*Por Brunna Condini
Carol Marra está de volta à TV na nova novela das 19h da TV Globo, ‘Dona de Mim’, que estreou segunda-feira, 28 de abril. Na trama escrita por Rosane Svartman e com direção de Allan Fiterman, a atriz é Natara, chefe da supervisão do controle de qualidade da fábrica de lingerie Boaz, comandada por Abel (Tony Ramos). Se em ‘Quanto mais vida, melhor‘ (2021) ela viveu uma mulher cisgênero (pessoa que se identifica com o gênero que nasceu), agora fará uma personagem transgênero. O atual trabalho tem uma simbologia forte no sentido de representatividade, de honrar a trajetória de Carol até aqui, que foi precursora de tantos caminhos para a comunidade trans. “Estou muito feliz com esta oportunidade. Não sei até que ponto a sexualidade da Natara vai ser discutida na trama, até porque é uma novela das sete. Mas espero que em algum momento, isso seja discutido. Nem que seja de uma forma leve. Senão vai ser mais uma personagem trans apenas para cumprir uma cota e eu não gostaria disso”, reflete. “A Globo vem fazendo uma reparação histórica super válida com os atores pretos e acho também que é preciso uma reparação histórica para a comunidade trans”.
Para se ter ideia, no ar agora, só tem eu. De todas as novelas, de todos os horários da casa, só eu. E existem tantas meninas trans tão talentosas, que mereciam também um espaço, mas estamos caminhando. Mas a Globo, pelo menos, está entendendo este lugar, se esforçando neste sentido e estão fazendo um trabalho muito legal – Carol Marra
Ainda refletindo sobre como o audiovisual continua a evoluir em direção a uma maior representatividade e diversidade, Carol observa. “Os atores pretos que só tinham sub papéis, agora são protagonistas em não sei quantos % do elenco das novelas. Isto é louvável, é lindo de se ver. É o público se ver na tela para se sentir representado. Assim como as meninas trans me verem no ar e falarem: “Nossa, Carol tá ali trabalhando como atriz. Eu também posso”. Muitas ainda estão nas ruas, na prostituição… e não é porque acham bonito, mas porque foram colocadas para fora de casa, então foi o recurso que encontraram de sustento. Quando me veem na TV, pensam que podem chegar a qualquer lugar”.
Estou muito feliz e honrada de estar de volta e, desta vez, fazendo uma personagem trans. Mas quero emprestar o meu corpo para contar histórias sejam elas quais forem. Por acaso agora é um corpo que se assemelha ao meu – Carol Marra

Carol Marra é Natara em ‘Dona de Mim’, próxima trama das sete da Globo (Divulgação/Globo)
Na novela anterior, você fez uma mulher cis e teve cenas de intimidade também no horário das sete. Seria bom a Natara ter uma trama amorosa e isso ser abordado de uma forma a naturalizada dentro da novela? “Sim. Vamos repercutir isso na internet para chegar aos ouvidos da Rosane (Svartman). Imagino que possa acontecer. Até porque não acredito que seja uma personagem para cumprir rubrica. Não é o perfil da emissora, da Rosane e do Allan (Fiterman), que é meu amigo pessoal. O conheço há mais de 10 anos. Ele é da inclusão, está em todos os seus trabalhos. Fiz o primeiro filme dele (‘Living the dream‘, 2006), minha novela anterior (‘Quando mais vida melhor‘), também foi com ele”. E projeta:
Torço para na novela ter até um desfile, tipo a festa de fim de ano da fábrica, onde as próprias funcionárias desfilem de lingerie, isso seria o máximo. Temos meninas trans até na Victória Secrets, porque não na Fabrica Boaz? Seria maravilhoso- Carol Marra

“Quero emprestar o meu corpo para contar histórias sejam elas quais forem” (Divulgação)
Carol destaca que a dívida com a comunidade trans não é só da TV, mas do audiovisual brasileiro. “No cinema é raríssimo você ver alguma atriz trans, e quando vemos, geralmente é de forma estereotipada, caricata. Ou em profissões em que fazem uma conotação até preconceituosa com a mulher trans ou travesti: cabeleireira ou puta. E somos plurais, somos atrizes, temos a deputada Erika Hilton, conheço uma trans biomédica, uma vereadora, uma gerente de loja, uma do marketing de um banco. Hoje temos mulheres trans ocupando espaços que até então eram quase impossíveis na sociedade. Para nós nada é impossível, precisamos de oportunidades e isso pode mudar a história. Quero ser vista pelos autores, produtores de elenco, diretores e roteiristas pela minha capacitação profissional e não por ser uma mulher trans. Não quero ser reduzida a minha identidade de gênero”.
Vemos a Maria Clara Spinelli, que acabou de pedir aposentadoria. Fazemos um trabalho, depois ficamos anos sem fazer nada, aí lembram da gente novamente. Tem que ter uma continuidade. Eu posso terminar uma novela e fazer outra. Papéis pequenos, grandes, não importa. Não cabe mais hoje ver só o mesmo tipo de gente no ar- Carol Marra
Inspirada e inspirando
Atriz, jornalista e comunicadora, Carol nasceu em Belo Horizonte e diz para construir seu caminho até aqui foi fundamental se sentir inspirada pelas que vieram antes. “É muito legal se sentir representada. “Na minha época de criança, havia a Roberta Close, a Rogéria (1943-2017). Olhava para elas e queria o mesmo, queria trablhar naquela ‘caixinha’ que era a televisão. Hoje, ainda me pego olhando o entorno quando estou gravando e me dá uma coisa (se emociona). Lembro que quando saí de casa, comecei a trabalhar como modelo logo. Depois, na época da minha transição, as pessoas eram maldosas. Chegavam até a me chamar pelo outro nome, que não vem ao caso dizer…coisa de 20 anos atrás. Diziam: “Vai pra uma esquina e vai ser puta”. E eu falei pra estas pessoas: “Eu vou pra uma esquina sim, mas vou para esquina na capa de uma revista, na capa de um jornal”. E assim foi”, recorda.
“Meu pai hoje que não está vivo para ver isso e sei que na época foi muito duro para ele. Todo pai projeta um futuro para um filho, uma filha. Não é que ele não me aceitasse, tinha era muito medo da agressão que eu pudesse sofrer aqui fora, porque não tinha como me proteger de tudo isso. Detesto dizer que fui uma pioneira, eu queria ser mais uma, mas que bom que fui a pioneira em coisas tão importantes e necessárias. Fui a primeira trans a trocar o nome para o sexo feminino. E conclui:
Meu pai faleceu há 9 anos, mas minha mãe está viva e bem orgulhosa da minha trajetória. Ela é muito fã das novelas da Rosane Svartman e agora estou numa delas. Por isso, quero seguir fazendo as palestras ‘Coragem pra ser feliz’, contando a minha história. Sobre assumir sua verdade, seja ela qual for, porque isso traz felicidade- Carol Marra

“Hoje temos mulheres trans ocupando espaços que até então eram quase impossíveis diante da sociedade. Para nós nada é impossível” (Divulgação)
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