*por Vítor Antunes (colaboração Tião Uellington)
A novela “O Pulo do Gato” pode finalmente ser redescoberta pelas novas gerações, com seu retorno ao catálogo do Globoplay. Escrita por Bráulio Pedroso (1931–1990), a novela está disponível como parte do Projeto Fragmentos, iniciativa que resgata títulos incompletos do acervo da TV Globo. Infelizmente, apenas oito capítulos foram preservados: 1, 3 e o 4 (exibidos como um só), além dos capítulos 40, 66, 70, 74, 134 e o 140 — este último, o desfecho da trama.
Pouco lembrada diante de outras obras marcantes de Bráulio, como “Beto Rockfeller” (1968), “O Pulo do Gato” acabou sendo vítima do apagamento sistemático das novelas da década de 1970, muitas das quais não sobreviveram aos processos de arquivamento e reutilização de fitas da época — tema que discutimos nesta reportagem.
A trama estreou em um momento de declínio do horário das 22h na teledramaturgia brasileira. Foi, inclusive, a penúltima novela a ocupar essa faixa: depois dela, viria “Sinal de Alerta” (1978), e, anos mais tarde, “Eu Prometo” (1983). A faixa das 22h, que tinha um perfil mais maduro — antecessora direta da atual faixa das 23h — só voltaria a ser explorada de maneira consistente a partir de meados dos anos 2000, com o remake de O Astro (2011), marcando o retorno das novelas noturnas ao estilo mais ousado e experimental.

“O Pulo do Gato” foi exibida em 1978 (Foto: reprodução/TV Globo)
Curiosamente, “O Pulo do Gato” entrou no lugar de “Que Rei Sou Eu?”, novela que havia sido planejada para aquele momento, mas acabou censurada antes mesmo de começar a ser gravada. Existem diversas versões para a encarnação setentista dessa novela que, anos depois, faria enorme sucesso em 1989. Uma delas apontava que a trama seria uma obra de capa e espada, como de fato veio a se concretizar na produção dos anos 80. Outra versão, resgatada em jornais da década de 1970, indicava que Que Rei Sou Eu? teria como pano de fundo os bastidores de uma escola de samba, e que o protagonista seria um ator negro.
Esse projeto inicial, mais próximo do que seria “O Pulo do Gato”, previa uma novela protagonizada por um elenco majoritariamente negro — uma proposta ousada e inovadora, pensada por Bráulio Pedroso. O papel principal seria de Milton Gonçalves (1933-2022), mas, com o veto à produção original e a reformulação do horário, a presença negra foi gradualmente esvaziada. Ainda assim, alguns dos atores já pré-escalados foram mantidos no elenco da novela que, em sua versão final, acabou por reciclar elementos do projeto engavetado.
O grau de indefinição sobre a substituta da novela “Nina” (1977), que antecedeu “O Pulo do Gato”, foi tão grande que até mesmo Gilberto Braga (1945-2021) chegou a ser sondado para escrever uma nova trama para o horário. Braga, que nunca chegou a assinar novelas das 22h, desenvolveria posteriormente minisséries marcantes nesse mesmo espírito mais adulto, como “Anos Dourados” (1986) e “Labirinto” (1998).
“Que Rei Sou Eu?”, por sua vez, só viria a ser produzida em 1989, sob a autoria de Cassiano Gabus Mendes (1929-1993), transformando-se em um grande sucesso popular, com sua mistura de sátira política, humor refinado e estética camp.
Hoje, com “O Pulo do Gato” de volta ao Globoplay, mesmo que em fragmentos, abre-se uma rara oportunidade de revisitar uma produção marcada por tensões políticas, raciais e institucionais — e de refletir sobre quantas histórias poderiam ter sido diferentes, caso tivessem encontrado espaço, preservação e coragem para acontecer plenamente.

Sandra Bréa esteve no elenco de “O Pulo do Gato”, trama de Bráulio Pedroso (Foto: Nelson di Rago/Globo)
EU E MEU GATO
Circulava à época o boato de que “O Pulo do Gato” teria sido inspirada nas vidas de Jorginho Guinle — lendário bon vivant carioca — e de Baby Pignatari, industrial e playboy paulista. Bráulio Pedroso, no entanto, negava qualquer associação direta. A novela, segundo o autor, pretendia retratar uma elite que vivia de aparências, marcada por inseguranças e desejos de ascensão social. O próprio título, “O Pulo do Gato”, remetia à ideia de artimanhas e jogadas de sorte para “se dar bem na vida”, tema que perpassava os dilemas dos personagens.
A abertura da novela foi outro marco: pela primeira vez, uma música de Rita Lee foi usada em uma vinheta de novela da Globo. A canção “Eu e Meu Gato” embalava os créditos iniciais, com a irreverência característica da cantora. Anos depois, Rita voltaria a ter músicas em novelas, como “Chega Mais” (1980) e “Zazá” (1997), consolidando sua presença na teledramaturgia com trilhas que ajudavam a capturar o espírito de cada época.
Em entrevista à Revista Amiga, Bráulio afirmou que a intenção principal da novela era mostrar que “a burguesia é insegura” — uma crítica social que ele já vinha desenvolvendo desde Beto Rockfeller (1968), exibida na TV Tupi, e também em “O Cafona” (1971), da própria Globo. “Escrevo sobre o que conheço, já que tive uma origem burguesa”, declarou em entrevista á Revista Amiga. O autor, inclusive, era descendente de uma família de políticos — um tio-avô chegou a presidir o Estado de São Paulo antes da era dos governadores eleitos.
Um dos núcleos centrais de O Pulo do Gato se passava em uma escola de samba, e por isso a novela realizou gravações nos ensaios da Escola de Samba Quilombo, fundada por Candeia , sambista e ativista da cultura negra. A Quilombo, que nasceu como resposta crítica à crescente comercialização e embranquecimento do Carnaval, buscava resgatar a ancestralidade e a essência original da festa. A escola tinha forte posicionamento político e artístico, mas durou pouco após a morte de seu fundador, em 1978. Atualmente, sobrevive como centro comunitário no bairro de Acari, no Rio de Janeiro.
A participação de Candeia se deu especialmente nos capítulos 103 e 104. Outros nomes ilustres que apareceram na trama foram Nelson Cavaquinho (1911-1986) e o colunista social Ibrahim Sued (1924-1995), que gravaram participações especiais.

Milton Gonçalves e Candeia no Quilombo (Foto: nelson di Rago/Globo)
BASTIDORES
Entre os episódios mais comentados da produção, destaca-se um incidente entre os atores Jorge Dória (1920-2013) e Mário Gomes, integrantes do elenco principal. De acordo com o Jornal dos Sports, os dois chegaram a se agredir fisicamente nos bastidores. Mário Gomes foi afastado por três dias da novela como punição, e seu comportamento continuou a gerar atritos: atrasos constantes, reclamações sobre os figurinos e, principalmente, sobre os cenários — que ele chegou a considerar precários — levaram o ator a se recusar a gravar algumas cenas.
Já Jorge Dória, veterano do teatro e da televisão, gostava de improvisar e frequentemente inseria “cacos” (falas improvisadas) em seu personagem, o que nem sempre agradava ao restante da equipe. Ainda assim, declarou que gostava de trabalhar na novela porque ela fugia do chamado “novelão” tradicional, com tramas melodramáticas e romances previsíveis.
A produção da novela também enfrentou obstáculos técnicos. Durante as gravações, o Estúdio A da Globo passava por reformas, o que obrigou a equipe a trabalhar com apenas metade da estrutura técnica disponível. Mesmo assim, O Pulo do Gato contou com cerca de 30 cenários internos ao longo de seus 140 capítulos, sendo quase inteiramente gravada em estúdio.

Mário Gomes brigou com Jorge Dória (Foto: nelson di Rago/Globo)
A escalação de “O Pulo do Gato” não foi exatamente das mais tranquilas. Um dos personagens que demorou um pouco mais para ser escalado foi Nando, que acabou ficando com João Carlos Barroso (1950-2019). Outro foi Billy, interpretado por Kadu Moliterno. Ambos eram surfistas na trama, mas Kadu acabou investindo no surf pela vida, ficando vinculado ao esporte. Inicialmente contratada para fazer O Pulo do Gato, Ítala Nandi se desentendeu com Daniel Filho e a Globo, criticando-os duramente nos jornais da época e acabou sendo esvaziada da trama. Ítala chegou a dizer, na época, que esta seria sua última novela — algo que não aconteceu. Ela só voltaria à Globo em 1987, com Direito de Amar. Cogitava-se que Tônia Carrero (1922-2018), Ziembinski (1908-1978) e Paulo Gracindo (1911-1995) fariam parte do elenco da novela, mas acabaram não participando. Uma das personagens, Valentina, de Marta Anderson, ficou sem final pois o ator que contracenaria com ela, Alfredo Murphy, faltou à gravação. O final de João Carlos Barroso também não foi gravado “por falta de tempo”.
Durante a escrita de O Pulo do Gato, Bráulio se acidentou e passou a ditar os capítulos a um datilógrafo. Pedro Paulo Rangel (1948-2022) também se acidentou, levando 15 pontos e quebrando a clavícula e as costelas. Isso aconteceu por volta do capítulo 82. O personagem de Pedro Paulo naturalmente também se acidentou na trama. A frustração por não fazer Que Rei Sou Eu e a sinopse improvisada de O Pulo do Gato, fora o seu adoecimento, acabaram influenciando Bráulio a não querer mais escrever novelas — algo que, de certa forma, ele manteve. Sua última novela seria escrita no ano seguinte: “Feijão Maravilha”. Dali até sua morte, ele só faria séries. Chegou a escrever “Cortina de Vidro”, mas, adoentado, saiu do projeto, que foi assumido por Walcyr Carrasco.

Ítala Nandi se indispôs com a Globo durante a novela (Foto: Divulgação/Globo)
Ainda que os atores tenham gostado de trabalhar na novela, Bráulio teve ressalvas: “Foi uma novela muito prejudicada pela censura. Se as coisas continuarem assim, não será possível no futuro se fazer novela, já que os temas vão ficar limitados. O Pulo do Gato foi uma novela regular”, disse à Revista Amiga. O Globo, por meio do crítico Paulo Maia, também elogiou a trama, chamando-a de “muito simpática”. Arthur da Távola, em uma crítica, não poupou elogios ao elenco, citando nominalmente cada um dos atores e seus papéis. Para Távola, O Pulo do Gato renderia mais uma peça de teatro que uma novela.

Personagem de Marta Anderson ficou sem final (Foto: Nelson di Rago/Globo)
Ainda que não tenha ido bem de audiência, O Pulo do Gato conquistou a crítica especializada. Em 1992 foi adaptada pela televisão chilena, com o título de El Palo al Gato. A Revista Amiga, em reportagem de Isabela Friedl, afirmou que a trama manteve a audiência em bom nível. O último capítulo de O Pulo do Gato termina com uma grande montagem de teatro de revista, com uma apresentação de Mara Rúbia (1919-1991), ícone do segmento.
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