pessoas têm. Bebi muito na minha fonte familiar, porque na série, as relações meio que acontecessem assim, dadas as devidas proporções”. A atriz é reservada sobre sua vida pessoal, mas quando o assunto se mistura à arte, ela tem prazer em compartilhar:

Chandelly Braz estrela série ao lado de Isis Valverde, fala de exposição e critica a cobrança para que artistas gerem conteúdo nas redes hoje (Divulgação)

Chandelly Braz fala de exposição e critica a cobrança para que artistas gerem conteúdo nas redes hoje (Divulgação)

“Meu lado materno é nordestino e isso é muito forte em mim. Minha mãe é pernambucana e toda sua família é de Ipojuca, que fica a 60 km do Recife. Ela casou com o meu pai, que era mineiro, em Ipojuca, e foram para Minas Gerais. Lá, tiveram os meus irmãos e meu pai faleceu quando eu tinha sete meses de vida. Minha mãe voltou para a cidade dela com três crianças. Esse é o lugar que cresci e tenho todas as minha referências, não tem como não me considerar pernambucana”. Chadelly fala da mãe com grande admiração: “Ela tinha 29 anos quando ficou viúva, com três crianças, sem emprego. Só fui entender a dimensão do que enfrentou quando eu estava prestes a completar os meus 30 (hoje a atriz tem 40 anos). Nessa idade, eu nem pensava em ter filhos. Na verdade, até hoje não penso. Nem imagino tudo o que minha mãe passou, ela é mesmo admirável”.

A série ‘Maria e o Cangaço‘ é contada sob o ponto de vista de Maria Bonita, explorando dilemas da personagem, como a maternidade e como se dividia entre a vida fora da lei e o desejo de formar sua família. Chandelly conta que não tem a maternidade como propósito:

Chandelly Braz como Dondom em 'Maria Bonita e o Cangaço', série do Disney+ (Divulgação/Disney)

Chandelly Braz como Dondom em ‘Maria Bonita e o Cangaço’, série do Disney+ (Divulgação/Disney)

“Isso estava nos planos, mas aí decidi ser atriz e à medida que fui amadurecendo, percebi que era algo que eu sempre adiava para cinco anos na frente. Quando fiz 30, pensei se queria mesmo ter filhos ou se essa era uma coisa que eu tinha que querer. Porque me parecia a ordem natural das coisas: casar, ter filhos, constituir uma família. Fui entendendo que realmente talvez não fosse um sonho exatamente meu. Quando penso em filhos, pesa a instabilidade da profissão também, mas para além disso, acho que a maternidade tem que ser um desejo muito forte. Me vejo com outras prioridades. Talvez um dia eu queira ter filho, mas não engravidar. Gosto muito de criança e de pensar na formação de uma pessoa. Não descarto a possibilidade, mas não por pressão”, analisa Chandelly, que foi casada com o ator Humberto Carrão por 10 anos, até 2022.

Quando a arte é o que interessa

Ela começou no teatro e estreou na TV aos 19 anos, na minissérie ‘Cruzamentos Urbanos’, no SBT. “Decidi entrar nesta profissão com um propósito muito claro: fazer arte. No ínício não sabia como viver do ofício, porque não é uma profissão padrão. Muitas vezes você não terá um salário e dentro dessa jornada as coisas vão acontecendo. O ingresso na TV veio e os trabalhos se seguiram (na Globo estreou em ‘Clandestinos: o sonho começou’, em 2010), e foi um susto essa coisa da exposição. Mas até aí, tudo bem, o reconhecimento é gostoso. É ruim quando sua vida íntima é exposta, quando começam a opinar sobre algo que é privado”.

Esse mundo da fama, da superexposição, é um universo que até hoje me sinto desencaixada. Sou muito apaixonada é pelo ofício. Quando estou sem trabalho, sem a coisa da criação, me sinto meio morta mesmo, sabe?  Esse ofício dá sentido para a minha vida. Isso é bom e ruim, porque é péssimo algo ser tão fundamental (risos). É a minha função no mundo. E essa profissão tem esse combo, esse pacote, do mundo dos holofotes. É preciso encontrar um equilíbrio e não se deixar afetar tanto – Chandelly Braz

"Esse mundo da fama, da superexposição, é um universo que até hoje me sinto desencaixada. Sou muito apaixonada é pelo meu ofício" (Divulgação)

“Esse mundo da fama, da superexposição, é um universo que até hoje me sinto desencaixada. Sou muito apaixonada é pelo meu ofício” (Divulgação)

Chandelly também reflete sobre a instabilidade e a “montanha-russa” de emoções que os atores experimentam. “Quando fazemos um trabalho e cai no gosto do público, da mídia, as atenções ficam voltadas para nós. Viramos ‘queridinhos’. Dali a pouco, fazemos outro que não gostam e ficamos carregando esse fracasso nas costas, como se isso fosse a realidade. Mas é tudo muito passageiro. Não podemos nos apegar nem com o sucesso e nem com o fracasso, porque ambos fazem parte da vida e do ofício”.

Sendo essa pessoa low profile, o quanto te incomoda virem especulando com quem você está namorando desde o término do seu casamento? “Me incomoda muito. Mas aí não leio, boto um filtro para que essas coisas nem cheguem em mim. E se eu não vejo, elas não existem”.

O que pertence à arte?

“Me interessa muito essa discussão, do que realmente pertence à arte e ao artista, e o que é mercado. A maneira com o mercado lida com os atores hoje. Sem querer ser saudosista, mas sou de uma geração que precisava se preparar e levar muito a sério a profissão. E hoje, o ator não tem só que realizar o seu trabalho bem. Às vezes, fazer bem nem é o que importa. Essa exigência atual de ter que se tornar um criador de conteúdo para a internet, me deixa desistimulada. Fico achando tudo uma grande b#sta, me desculpe. Se é esse o jogo, que grande m#rda isso tudo. Mas aí, quando vou ao teatro e assisto um trabalho bom, isso faz com que eu faça as pazes com a profissão e dissocie essas coisas”. E conclui:

Tem horas que parece que essa profissão é um mercado. E não é. Ao mesmo tempo, precisamos dele para pagar as contas. Acho uma pena, porque têm muitos produtos sendo jogados no mundo com qualidade baixa. Acredito que isso tenha a ver com esse frisson por números. Escolher um ator ou uma atriz por número de seguidores é de um empobrecimento enorme. O público merece qualidade- Chandelly Braz

Chandelly está em outra série prevista para este ano ‘Raul Seixas: Eu Sou‘, no Globoplay, como a produtora Kika Seixas, casada com o artista entre 1979 a 1985. “Foi uma experiência nova fazer uma personagem que existe, ainda está por aqui (Kika tem hoje 68 anos), e é muito conhecida do público, dos fãs. Não quis imitá-la, mas encontrar sua energia. Foi um trabalho bem desafiador neste sentido. E o Ravel (Andrade) está incrível fazendo Raul”, conta.

"Essa profissão tem esse combo, esse pacote, do mundo dos holofotes. É preciso encontrar um equilíbrio e não se deixar afetar tanto" (Divulgação)

“Essa profissão tem esse combo, esse pacote, do mundo dos holofotes. É preciso encontrar um equilíbrio e não se deixar afetar tanto” (Divulgação)

Maria Bonita e o Cangaço

A atriz e Isis Valverde são as irmãs, Dondom e Maria Bonita, em ‘Maria e o Cangaço‘, série do Disney+. A trama, com direção-geral de Sérgio Machado, acompanha os últimos anos do grupo de Lampião (Julio Andrade), a partir da perspectiva de Maria Bonita. A produção é inspirada no livro ‘Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no Cangaço‘, de Adriana Negreiros. “Há muito heroísmo em uma mulher que vai para a luta (Maria Bonita), e também em quem decide, precisa ficar (Dondon), e cuidar de uma casa, de uma família, ainda mais nesses tempos. A família que tinha alguma relação com o cangaço vivia algo muito delicado. Essas pessoas eram perseguidas pela força militar do estado, eram violentadas de muitas formas”.

Chandelly Braz e Isis Valverde na série 'Maria e o Cangaço' (Divulgação)

Chandelly Braz e Isis Valverde na série ‘Maria e o Cangaço’ (Divulgação)