Castorine volta à TV, defende representatividade para além da ‘gordinha empoderada’ e revela desejo da maternidade


A atriz volta ao horário das seis em ‘Êta Mundo Melhor!’. Ela viverá a destemida Maria Divina, que vai se envolver com Zé dos Porcos (Anderson Di Rizzi). “Me identifico com a Maria Divina que é impulsiva e romântica, também sou. Mas ela tem paciência demais para o amor, já não tenho tanta… também é fogosa, como eu”, diz. Aqui, Castorine fala do casamento com o ator Victor Hugo Maia, do desejo de ter filhos; e dos limites do humor. Lembrando que recentemente o caso Léo Lins reacendeu o debate sobre o tema. Como artista que também vem do humor, ela comenta sobre a linha que separa a piada da violência

*Por Brunna Condini

Castorine retorna à TV em ‘Êta Mundo Melhor!’, que estreia 30 de junho, na Globo. Em sua segunda novela, e das seis, a atriz de 25 anos, realiza o sonho de fazer uma trama de época — a nova trama de Walcyr Carrasco se passa na década de 1950. No folhetim, ela viverá a destemida Maria Divina, que vai se envolver com Zé dos Porcos (Anderson Di Rizzi), abandonado por Mafalda (Camila Queiroz). “Acho que o maior desafio foi entender a temperatura da personagem dentro de um universo já existente. O tom, o sotaque, um desafio que acho que foi vencido. Estava com muito medo no início. Assisti os filmes do Mazzaropi, do Chico Bento, vi a novela anterior (‘Eta mundo, Bom’), para entender onde estava esse tom”. E confidencia: “Me identifico com a Maria Divina que é impulsiva e romântica. Mas ela tem paciência demais para o amor, já não tenho tanta… também é fogosa, como eu”.

Nesta entrevista, Castorine fala do novo desafio, de representatividade para além dos esteriótipos, do casamento com ator Victor Hugo Maia e do desejo de ter filhos. A atriz também analisa os limites do humor. Lembrando que recentemente o caso Léo Lins reacendeu o debate sobre o tema. Como artista vista como uma das novas apostas do gênero em sua geração, ela comenta sobre a linha que separa a piada da violência:

Castorine faz segunda novela, fala de representatividade para além dos esteriótipos, do casamento e do desejo de ter filhos (Foto: Victor Hugo Maía)

Castorine faz segunda novela, fala de representatividade para além dos esteriótipos, do casamento e do desejo de ter filhos (Foto: Victor Hugo Maía)

Me encantei pelo humor por ser algo que te faz ganhar uma intimidade com a plateia, porque é uma ferramenta de comunicação poderosa. Você realmente perfura uma ‘parede’ e chega a criar um laço de comunicação. Acho que gosto de escolher um lado de reflexão. Gosto de cutucar e de abrir caminhos com a comédia. De rir, de ser leve – Castorine

Diversidade e estereótipos no audiovisual

Castorine estreou na TV no remake de ‘Elas por Elas’ (2023) como Ieda, papel que na trama original havia sido feito por Cristina Pereira. “A Ieda que interpretei foi por outro caminho. Era uma mulher que super sabia lidar com seu corpo”.

O audiovisual brasileiro está realmente mais aberto à diversidade de corpos ou apenas aprendeu a camuflar a exclusão, criando personagens fora do padrão, mas ainda dentro de um limite considerado ‘aceitável’? “Está mais aberto, de uma maneira lenta, temos que avançar. Em relação há anos atrás, agora temos personagens interessantíssimos e fora dos padrões. É lógico que temos que ir adiante, melhorar, mas também acho importante a gente olhar por um lado positivo, para a evolução desse momento”, opina.

Anderson Di Rizzi e Castorine farão par romântico em 'Êta Mundo Melhor!' (Divulgação/Globo)

Anderson Di Rizzi e Castorine farão par romântico em ‘Êta Mundo Melhor!’ (Divulgação/Globo)

Sobre um corpo traduzir ‘representatividade’ ou passar a ser simplesmente ‘presença’ no audiovisual, Castorine reflete. “Corpos precisam ser normalizados. Sou uma mulher gorda, então posso falar de mim, da minha percepção. Há anos, era mais comum rirem de personagens com corpos gordos. As piadas estavam centradas nisso. Agora, quando trazem um corpo gordo, trazem outro esteriótipo, o da ‘gordinha empoderada’. A Babu Carreira que diz: “Sou uma gorda empoderada, que é a gorda com cropped”. É uma piada da gorda que lacra sempre. Acho meio chato, colocar isso sempre num lugar informativo. Entendo que tem esse lugar educativo, inspirador, mas acho que existem outras formas de fazer isso. Contando qualquer história, naturalmente. Coloca uma gordinha agiota, mau caráter, traída…personagens que tenham vidas, independente dos seus corpos”. Ela também salienta que não aceita fazer personagens que depreciem sua existência:

Me valorizo. Já me deprecio o suficiente na terapia para alguém me depreciar no audiovisual, sabe? Não topo isso, que o meu corpo seja piada. Já me chamaram para fazer um teste há alguns anos em que essa era a proposta e não quis. E olha que estava precisando de dinheiro. Logo depois veio a minha personagem de ‘Elas por Elas’, que até era informativa em muitas das suas questões, mas complexa – Castorine

"Acho que o audiovisual está mais aberto à pluralidade, de uma maneira lenta, mas acredito que devemos avançar (Foto: Victor Hugo Maía)

“Acho que o audiovisual está mais aberto à pluralidade, de uma maneira lenta, mas acredito que devemos avançar (Foto: Victor Hugo Maía)

Amor e vida adulta

Em julho, Castorine completa seis anos de casamento com o também ator Victor Hugo Maia. “Nos mudamos para um apartamento esse ano e estamos mobilhando nossa casa. Estamos muito felizes, graças a Deus. Agora temos espaço. Se tem discussão, Vitor Hugo tem um sofá bem apessoado numa sala pra dormir (risos). Aí tudo muda, é uma paz, menina. Então o negócio está muito bom”. Ao pensar sobre a instabilidade da vida artística, a atriz elabora: “O desafio da estabilidade na carreira, também é o da estabilidade da vida adulta, né ? Temos que recriar estratégias, organização, planejamento e planos A, B, C, D, E…é isso, e vamos embora. Mas também é positividade, muitas rezas e axé”.

Castorine e o marido Victor Hugo Maia (Foto: Reprodução/Instagram)

Castorine e o marido Victor Hugo Maia (Foto: Reprodução/Instagram)

E revela:

Quero muito ter um filho ou uma filha. E quero muito que seja com o Victor Hugo. Mas não agora, não mesmo, pelo amor de Deus. Daqui a uns dez anos começo a pensar. Ou não, vamos ver. Tenho muito desejo de ser mãe. Não sei como vou criar, né? Quando estiver grávida, boto no chat GPT e me viro – Castorine

O caminho

Mariana Castorine da Cruz Faria cresceu achando que ‘Castorine’ era sobrenome, mas é nome. Só descobriu isso aos 8 anos. Curtiu e começou a usá-lo artisticamente. “É um nome composto. Meu pai disse que escolheu o ‘Castorine’ porque era uma princesa da Romênia. Mas não é, porque botei no Google, e só achei que é uma marca de gasolina. Não sou princesa, mas posso ser dona de royalties (risos). Já minha mãe, diz que ela é que escolheu, porque a mãe do meu pai se chamava Maria Castorina. E têm pessoas que falam: “Ah, é italiano”. Não, no máximo, de Belford Roxo, que é da onde a família vem”, brinca.

Apesar da pouca idade, a atriz já participou de cerca de 30 espetáculos. Um  trabalho que ajudou a projetar Castorine no cenário artístico nacional foi a montagem de ‘Camareiras’ ao lado da amiga Luísa Périssé. Este ano, além da novela, ela têm as estréias do humorístico ‘Volto sempre’ , no Multishow, em julho; e do filme ‘Era uma vez minha primeira vez’, de Thalita Rebouças, em que fez sua primeira protagonista. “E quero encontrar  espaço para estar no teatro novamente, com ‘Camareiras’ ou outra peça, ainda não sei”. Sonhando com a continuação de uma carreira na TV, ela joga para o universo:

Amaria fazer uma vilã, uma anti-heroína; uma mulher complexa, contraditória, entre o bem e o mal. Sei lá, uma estrela do rock, do rock gospel – Castorine

"Quero muito ter um filho ou uma filha. E quero muito com o Victor Hugo. Mas não agora" (Foto: Victor Hugo Maía)

“Quero muito ter um filho ou uma filha. E quero muito com o Victor Hugo. Mas não agora” (Foto: Victor Hugo Maía)

A lembrar do caminho até aqui, Castorine compartilha: “Nasci na Tijuca, que é um bairro de grande personalidade. Não tenho artistas na família, sou filha de contadores, mas mamãe e papai saíam toda sexta-feira para dançar no Clube Municipal. Aliás, sempre teve música em casa, minha mãe arrastava os móveis e ficava dançando comigo na sala. E tive uma vizinha, que foi uma segunda mãe, a tia Bete, que é musicoterapeuta, então sempre tive muita música na minha vida. Comecei no balé e aí escolhi ser atriz por conta do colégio. Fiz uma peça e aí me descobri. Uma sensação que amei foi quando as pessoas riram de mim, não sabia que poderia fazer alguém rir. Isso é algo muito potente”.

Acho que era uma menina tímida, nunca fui essa pessoa que ficava fazendo palhaçada, sempre fui muito mais observadora. Acho que o teatro foi um meio de  ter intimidade com outras pessoas – Castorine

"Me valorizo. Já me deprecio o suficiente na terapia para alguém me depreciar no audiovisual, sabe?" (Foto: Victor Hugo Maía)

“Me valorizo. Já me deprecio o suficiente na terapia para alguém me depreciar no audiovisual, sabe?” (Foto: Victor Hugo Maía)