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Com time de peso na obra e na estreia, Candé Salles desvenda Caio Fernando Abreu em documentário no Festival do Rio

Diretor estreia na direção em "Para Sempre Teu Caio F.", convidando atores de prestígio e amigos do autor para uma homenagem poética e emocionante

Publicado em 06/10/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por João Ker

Badalado nos círculos underground durante os anos 1980, o escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996) precisou esperar quase 20 anos após a sua morte para se tornar um escritor popular a ponto de ter seus textos compartilhados à exaustão pelas redes sociais. Apesar de ser pensador brilhante de vivacidade contumaz – e ter se tornado um poeta do amor visceral – viveu a vida em levada “Van Gogh”, passando grande parte de sua existência em apuros financeiros. Mas o reconhecimento, que antes se resumia ao circuito moderninho, transpôs barreiras e, em época de paixões fugazes via internet, se consolidou como estrela de primeira grandeza. O que importa, claro, é que o reconhecimento chegou e, agora, toma a forma do longa-metragem de Candé Salles, em sua estreia por trás das câmeras. Lançado como parte da mostra “Première Brasil: Retratos”, no Festival do Rio, nesta noite de domingo (5/10) no Cinépolis Lagoon, Contundente, “Para Sempre Teu Caio F.” é um apanhado geral da vida do escritor que faleceu aos 47 anos como vítima do HIV.

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Fotos: Divulgação

O roteiro é escrito pela própria Paula Dip, amiga de Caio e autora do livro que deu nome ao filme e que foi lançado em 2009, de onde se originou o conteúdo para a produção cinematográfica. “Na noite de autógrafos do livro no Rio, o Candé me encontrou e falou ‘vamos fazer um filme do Caio, eu tenho muitas imagens dele’. Então, nós começamos a produção há cinco anos. Não foi fácil, mas estamos aqui. É um sentimento de felicidade e muita realização”, comenta a jornalista.

No documentário, ela é representada por Natália Lage, que assume a voz de Paula como narradora oficial da trama, mesclando divagações pessoais sobre o escritor com um sentimento de saudades que a atriz diz partilhar: “É muito emocionante essa homenagem e ver meu amigo de mais de 20 anos fazer sua estreia à frente das câmeras em um documentário”, comenta Natália com os olhos marejados e a voz um pouco embargada, emocionada com a empreitada do produtor de elenco que agora se revela diretor. Assim como Candé, ela conheceu Caio F. em 1994, quando eles saíram pelo Brasil produzindo a peça “À Beira do Alto-Mar”, que reunia cinco contos do escritor. “A gente se falava por telefone e por cartas, então eu sinto que esse filme é um resultado muito emocionante dessa história” .

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(Fotos: Zeca Santos)

Na tela, a plateia conhece duas personas distintas de Caio Fernando Abreu: a primeira, um ser humano doce, divertido, sempre de bem com a vida e com uma alegria espontânea que contagiava qualquer ambiente em que entrava, como uma bola de fogo cheia de energia positiva; a segunda (e mais familiar para o público geral), fazia parte do perfil “artista tormentado” do escritor, repleto de depressão aguda e um pessimismo que lhe rendiam os textos certeiros e apaixonados que tanto são elogiados hoje em dia. Esse apelo para gerações mais jovens é algo que Natália atribui à veracidade do poeta: “Ele era um cara rasgado, venal, pulsante, vivo e com muitas emoções. E é durante a juventude que estamos descobrindo essas emoções. Eu acho que ele fala com esses jovens  – e vai falar para sempre – por conta desse encontro de pulsação. É algo que tem a ver com temperatura de escrita e de vida porque, de certa forma, ele encarava as coisas de uma maneira muito jovem: era irreverente, sarcástico e radical”, comenta.

No filme, a narração de Natália é interrompida por depoimentos de amigos e a interpretação visceral de alguns dos poemas mais impactantes de Caio por alguns dos melhores atores do Brasil. Entre esses nomes está Mayana Moura, que lê um poema inédito do autor sobre suicídio: “Eu conheço o Candé desde os 15 anos e sempre o ouvi falando sobre fazer esse filme. Nós até morávamos juntos quando eu gravei esse depoimento. Escolhi esse poema específico porque é rock’n roll. O Caio era uma pessoa muito verdadeira e crua na escrita dele. Quando alguém atinge esse lugar da verdade, se transforma em algo universal. Por isso que eu acho que até hoje ele fala tão bem com o público mais jovem. Assim como eu torço para que aconteça o mesmo com Lou Reed“, brinca.

Pablo Morais, nascido em 1993 e também um dos atores que leem trechos do escritor, admite que conheceu a obra de Caio F. através do amigo Candé: “O primeiro livro dele que eu li foi “Limite Branco”, quando morava em Nova York. Como o [editor] Pedro Paulo de Sena Madureira diz no filme, é essa coisa do clássico. Por isso que lemos Shakespeare, Dostoiévski… Não é porque ele seguiu uma regra ou algo do gênero, mas sim porque ele renovou e foi contemporâneo em sua própria época. E é algo que cada vez mais vai ser moderno, sempre”, opina.

Até o diretor Dennis Carvalho, que está começando a produção da peça “Pode ser que seja só o leiteiro lá fora” (do próprio Caio F.), confessa ser fã do escritor: “Sou um grande admirado e quando vi que o Candé estava fazendo o filme, vim me aprofundar na obra dele”.

O longa vai costurando depoimentos emocionados com histórias e “causos” hilários, inspiradores e irreverentes do escritor. Amigos como Bruna Lombardi, Suzana Pires, Ricardo Blat, Marisa Orth, Regina Duarte, Ângela Rô Rô, Adriana Calcanhoto, João Gilberto Noll  e Maria Adelaide Amaral, dentre muitos outros, relembram a vitalidade e a efervescência de Caio. Enquanto isso, cada ator brilha à sua maneira enquanto interpreta os textos do escritor: Camila Pitanga lê a carta “Além dos Muros”, enviada ao Estado de S. Paulo, na qual ele assume publicamente ser soropositivo; Fábio Assunção fala sobre a saudade azul e amarga, enquanto Mariana Ximenes dá vida a um poema sobre sexualidade; Caco Ciocler aparece escruciante enquanto, embaixo dos lençóis, recita versos sobre um término não-superado; Thiago Lacerda solta sua ira ao negar um amor e Alexandre Borges, de cigarro na mão, lê versos inéditos sobre um sentimento não correspondido. Cada um, de Pedro Neschling a Paolla Oliveira, de Maria Flor a Guilherme Weber, parece se relacionar de alguma maneira com o texto de Caio, mostrando sua universalidade e uma capacidade incomparável de atingir o âmago das pessoas com palavras bárbaras e certeiras, indo do extremo da euforia ao fundo da amargura.

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Fotos: Divulgação

Assim, o documentário vai se apoiando na visceralidade do elenco e na própria biografia de Caio Fernando Abreu, ao mesmo tempo em que incorpora uma certa porção de ficção, com atores “representando” o escritor pelos lugares em que passou, um deles sendo o sobrinho de Caio, Felipe Abreu. O resultado impressiona. Nada mal para um profissional de muitos anos de estrada, mas que está começando agora como diretor,  como é o caso de Candé Salles, que demonstra firmeza apresentando uma visão objetiva sobre planos e fotografia, mais evidente ainda nas cenas mais poéticas.

“O Caio tem o dom da palavra e a capacidade fabulosa de traduzir os sentimentos e as emoções. Quando você é jovem, está tentando definir todas essas sensações, então imediatamente gosta da obra dele. Você fica ‘caraca!, eu sinto isso, mas não sabia que a definição era essa'”, afirma o cineasta.  E esse é o principal motivo pelo qual “Para sempre teu Caio F.” pode atrair um público de todas as idades, gerações e gostos que, se não partilham tanta coisa assim, podem no mínimo dividir sentimentos tão bem esclarecidos por um dos mais admirados escritores brasileiros.

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(Fotos: Zeca Santos)

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